Alemanha mira frota fantasma de petroleiros da Rússia

9 set 2026 - 13h25
Resumo
Após culpar Moscou por um ataque frustrado com drones em Leipzig, a Alemanha planeja endurecer ações contra a frota fantasma russa, usada para burlar sanções e financiar a guerra na Ucrânia. Cobrado a seguir o exemplo rigoroso de Finlândia e Suécia na inspeção e retenção de navios, Berlim enfrenta entraves jurídicos do direito marítimo internacional, tensões políticas internas e o risco de retaliações militares russas no Mar Báltico, onde petroleiros já contam com escoltas e apoio bélico.

Depois do atentado fracassado com drone ao aeroporto de Leipzig, governo alemão quer seguir o exemplo de outras nações europeias e agir com mais rigor contra a frota fantasma russa.Quando o governo da Alemanha atribuiu publicamente à Rússia, em 1º de setembro, a responsabilidade pela tentativa fracassada de ataque com drones ao Aeroporto de Leipzig-Halle, anunciou também uma série de medidas de retaliação.

Entre elas está uma ação mais rigorosa contra a chamada frota fantasma russa. Trata-se, em geral, de navios antigos, mal conservados, insuficientemente segurados e com estruturas de propriedade pouco transparentes, na maioria petroleiros, que a Rússia utiliza para tentar contornar as sanções internacionais.

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Mas apreender essas embarcações não é tão simples, afirma o especialista em segurança marítima Julian Pawlak, do Instituto Alemão de Assuntos Internacionais e de Segurança (SWP), de Berlim. Isso porque o direito marítimo internacional, em princípio, protege a liberdade da navegação comercial. "O transporte desses produtos em alto-mar não é, por si só, ilegal", diz.

Partes dessa frota fantasma estão ligadas às chamadas atividades híbridas, como atos de sabotagem, espionagem e operações com drones.

A especialista em segurança do Partido Verde, Sara Nanni, considera que a Alemanha fez muito pouco até agora para combater o problema da frota fantasma. "Os russos financiam sua guerra contra a Ucrânia e seu comportamento agressivo em relação à Europa por meio de sua frota fantasma", declarou à DW.

Segundo ela, é preciso agir contra essas embarcações. "Essa é a única coisa que poderia levar a Rússia de volta à mesa de negociações."

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Nanni acusa o governo alemão de não querer agir. "Outras nações fazem isso no Mar Báltico, a Alemanha não. Ouço do ministro do Interior que isso seria tecnicamente ou juridicamente difícil. Mas acredito que seja uma decisão política não fazer isso. E isso está errado."

Finlândia dá o exemplo

A Finlândia é uma dessas "outras nações". No fim de 2024, o petroleiro Eagle S. arrastou uma âncora pelo fundo do Golfo da Finlândia e danificou o cabo elétrico Estlink 2. A guarda de fronteira finlandesa apreendeu a embarcação.

Embora posteriormente um tribunal finlandês tenha rejeitado a acusação de danos materiais graves, o especialista em segurança Sönke Marahrens, da Universidade de Kiel, elogia a atuação finlandesa.

"Eles enviaram um sinal claro ao outro lado e disseram 'sabemos o que vocês estão fazendo e vamos impedi-los'. E foi possível perceber que, após essa mensagem clara, o outro lado mudou seu comportamento."

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Além da Finlândia, o Reino Unido, a França e também a Suécia passaram a agir de forma rigorosa contra embarcações suspeitas. A guarda costeira sueca intercepta e inspeciona deliberadamente petroleiros e cargueiros em suas águas territoriais quando há suspeita de que façam parte da frota fantasma.

Os navios são sistematicamente retidos quando utilizam documentos falsificados, não possuem seguro adequado, representam riscos à segurança marítima ou violam leis ambientais.

As ameaças da Rússia são apenas um blefe?

Há quem suspeite que o governo alemão esteja sendo cauteloso para evitar uma confrontação com a Rússia, sobretudo depois que, nas eleições estaduais da Saxônia-Anhalt, venceu a AfD, um partido que, apesar da guerra na Ucrânia, defende uma melhora das relações entre Alemanha e Rússia.

Pesquisas mostram que entre os fatores decisivos para o voto estava o temor de uma guerra na Europa. O ministro do Exterior da Rússia, Serguei Lavrov, chegou a classificar as acusações alemãs contra Moscou como o "início de uma guerra real".

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Mas o analista alemão Johannes Peters, do Instituto de Política de Segurança, considera esse receio infundado. "Outros Estados europeus adotam uma postura mais firme e, ao contrário dos temores e, sobretudo, da retórica russa, nada acontece."

Ele avalia que a Rússia prefere evitar conflitos e, assim, problemas. "Vemos que, especialmente os petroleiros carregados, que são extremamente valiosos, atualmente evitam as águas suecas porque os suecos aumentaram as inspeções."

Após o incidente em Leipzig, o chanceler federal da Alemanha, Friedrich Merz, declarou que os russos "pagarão por isso". Peters observa que, se o governo alemão dá declarações tão enfáticas, em algum momento terá que transformá-las em ações. "O chanceler federal colocou o governo sob pressão para agir."

Resposta armada russa

Mas inspecionar embarcações russas suspeitas não é algo isento de riscos, observa Pawlak. "Navios de guerra russos podem escoltar essas embarcações ou, como tem sido observado com maior frequência, é possível que existam tripulações armadas a bordo com ligações com grupos mercenários russos."

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A Estônia vivenciou isso com o petroleiro Jaguar. Em maio de 2025, seu capitão ignorou instruções das autoridades estonianas enquanto navegava em águas costeiras do país. Os estonianos tentaram interceptar e inspecionar o navio suspeito.

Como resposta, a Rússia enviou um caça militar para a região. Diante da situação, as autoridades estonianas recuaram, e o petroleiro pôde seguir viagem.

"É importante considerar em que região essas atividades são realizadas", afirma Pawlak. "No Mar Báltico, a Rússia está geograficamente muito mais próxima e, naturalmente, possui outras possibilidades, inclusive de empregar unidades militares de apoio." A situação é outra em locais mais distantes, como o Canal da Mancha, entre o Reino Unido e a França.

Apesar de considerar justificadas as medidas contra navios da frota fantasma, Peters alerta contra expectativas exageradas - as inspeções não conseguirão acabar com esse sistema. "O objetivo é impor riscos e incertezas à frota fantasma russa e elevar seus custos operacionais", diz. "E as receitas provenientes da exportação de petróleo são essenciais para a economia de guerra da Rússia."

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