Lula vai à Alemanha com agenda econômica de olho no acordo Mercosul-UE

17 abr 2026 - 16h25

Levando ministros e empresários, presidente brasileiro se encontrará com chanceler federal Friedrich Merz e abrirá Feira Industrial de Hannover. Viagem também marca 3° edição das consultas de alto nível Alemanha-Brasil.Com uma comitiva composta de dezenas de ministros e empresários, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva desembarca neste fim de semana em Hannover, na Alemanha, para cumprir uma agenda recheada de temas econômicos e dar continuidade à reaproximação que tem ocorrido entre o Brasil e o país europeu desde 2023.

A viagem, que também inclui paradas na Espanha e Portugal, ocorre a pouco menos de suas semanas da entrada em vigor provisória do acordo de livre-comércio entre o Mercosul e a União Europeia, que foi fortemente apoiado por Brasília e Berlim.

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Na Alemanha, Lula será recebido pelo chanceler federal Friedrich Merz, marcando o terceiro encontro entre os dois líderes, mas o primeiro que não ocorre à margem de uma cúpula internacional.

Os dois já se encontraram no ano passado na COP30, em Belém, e na reunião do G20, na África do Sul. À época, os dois encontros foram ofuscados por um comentário desabonador de Merz sobre a cidade de Belém, mas desde então tanto o chanceler federal e quanto Lula minimizaram o incidente.

Na Alemanha, a agenda de Lula inclui dois destaques. Em Hannover, Lula participará da abertura da tradicional Feira Industrial da cidade, na qual neste ano o Brasil é o país homenageado. Ele também participará, ao lado de ministros brasileiros e alemães, da terceira rodada das chamadas consultas intergovernamentais de alto nível Alemanha-Brasil, um mecanismo de diálogo que o governo alemão mantém com poucos parceiros internacionais e que prevê reuniões regulares entre os países.

O Itamaraty também afirmou que os governos da Alemanha e Brasil devem assinar pelo menos dez acordos em área de defesa, meio ambiente, bioeconomia, infraestrutura e inteligência artificial, entre outros temas.

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Comitiva de mais de uma dezena de ministros e empresários

O giro de Lula pela Europa tem uma comitiva de 14 ministros, entre eles os titulares das Relações Exteriores; Fazenda; Desenvolvimento, Comércio e Indústria; Minas e Energia; Ciência e Tecnologia; Meio Ambiente; Trabalho e Emprego; Cultura; Empreendedorismo; Gestão e Inovação; Mulheres; Igualdade Racial; Direitos Humanos; e Controladoria-Geral da União. Vários dos titulares são novos nos cargos, tendo assumido após antecessores terem se desligado para disputar eleições.

Além dos ministros, a comitiva ainda inclui o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, e o presidente da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), Jorge Viana.

A presença de 14 ministros equipara o recorde de titulares de pastas de duas viagens anteriores de Lula: em 2023, para a COP28 em Dubai; e em agosto de 2024, no Chile.

Feira de Hannover e encontro com empresários

No domingo (19/04) Lula desembarca em Hannover, onde o Brasil é o país homenageado na tradicional feira industrial da cidade, a maior do setor no mundo.

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Além de marcar a abertura da feira, que ocorre entre os dias 20 e 24 de abril, Lula vai conferir o estande brasileiro, que conta com cerca de 2.700 metros quadrados de exposição, organizados em seis áreas temáticas: transição energética, hidrogênio, digitalização, indústria avançada, economia circular e inteligência artificial. A feira propagandeia a presença de 140 empresas brasileiras e outras 300 apoiadas indiretamente.

"O Brasil é o país parceiro ideal para a Feira de Hannover, não apenas por sua força em tecnologias-chave como digitalização e energias renováveis, mas também por sua crescente importância geopolítica. Em uma economia global em constante transformação, a estreita cooperação com o Brasil é de imensa importância estratégica. Essa combinação torna o país um parceiro indispensável para a Alemanha e a Europa", disse Jochen Köckler, CEO da feira.

Na segunda-feira (20/04), Lula também participa da abertura da 42ª edição do Encontro Econômico Brasil-Alemanha, que deve reunir centenas de empresários e autoridades dos dois países. O encontro é organizado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) e pela Federação das Indústrias Alemãs (BDI), que prevê painéis sobre energias renováveis, hidrogênio verde, clima e inovação, digitalização, infraestrutura e investimentos.

Terceira rodada de consultas intergovernamentais Alemanha-Brasil

Um dos principais destaques da agenda de Lula vai ocorrer na segunda-feira e envolve a terceira edição das consultas intergovernamentais de alto nível Alemanha-Brasil.

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A primeira edição dessas consultas ocorreu em 2015, durante a era Dilma Rousseff. Na época, apenas dez países faziam parte do seleto grupo de parceiros mais próximos de Berlim: França, Espanha, Itália, Polônia, Israel, Rússia, China, Índia, Tunísia e Holanda. Na primeira edição, a então chanceler Angela Merkel esteve em Brasília com uma comitiva de ministros e secretários que se reuniram com seus homólogos brasileiros.

À época, a Alemanha tinha a expectativa de que essas reuniões ocorressem a cada dois anos, mas a segunda edição só ocorreu depois de um hiato de oito anos, passada a turbulência do governo Michel Temer e a hostilidade de Jair Bolsonaro a governos europeus.

Em dezembro de 2023, o jejum foi quebrado com a volta ao poder de Lula, que foi recebido com uma visita de Estado a Berlim e participou finalmente da segunda rodada de consultas intergovernamentais com o governo alemão, à época liderado pelo então chanceler federal Olaf Scholz, do Partido Social-Democrata (SPD). Nessa visita, foram assinados 19 acordos de cooperação entre Brasil e Alemanha.

Visita em momento delicado tanto para o governo alemão quanto para o brasileiro

Embora os dois governos tenham propagandeado o encontro como uma reafirmação dos laços econômicos e políticos, a cúpula ocorre em meio a crescentes desafios internos para Lula e Merz em seus respectivos países.

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O cenário não é inédito e já tem virado uma espécie de "tradição" do mecanismo de consultas intergovernamentais, que pela terceira vez têm ocorrido em uma conjuntura de dificuldades para pelo menos um dos governos participantes.

Em 2015, a primeira edição das consultas intergovernamentais ocorreu em um cenário de crescente crise econômica e política no Brasil, que poucos meses depois acabaria por sepultar o governo Dilma. Já o segundo encontro, em 2023, ocorreu em meio à erosão do governo do então chanceler federal Olaf Sholz, cuja coalizão desmoronaria menos de um ano depois.

Desta vez, o cenário é composto por Merz enfrentando crescente impopularidade, conforme a economia alemã segue tomada por dificuldades e baixo crescimento, que têm se agravado com a guerra no Irã e o consequente aumento de preços de energia. No momento, apenas 21% dos alemães aprovam a administração Merz e o bloco conservador do chanceler federal tem aparecido tecnicamente empatado em pesquisas eleitorais com a sigla rival de ultradireita Alternativa para a Alemanha (AfD).

Paralelamente, o governo também tem tido dificuldades para aprovar reformas no setor de saúde e pensões.

Já Lula, que segue disposto a disputar a reeleição, tem visto nos últimos meses o que parecia ser um cenário bastante favorável a uma nova vitória ser pouco a pouco ameaçado pela pré-candidatura presidencial do senador Flávio Bolsonaro, filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro.

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Pesquisas tem mostrado que a pré-candidatura de Flávio, que inicialmente foi encarada no fim do ano passado como um artifício para servir de moeda de troca política, tem se mostrado cada vez mais viável, pressionando as chances de Lula.

Nesta semana, uma pesquisa Genial/Quaest apontou que Lula ainda tem vantagem num primeiro turno, mas que Flávio já aparece tecnicamente empatado com o presidente numa eventual segunda rodada.

Economia

A Alemanha é a quarta maior parceira comercial do Brasil, mas é a primeira entre países europeus, com corrente de comércio de 20,9 bilhões de dólares em 2025 e estoque de investimentos diretos estimado em 38,5 bilhões de dólares, em 2024.

O Brasil exporta para a Alemanha principalmente produtos primários, enquanto as importações do país europeu são majoritariamente de industrializados. Isso faz com que a balança pese favoravelmente para os alemães, um fato que foi destacado por Lula em entrevista concedida à revista alemã Der Spiegel nesta semana.

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"A Alemanha tem um superávit comercial de 7 bilhões de dólares com o Brasil. Queremos continuar comprando da Alemanha, mas precisamos trabalhar para alcançar um equilíbrio. Isso significa que o Brasil deve produzir mais produtos de alta qualidade e vendê-los na Alemanha. Isso depende muito de nós", disse Lula.

Cooperação

Os atuais governos dos dois países mantêm sintonia em alguns temas, entre eles cooperação para proteção climática, produção de energia e reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Na última década, a Alemanha também se posicionou com uma das principais defensoras na Europa do Tratado de Livre Comércio entre o Mercosul e a União Europeia, que finalmente entrará em vigor - ainda que de maneira provisória - no início de maio. Com uma economia exportadora industrial e com peso menor do setor agrário, Berlim não compartilhou da posição de países como França e Irlanda, que explicitaram várias objeções ao acordo.

Os dois países também são parceiros no bilionário Fundo Amazônia, mecanismo de proteção ambiental conta com financiamento do Estado alemão em parceria com a Noruega. Mais recentemente, na COP30, a Alemanha anunciou uma contribuição de 1 bilhão de euros para o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), uma iniciativa anunciada pelo governo Lula em 2023.

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A Alemanha e o Brasil também cooperam na área de expansão da produção hidrogênio verde (H2V), combustível produzido a partir de energias renováveis e que desponta como aposta para descarbonizar setores que emitem grandes quantidades de CO2, como agricultura, indústria e geração de energia. Nos últimos anos, foram lançadas iniciativas de cooperação entre Brasil e Alemanha para a formação de um mercado de produção e exportação de H2V.

A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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