Eleita em disputa acirrada, filha de Alberto Fujimori assume poder 26 anos após queda do governo autoritário do seu pai. Nova líder assume comando de país instável, que teve sucessão de 8 presidentes em apenas dez anos.Vinte e seis anos depois de seu pai, Alberto Fujimori, renunciar à Presidência do Peru por um fax enviado do Japão, a direitista Keiko Fujimori toma posse nesta terça-feira (28/07) como a primeira mulher a comandar o país. Eleita por uma margem estreita de votos sobre Roberto Sánchez, ela chega ao cargo em sua quarta tentativa e marca o retorno do fujimorismo ao poder após mais de um quarto de século.
A nova presidente assume em um momento de forte polarização política e territorial. Sua campanha foi construída em torno da promessa de restaurar a segurança pública, impulsionar o crescimento econômico e recuperar áreas como saúde, educação e infraestrutura. Ao mesmo tempo, terá de administrar a herança política mais controversa do país nas últimas décadas.
O fujimorismo, movimento conservador associado ao governo de Alberto Fujimori entre 1990 e 2000, combina liberalismo econômico, apelo popular e políticas rígidas de combate ao crime. Para seus apoiadores, é um modelo que trouxe estabilidade e crescimento. Seus críticos, porém, associam o período a violações de direitos humanos, concentração de poder, corrupção e enfraquecimento das instituições democráticas.
O peso do legado de Alberto Fujimori
Grande parte da sociedade peruana continua dividida em relação ao legado do ex-ditador, morto aos 86 anos, em 2024. Durante seu governo, o combate ao grupo armado Sendero Luminoso conviveu com denúncias de esterilizações forçadas, massacres em áreas rurais e abusos cometidos por agentes do Estado. Fujimori chegou a ser preso por crimes contra a humanidade e corrupção.
A dificuldade de Keiko Fujimori em reconhecer esses episódios, pedir desculpas ou promover um processo mais amplo de reconciliação nacional segue alimentando o movimento antifujimorista. Para seus adversários, a nova presidente encarna práticas políticas associadas ao autoritarismo. Já seus eleitores veem nela a possibilidade de restaurar ordem e estabilidade em um país marcado por anos de crise institucional.
Também existe preocupação sobre seu estilo de liderança. Críticos apontam que sua trajetória política foi marcada pela disposição de confrontar adversários e exercer forte influência sobre o sistema político, o que pode dificultar a construção de consensos em uma sociedade profundamente dividida.
Nos últimos anos, o fujimorismo construiu sua influência sobretudo a partir do Parlamento, exercendo papel decisivo em sucessivas crises políticas que levaram à queda de presidentes, primeiros-ministros e ministros. Keiko Fujimori atuou como congressista de 2006 a 2011, onde se consolidou como uma das principais figuras oposicionistas.
O desafio da estabilidade
A principal missão do novo governo será conter a volatilidade política que passou a caracterizar o Peru. O país teve oito presidentes em apenas dez anos, reflexo da fragmentação partidária, da fragilidade das instituições e da dificuldade de formar maiorias estáveis.
Contudo, embora o Fuerza Popular seja a maior força política do Congresso, o partido não possui maioria suficiente para governar sozinho.
A legenda conquistou 22 das 60 cadeiras do Senado e 41 das 130 vagas na Câmara dos Deputados. Para aprovar projetos e garantir estabilidade política, o novo governo dependerá de alianças com outras siglas.
Apesar de sua força no Congresso, o partido não conseguiu eleger governadores regionais, revelando fragilidade fora dos grandes centros de poder político nacional.
O equilíbrio de forças já ficou evidente na eleição da presidência do Senado, decidida por apenas um voto. A situação sugere que a governabilidade continuará sendo um desafio importante para a nova administração.
Segurança no centro da agenda
A prioridade declarada do novo governo será o combate à criminalidade. Entre as medidas anunciadas estão a ampliação dos sistemas de videomonitoramento, o reforço do efetivo policial, o endurecimento das penas para crimes ligados ao crime organizado e a criação de centros de comando e controle em todo o país.
O programa também prevê a construção de quatro presídios de segurança máxima, inspirados no modelo adotado por El Salvador. A proposta ganhou apoio entre setores da população preocupados com o aumento da violência, mas também despertou críticas de organizações de direitos humanos.
Especialistas alertam para o risco de ampliação do papel das Forças Armadas em funções de segurança interna e para possíveis excessos no uso da força. O receio é que medidas adotadas em nome da segurança possam reduzir mecanismos de controle e proteção de direitos fundamentais.
Economia, infraestrutura e tecnologia
Além da segurança, Keiko Fujimori promete estimular investimentos privados, destravar projetos de infraestrutura, construir escolas e hospitais e modernizar o Estado com o uso de novas tecnologias e inteligência artificial.
A viabilidade dessas iniciativas, porém, dependerá da situação fiscal do país. O Peru ainda enfrenta déficits significativos em infraestrutura e serviços públicos, além de um ambiente econômico pressionado pelo aumento da criminalidade e por riscos climáticos associados ao fortalecimento do fenômeno El Niño.
Especialistas alertam que uma intensificação do fenômeno pode provocar secas, ondas de calor, enchentes e outros eventos extremos capazes de gerar impactos sociais e econômicos relevantes nos próximos anos.
Peru no centro da disputa entre China e Estados Unidos
Nos últimos anos, o Peru se transformou em uma peça estratégica na disputa por influência entre Estados Unidos e China na América do Sul. O principal símbolo dessa nova realidade é o Porto de Chancay, projeto de cerca de 3,5 bilhões de dólares (aproximadamente R$ 19 bilhões) financiado por investimentos chineses.
Integrado à Iniciativa Cinturão e Rota, o porto deverá reduzir o tempo de transporte marítimo entre Peru e China de cerca de 40 para 23 dias e consolidar o país como uma das principais portas de entrada da Ásia para a América do Sul.
Keiko Fujimori já indicou que pretende estreitar relações com Washington e com governos conservadores da América Latina. Analistas, porém, avaliam que uma ruptura com a China é improvável. A dimensão dos investimentos chineses e a importância do mercado asiático para as exportações peruanas tornam inviável qualquer afastamento significativo de Pequim. Pequim é o principal parceiro comercial peruano, seguido dos EUA.
A expectativa é que o novo governo procure reforçar laços políticos com os Estados Unidos sem comprometer a parceria econômica construída com a China ao longo das últimas décadas.
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