Sudanesa grávida é condenada à morte por ser cristã

Segundo a sentença, Ishaq receberá 100 chibatadas como castigo e depois será enforcada

15 mai 2014 - 09h47
(atualizado em 29/5/2014 às 13h12)
<p>(Imagem de arquivo): sudanesa segura o filho nas costas; uma mulher do país africano foi condenada à morte por se converter ao cristianismo</p>
(Imagem de arquivo): sudanesa segura o filho nas costas; uma mulher do país africano foi condenada à morte por se converter ao cristianismo
Foto: Getty Images

A Justiça do Sudão condenou à morte por enforcamento uma mulher muçulmana acusada de apostasia - abandono da religião - depois que ela se afastou do Islã para se casar com um cristão.

"Demos a você três dias para se retratar mas você insiste em não voltar para o Islã. Sentencio você a ser enforcada até a morte", disse o juiz, segundo a agência de notícias AFP, se referindo ao prazo dado para que a mulher aceitasse o islamismo.

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O grupo de defesa de direitos humanos Anistia Internacional condenou a decisão e afirmou que a sentença é "espantosa e repugnante".

A imprensa local informou que, como a mulher está grávida, a sentença só será executada dois anos depois do nascimento da criança.

A mulher foi identificada como Meriam Yehya Ibrahim Ishag e alega que é cristã.

A maioria da população sudanesa é muçulmana e o país segue as leis islâmicas. Segundo estas leis, a apostasia é um crime.

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Chibatadas

Embaixadas de países ocidentais e grupos de defesa de direitos humanos pediram que o governo do Sudão respeite o direito da mulher de escolher a própria religião.

As embaixadas dos Estados Unidos, Canadá, Grã-Bretanha e Holanda divulgaram uma declaração conjunta na qual afirmaram que os países estavam muito preocupados com o caso e pediram que o governo do Sudão respeite a liberdade de religião.

Mas, além da pena de morte, o juiz do caso também sentenciou a mulher a receber 100 chibatadas por adultério, já que o casamento com o homem cristão não é considerado válido segundo a lei islâmica.

A sentença das chibatadas será executada assim que a mulher se recuperar do parto.

A condenação por adultério se deve ao fato de, segundo a lei islâmica do Sudão, uma mulher muçulmana não pode se casar com homens de outra religião. Meriam se casou com um cristão do Sudão do Sul.

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Durante a audiência, Meriam, cujo nome islâmico é Adraf Al-Hadi Mohammed Abdullah, foi interrogada por um clérigo islâmico e disse ao juiz que era uma "cristã e nunca cometi apostasia".

Segundo a Anistia Internacional, a mulher foi criada como cristã ortodoxa, a religião da mãe, pois ela teria tido um pai ausente durante a infância.

A Anistia informou que a mulher foi presa e acusada de adultério em agosto de 2013 e a Justiça sudanesa adicionou a acusação de apostasia em fevereiro de 2014, quando Meriam disse que era cristã.

O pesquisador da organização especializado em assuntos ligados ao Sudão, Manar Idriss, condenou a sentença e afirmou que apostasia e adultério nem deveriam ser considerados crimes.

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"O fato de uma mulher ter sido sentenciada à morte por sua escolha religiosa e à chibatadas por adultério por ser casada com um homem que, supostamente, tem outra religião, é espantoso e repugnante", disse.

A condenação gerou polêmica no país de acordo com a AFP. Pequenos grupos de manifestantes, contra e a favor da sentença, se reuniram em frente à corte onde Meriam foi julgada.

O correspondente da BBC em Cartum Osman Mohamed, afirmou que sentenças de morte raramente são executadas no Sudão.

E um dos advogados de Meriam disse à AFP que vai entrar com um recurso em instâncias superiores.

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