Lula e Merz se encontram em momento delicado para seus governos

18 abr 2026 - 13h25

Presidente vai a Hannover com agenda econômica e de reforço de laços políticos, mas encontrará um governo alemão que sofre com impopularidade. Já líder brasileiro tem se deparado com reeleição cada vez mais desafiadora.O presidente Luiz Inácio Lula da Silva desembarca na Alemanha neste fim de semana para cumprir uma agenda que combina encontros políticos e reuniões empresariais para reforçar a relação bilateral entre Brasília e Berlim.

Na agenda está a participação de Lula na Feira Industrial de Hannover, que neste ano terá o Brasil como país homenageado, e a terceira rodada das chamadas consultas intergovernamentais de alto nível Alemanha-Brasil, um mecanismo de diálogo que o governo alemão mantém com poucos parceiros internacionais e que prevê reuniões regulares entre os países.

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Como parte da agenda, Lula terá reuniões com o chanceler federal da Alemanha, Friedrich Merz. Esse será o terceiro encontro entre Lula e Merz, mas o primeiro que não ocorre à margem de uma cúpula internacional. Os dois já se encontraram no ano passado na COP30, em Belém, e na reunião do G20, na África do Sul.

Embora os dois governos tenham propagandeado o encontro como uma reafirmação dos laços econômicos e políticos, a cúpula ocorre em meio a crescentes desafios internos para Lula e Merz em seus respectivos países.

O cenário não é inédito e já tem virado uma espécie de "tradição" do mecanismo de consultas intergovernamentais, que pela terceira vez têm ocorrido em uma conjuntura de dificuldades para pelo menos um dos governos participantes.

Em 2015, a primeira edição das consultas intergovernamentais ocorreu em um cenário de crescente crise econômica e política no Brasil, que poucos meses depois acabaria por sepultar o governo Dilma. Já o segundo encontro, em 2023, ocorreu em um momento de reaproximação entre o Brasil e Alemanha após a era Bolsonaro, mas também em meio à erosão do governo do então chanceler federal Olaf Sholz, cuja coalizão desmoronaria menos de um ano depois.

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Merz: economia e popularidade em baixa

Sem ainda completar um ano à frente do governo alemão, o chanceler federal Friedrich Merz, da conservadora União Democrata Cristã (CDU), nunca foi tão impopular.

Uma pesquisa divulgada na primeira quinzena de abril apontou que 70% dos eleitores alemães estão insatisfeitos com a atuação pessoal do chefe de governo. Só 21% se mostram satisfeitos. Já os números da coalizão de governo, que conta com o bloco conservador CDU/CSU de Merz e o Partido Social-Democrata (SPD), são ainda piores, com 73% dos eleitores se mostrando insatisfeitos.

Sob Merz, a Alemanha continua a patinar economicamente. Após dois anos de recessão, relacionados principalmente à invasão da Ucrânia pela Rússia e o consequente aumento dos preços da energia, a maior economia europeia teve um crescimento pífio de 0,2% em 2025. E as previsões inicialmente mais otimistas para 2026 vêm sendo agora reduzidas por causa dos efeitos da guerra no Irã, com a projeção de crescimento de 1,3% caindo para 0,6%, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI).

Em março, o país também registrou mais de 3 milhões de desempregados, com a taxa chegando a 6,4% e com a série mostrando poucos sinais de mudança. Nos últimos meses, o noticiário do país também passou a ficar repleto de anúncios de planos de demissão em massa em grandes empresas, incluindo gigantes como a montadora Volkswagen.

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A insatisfação dos alemães com o governo Merz também se refletido no fato de que 66% dos eleitores se sentem sobrecarregados por impostos e contribuições para a previdência social. A mesma pesquisa mostrou que 70% dos alemães não acreditam que o governo será capaz de implementar medidas para melhorar a situação econômica.

Merz ascendeu ao governo alemão em maio do ano passado prometendo uma série de reformas estruturais, que incluíram estímulos bilionários para os setores de infraestrutura e de defesa, numa tentativa de reposicionar a Alemanha econômica e politicamente. Mas até agora os efeitos têm sido modestos, enquanto projetos envolvendo saúde e previdência ainda nem saíram do papel.

Dentro da coalizão de governo, também há sinais de disputas internas, com cada pacote de reformas sendo encarado mais como um teste de estresse para a coalizão entre o bloco CDU/CSU e o SPD do que demonstrações de unidade.

Em fevereiro, numa rara autocrítica, Merz admitiu algumas das dificuldades. "Talvez não tenhamos deixado claro com rapidez suficiente, após a mudança de governo, que não seríamos capazes de realizar esse enorme esforço de reforma da noite para o dia".

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A má avaliação do governo tem se refletido em pesquisas eleitorais. No momento, o bloco CDU/CSU, que ficou em primeiro lugar na última eleição federal, tem perdido e apoio e aparecido regularmente tecnicamente empatado na preferência do eleitorado com o partido de ultradireita Alternativa para a Alemanha (AfD), que também tem crescido em eleições estaduais.

Já o parceiro SPD tem visto sua preferência continuar a diminuir, ficando abaixo até mesmo do histórico mau resultado da eleição de 2025. Embora as próximas eleições só estejam previstas para 2029, no atual cenário, a soma de preferências do bloco CDU/CSU e SPD indica que os partidos não seriam capazes de assegurar uma maioria no Parlamento alemão.

O cenário externo também tem se revelado desafiador para Merz, com a continuidade da guerra da Ucrânia, a nova turbulência do conflito no Irã e a dificuldade de lidar com o governo do americano Donald Trump, que tem ameaçado retirar os EUA da Otan, o principal pilar da segurança alemã.

Lula: busca pela reeleição tem se mostrado mais desafiadora

Embora a situação de Lula seja menos turbulenta que a de Merz, o presidente brasileiro também se vê em um momento de crescentes desafios.

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Candidato declarado a reeleição em outubro, Lula, que deve disputar sua sétima eleição presidencial, tem visto nos últimos meses o que parecia ser um cenário bastante favorável a uma nova vitória ser pouco a pouco ameaçado pela pré-candidatura presidencial do senador Flávio Bolsonaro, filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Pesquisas tem mostrado que a pré-candidatura de Flávio, que inicialmente foi encarada no fim do ano passado como um artifício para servir de moeda de troca política, tem se mostrado cada vez mais viável, pressionando as chances de Lula.

Nesta semana, uma pesquisa Genial/Quaest apontou que Lula ainda tem vantagem num primeiro turno, mas que Flávio já aparece tecnicamente empatado com o presidente numa eventual segunda rodada.

A menos de seis meses do primeiro turno, uma pesquisa Datafolha também indicou na semana passada que a avaliação negativa do governo Lula permanece em 40%, enquanto a positiva caiu de 32% para 29% frente a um levantamento de março, enquanto 29% classificam a gestão como regular.

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Mesmo com o desemprego atingindo mínimas históricas e inflação dentro da meta, especialistas em opinião pública apontam que persiste entre parte do eleitorado a percepção de dificuldade econômica, alimentada pela precarização de certas categorias de trabalho e forte endividamento.

No Congresso, o governo também tem acumulado dificuldades, com o governo tendo que pagar preços altos para conseguir a aprovação de projetos e tendo que lidar regularmente com "pautas-bomba" apresentadas nas duas Casas.

Alguns aliados têm reconhecido as dificuldades, apontando para problemas de comunicação. No fim de março, o ministro da Casa Civil, Rui Costa, mandou indiretas para o ministro da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira, dando a entender que o governo não está sabendo propagandear suas realizações.

Apesar das dificuldades, especialistas destacam o fato de a campanha eleitoral ainda não ter efetivamente começado, apontando que o governo ainda tem a possibilidade de reagir mostrando realizações de forma mais sistemática e atuar mais abertamente para desconstruir candidaturas rivais.

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A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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