Zâmbia: famílias de pescadores são expulsas de ilha após chegada de gigante chinesa do setor

Centenas de pescadores viviam pacificamente na Ilha Jeremiah, um paraíso no Lago Kariba, entre a Zâmbia e o Zimbábue. Mas o destino dessas famílias mudou há três anos, quando uma empresa chinesa de piscicultura tomou posse do local. A polícia zambiana expropriou os habitantes e incendiou suas casas. Não houve investigação e nenhuma assistência foi prestada às famílias, constatou a reportagem da RFI.

30 jul 2026 - 16h37

Igor Strauss e Vesper Kove, enviados especiais da RFI a Siavonga

O Lago Kariba se estende por 220 quilômetros ao longo da fronteira entre a Zâmbia e o Zimbábue. Foi criado com a construção de uma barragem hidrelétrica em 1959 por britânicos e inaugurado pela rainha-mãe Elizabeth da Inglaterra, em maio de 1960. É um dos maiores lagos artificiais do mundo: cobre 5.600 km², quatro vezes o tamanho de Nova York.

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Inúmeras ilhotas pontilham suas águas profundas, calmas e repletas de peixes, de um azul intenso. A biodiversidade aquática e de aves é reconhecida por sua riqueza e abundância. Comunidades se estabeleceram e viveram nesse cenário idílico desde então.

Tudo mudou no início de 2023. Aproximadamente 500 pescadores viviam em Siavonga, na Ilha Jeremiah, no lado zambiano, no norte do lago. Em uma noite de fevereiro, eles foram violentamente expulsos de suas casas por cerca de 30 membros armados das forças de segurança zambianas, segundo testemunhas ouvidas pela RFI.

Os bens da comunidade, incluindo equipamentos de pesca e dinheiro, foram destruídos. Desde o despejo, os pescadores expropriados perderam seus meios de subsistência e suas perdas ainda não foram indenizadas.

Mike Moonga, pescador de 45 anos, pai de oito filhos, morava na ilha desde 2017. "Por volta das 3h da manhã, fomos repentinamente acordados por tiros. Soldados e policiais atiravam para tentar evacuar a ilha. Saímos assim, sem mais nem menos."

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Bebê sufocado 

Naquela noite, quatro membros da comunidade foram presos e detidos durante o processo de despejo, e cerca de 100 pessoas também ficaram feridas, segundo a Fian, uma ONG alemã de direitos humanos que atua na Zâmbia.

"Fomos espancados", conta Mike Moonga. "Fui ao hospital para receber tratamento. Mas quando disse que havia sido espancado por soldados na ilha, me disseram para ir à delegacia registrar a ocorrência e solicitar um atestado médico. Então, eles me prenderam", relembra. "Acabei no tribunal e fui condenado a seis meses de prisão porque havia impedido o policial 'de cumprir suas funções', eles disseram, quando eu estava simplesmente tentando impedi-los de incendiar a minha casa."

Para Elita, o desfecho é muito mais trágico. Na noite em que foi expulsa pelo exército, sua filha tinha apenas dois meses de idade. "Ela passou mal com o gás lacrimogêneo", conta. "Não conseguia respirar. Estava apavorada com o som dos tiros e gritos. Morreu pouco depois."

A ligação direta entre a violência e essa morte não pôde ser formalmente estabelecida, uma vez que nenhuma investigação foi realizada. Elita queria exigir "justiça para [sua] filha. Mas quando fui à delegacia, fui presa."

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Pescadores artesanais atuam em Siavonga.
Pescadores artesanais atuam em Siavonga.
Foto: RFI

Depois do episódio, novos prédios foram construídos e soldados permanecem na vigilância da ilha por 24h. Em 2018, uma empresa chinesa, a Zamfresh, chegou à região para desenvolver uma operação de piscicultura.

"Integrantes do governo já tinham nos pedido para evacuar a ilha", continuou Mike Moonga. "Mas sem nos dizer o porquê. Na verdade, não quiseram nos dizer que a ilha foi comprada pelos chineses, embora a lei zambiana não permita que ilhas sejam vendidas."

A RFI não obteve nenhuma resposta das autoridades locais a essa acusação. A Zamfresh também não respondeu aos pedidos de entrevista.

Pescadores atropelados por lancha

Três meses após a noite do incêndio, um evento trágico parece implicar diretamente a Zamfresh, segundo uma fonte que foi testemunha ocular, Kennedy Mwetwa.

"Meus companheiros e eu fomos pescar perto das gaiolas submersas pertencentes à empresa chinesa porque eles estavam espalhando muita comida para atrair peixes. Quando um dos barcos de vigilância deles nos avistou, acelerou repentinamente. Nosso barco virou. Infelizmente, não consegui salvar o amigo que estava comigo a bordo. Eu mesmo estava exausto, mas consegui nadar até a costa", conta.

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O homem morto era Titus Sramannsa. Mais uma vez, sua morte nunca foi investigada.

Para Mike Moonga, o cerne do problema é a corrupção no governo zambiano e no Departamento de Pesca do país. "Eles permitiram que empresas chinesas traçassem uma linha de demarcação no lago, impedindo a entrada dos pescadores. Agora, a empresa chinesa e os líderes comunitários locais estão em conluio e, em vez de nos protegerem, estão nos traindo", acusou.

A pequena comunidade, que dependia do lago para seu sustento, agora está privada de seus recursos. "Não recebemos nenhuma ajuda do governo. Nada."

O Conselho Distrital de Siavonga, também contatado pela reportagem, não respondeu aos pedidos de informação sobre a ocupação da Ilha Jeremiah pela empresa chinesa.

Zamfresh: uma subsidiária voraz

A Zamfresh é uma subsidiária da Zamgreen Agriculture Limited, uma empresa agrícola cujas atividades abrangem diversos setores, da pesca ao plantio e produção de sementes. Ela própria faz parte do grupo SunShare, um importante player global em energia solar.

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Em 4 de maio de 2026, a SunShare assinou um acordo de investimento de US$ 246 milhões com o governo da Zâmbia para desenvolver sua capacidade de geração de energia elétrica. Em oito anos, a Zamfresh se tornou uma das maiores empresas de pesca da África Austral.

No Lago Kariba, no distrito de Siavonga, a Zamfresh possui mais de 300 grandes tanques-rede para peixes, fornecendo principalmente tilápia fresca de alta qualidade. O peixe é vendido em supermercados em toda a Zâmbia e Zimbábue.

A companhia também opera uma fábrica de processamento de pescado e duas unidades de produção de ração animal. A empresa pretende aumentar gradualmente sua produção de peixe fresco e exportar produtos como peixe seco e filés de peixe para os Estados Unidos e o resto do mundo. Para alcançar esse objetivo, a Zamfresh monopoliza os estoques de peixes do Lago Kariba.

Zamfresh se instalou na China nos anos 2020.
Foto: RFI

Victor, um morador local, conhece a atuação da companhia financiada pela China. Ele tem muitos contatos na comunidade chinesa local porque vende lagostins, que os locais não consomem. Seu mercado abrange todo o território zambiano e seus clientes incluem empresários chineses em Lusaka e na província de Copperbelt.

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"Pelo que sei, todas as empresas chinesas pagam o salário mínimo a seus funcionários, mas não a Zamfresh. A situação lá é dramática", afirma. "Não há equipamentos de segurança. Alguns trabalhadores dormem no local de trabalho em condições terríveis. Outros também são vítimas de abusos."

Zamfresh foi multada pelas autoridades

Pouco depois da sua chegada em 2018, a empresa esteve no centro de vários escândalos no país. Desde o início da pandemia de Covid-19 na Zâmbia, não cumpriu as normas sanitárias em vigor, de acordo com um relatório de 2021 do Centro de Direitos Humanos e Empresas.

Depois, ciente das deploráveis condições de trabalho dos funcionários zambianos, uma equipe conjunta de representantes do governo e da agência nacional de saúde realizou uma operação de inspeção à estrutura de piscicultura. O fechamento da Zamfresh foi ordenado para 6 de junho de 2021, mas pouco depois a empresa conseguiu retomar suas atividades.

Gwendolyn Mwanza Mchenga, oficial de relações públicas do distrito de Siavonga, explicou em entrevista à mídia local que a Zamfresh violou a Lei de Saúde Pública e Segurança Alimentar. "As causas do fechamento da fábrica incluem falta de higiene, má gestão de resíduos, banheiros masculinos e femininos inutilizáveis, com fezes no chão e nas paredes, dormitórios de trabalhadores superlotados e mal ventilados, descarga de esgoto bruto no meio ambiente, causando odores desagradáveis, poluição ambiental e esgoto bruto de fábricas de processamento sendo descarregado no lago", relatou.

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Mwanza Mchenga esclarece que "a empresa utiliza água não tratada na sua fábrica de processamento de pescado e os trabalhadores da fábrica não são submetidos a exames médicos ou certificados para manusear alimentos destinados ao consumo público".

Mais recentemente, em março de 2026, um vídeo que mostrava dois funcionários chineses da empresa maltratando um colaborador zambiano tornou-se viral nas redes sociais, provocando revolta de internautas no país.

A polícia alegou que o funcionário zambiano era suspeito de utilização de documentos falsos e roubo, num valor total de 14.000 kwacha (R$ 3,8 mil). O Ministério do Trabalho da Zâmbia recomendou a deportação dos dois funcionários chineses e aplicou uma multa de 160 mil kwacha (R$ 44 mil) à SunShare, por não ter fornecido aos empregados contratos de trabalho e contracheques.

Antes da chegada dos chineses, os rendimentos da pesca permitiam que habitantes modestos levassem "uma vida normal". "Hoje, a nossa vida tornou-se muito difícil. Não temos mais nada. Não temos futuro", diz Mike Moonga. "Não queremos partir. Foi aqui que nascemos e crescemos. Mas exigimos uma compensação".

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