O presidente Luiz Inácio Lula da Silva subiu o tom contra o líder norte-americano Donald Trump em uma entrevista de grande repercussão publicada nesta quinta-feira (16). O fato mais impactante da declaração foi a afirmação de que o republicano "não foi eleito imperador do mundo" e a crítica direta à postura de Washington de "ameaçar outros países com guerra o tempo todo". O petista alertou que o planeta corre o risco de se transformar em um campo de batalha único caso não haja uma reorganização da ordem global. Lula destacou que conflitos iniciados por grandes potências, como uma possível guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã, acabam sendo pagos pelos mais pobres da África e da América Latina através da inflação dos alimentos.
Durante a conversa, o presidente brasileiro demonstrou frustração com a falta de diálogo entre as potências mundiais. Ele revelou ter solicitado aos líderes Xi Jinping, da China, Vladimir Putin, da Rússia, e Emmanuel Macron, da França, a convocação de uma reunião emergencial do Conselho de Segurança da ONU, mas afirmou que ninguém "deu ouvidos". Para o presidente, o mundo parece estar "à deriva em alto mar, em um navio sem capitão". Lula defendeu uma reforma profunda nas Nações Unidas, sugerindo a inclusão de novos membros permanentes no Conselho de Segurança, como o próprio Brasil, a Alemanha e representantes do Oriente Médio e da África. Ele questionou a moralidade dos atuais membros permanentes, apontando que os maiores produtores de armas e detentores de arsenais nucleares são justamente os que deveriam preservar a paz, mas acabam travando guerras.
Sobre a política interna, o presidente abordou pela primeira vez com mais clareza o cenário para as eleições de outubro. Embora não tenha confirmado oficialmente sua candidatura à reeleição, ele afirmou que está se "preparando" e que se sente fisicamente capaz para o desafio. "Estou com a cabeça e o corpo 100% em forma. Quero viver até os 120 anos", declarou o petista. Ao comentar o empate técnico nas pesquisas entre ele e Flávio Bolsonaro, Lula garantiu que respeitará o resultado das urnas em qualquer cenário, mas reforçou sua crença de que a ideologia de direita "não tem futuro" por se basear em ódio e mentiras.
A entrevista ocorreu às vésperas de sua viagem à Europa, onde participará da abertura da Feira de Hannover ao lado do chanceler alemão Friedrich Merz. O encontro promete ser diplomático, apesar de Lula ter aproveitado para comentar com bom humor uma gafe anterior de Merz sobre o Brasil. O presidente também esclareceu a posição do governo sobre o auxílio a Cuba, explicando que não enviou petróleo para a ilha para proteger a Petrobras de sanções no mercado de Nova York. Em vez disso, o foco da ajuda brasileira será o envio de medicamentos, alimentos e o apoio para que o país caribenho conquiste independência energética.