Edward Maille, correspondente da RFI em Atlanta, e agências
O presidente Trump fez um pronunciamento na TV na noite de quinta em que deixou no ar a possibilidade de contestar antecipadamente o resultado das eleições legislativas de meio de mandato dos Estados Unidos marcadas para novembro. O discurso foi feito na Casa Branca após a divulgação de uma nova pesquisa realizada pelo Washington Post e pelo instituto Ipsos, que indicou que seu índice de aprovação havia caído para 37%, com muitos eleitores demonstrando pessimismo em relação ao custo de vida e à guerra em curso com o Irã.
Trump alegou que dados de eleitores em 18 estados foram comprados, roubados ou hackeados pela China e anunciou a desclassificação de centenas de documentos de inteligência para sustentar suas acusações, apesar de os serviços de inteligência americanos não terem encontrado nenhuma prova de interferência chinesa.
"Não podemos jamais assistir a outra eleição roubada", afirmou o presidente em um discurso de pouco mais de 25 minutos. Trump voltou a sustentar, sem apresentar provas, que a eleição presidencial de 2020 teria sido marcada por uma fraude em larga escala em favor de Joe Biden.
Segundo ele, a responsabilidade seria da China, que estaria por trás de interferências eleitorais há vários anos. "A partir da eleição de 2020, a China conduziu o que parece ser a maior operação de invasão de dados eleitorais da história, resultando na obtenção ilegal de 220 milhões de registros de eleitores americanos por parte da China", declarou.
No entanto, nos Estados Unidos, essas informações são públicas, embora muitas vezes sejam pagas. Além disso, segundo a BBC, um relatório da comunidade de inteligência americana concluiu em 2021, com "elevado grau de confiança", que a China não interferiu na eleição presidencial de 2020.
Trump se apoia na existência desses documentos, mas sua interpretação é considerada equivocada. Mesmo que os dados tivessem sido obtidos ilegalmente, isso "de forma alguma teria comprometido" o resultado da eleição, ressaltou Stephen Richer, do centro de estudos conservador Cato Institute.
O republicano assegurou ainda possuir diversas provas de interferências que teriam sido escondidas pelo chamado deep state, ou "Estado profundo", teoria conspiratória segundo a qual setores do governo atuariam contra ele.
Resposta chinesa e reação da oposição
A China classificou na sexta-feira (17) como "puras invenções" as declarações do presidente americano Donald Trump sobre as acusações de interferência nas eleições presidenciais americanas de 2020. "As alegações formuladas pela parte americana não passam de puras invenções e calúnias maliciosas, cuja falta de fundamento já foi comprovada há muito tempo", reagiu Lin Jian, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, durante uma coletiva de imprensa.
O líder democrata no Senado, Chuck Schumer, também acusou Trump de semear dúvidas sobre a segurança das eleições de novembro. "Nos Estados Unidos, são os eleitores que escolhem seus líderes, e não o contrário", escreveu em suas redes sociais.
Serviços de inteligência descartam indícios de interferência
Uma investigação dos serviços de inteligência americanos em 2021 não revelou qualquer indício de que um ator estrangeiro tenha tentado ou conseguido alterar "qualquer aspecto técnico" da eleição presidencial de 2020, seja no registro de eleitores, nas cédulas, na apuração dos votos ou nos resultados.
A avaliação foi realizada sob a supervisão de John Ratcliffe, então diretor de Inteligência Nacional durante o governo Trump e atual diretor da CIA.
O presidente também voltou suas críticas ao sistema eleitoral americano, atacando as máquinas eletrônicas utilizadas para votar e contabilizar os votos: "Elas são vulneráveis, são fáceis de comprometer, e havia pessoas dentro do nosso governo que sabiam disso", disse.
As acusações não são novas, assim como as alegações de que estrangeiros ou até pessoas oficialmente mortas teriam votado. Casos desse tipo existem, mas em proporções muito menores do que as descritas por Trump e sem impacto sobre os resultados eleitorais.
O magnata republicano, que nunca aceitou sua derrota para Joe Biden em 2020, tem acusado nos últimos meses os democratas de tentar manipular as eleições legislativas de novembro, nas quais os republicanos correm o risco de perder sua estreita maioria no Congresso.
Estratégia de Trump para desacreditar eleições?
Diante do caráter controverso dos anúncios esperados, várias grandes redes de televisão decidiram não transmitir o discurso ao vivo. Em resposta, Trump defendeu a retirada das licenças de transmissão dessas emissoras.
"Decisão rara: NBC e ABC disseram que não transmitiriam este discurso. (...) Porque sabem o quanto nosso sistema é corrupto e não querem revelar isso. Elas, assim como outros meios de comunicação, fazem parte de uma conspiração. Querem dar continuidade a essa fraude. (...) Uma fraude como essa deveria resultar na retirada de suas licenças", atacou.
Ao multiplicar acusações sem apresentar provas, Donald Trump reacende as dúvidas já existentes em parte da sociedade americana sobre a confiabilidade do sistema eleitoral. Alguns especialistas suspeitam que ele esteja preparando o terreno para não reconhecer uma eventual derrota, mais uma vez, ou até mesmo para justificar uma tentativa de contestação dos resultados.
Para Romuald Sciora, diretor do Observatório Político e Geoestratégico dos Estados Unidos do instituto francês IRIS, a escolha da China como alvo mobiliza referências profundas da política americana. "A China representa o estrangeiro, o não branco, a potência rival e também um país comunista. Tudo isso conversa com o imaginário americano", afirma.
"O objetivo é muito claro: semear a dúvida sobre o processo eleitoral e, assim, preparar uma contestação por parte do governo contra resultados que provavelmente seriam desfavoráveis a ele, tudo isso com o intuito de se manter no poder", acrescenta o especialista.