A Islândia realiza um referendo para decidir se retoma as negociações de adesão à União Europeia, processo interrompido há uma década. A votação foi antecipada devido a crescentes tensões geopolíticas globais, como a guerra na Ucrânia e ambições territoriais dos EUA no Ártico. Com a população dividida, o debate equilibra a busca por maior segurança e estabilidade econômica contra preocupações históricas sobre soberania nacional e restrições à indústria pesqueira local.
Tensões geopolíticas, como a ameaça de Trump de tomar a vizinha Groenlândia, levam islandeses às urnas e a contemplar ingresso no bloco europeu, uma década depois de abandono de negociações.A Islândia realiza neste sábado (29/08) um referendo nacional para decidir se pretende retomar negociações para ingressar na União Europeia (UE).
A nação insular passou a maior parte das últimas duas décadas debatendo a questão de se tornar o 28º membro do bloco.
O governo de esquerda da Islândia, eleito em 2024, havia prometido inicialmente realizar a votação no próximo ano, mas antecipou o processo devido a crescentes tensões geopolítica, como a guerra da Ucrânia, e a cobiça do governo dos EUA pela vizinha Groenlândia.
O que se sabe sobre o referendo da Islândia?
Ao se dirigirem a uma das centenas de seções eleitorais, os eleitores responderão a uma pergunta simples de "sim" ou "não":
"A Islândia deve retomar as negociações de adesão à União Europeia?"
A questão remete a uma tentativa anterior do governo islandês de ingressar na UE em 2009, no auge da crise financeira global, que devastou a economia local. O plano de adesão acabou sendo abandonado posteriormente.
A votação deste sábado é considerada imprevisível. Uma pesquisa do instituto Gallup realizada na sexta-feira indicou que uma pequena maioria dos islandeses se opõe à reabertura das negociações. Outras pesquisas recentes apontam uma leve vantagem para a retomada.
Embora a Islândia nunca tenha sido membro da UE, o país já é fortemente integrado ao bloco.
O país integra tanto o Espaço Econômico Europeu (EEE) — que garante acesso ao mercado único da UE, livre de barreiras comerciais — quanto o Espaço Schengen, zona de livre circulação de pessoas.
De uma população de aproximadamente 400 mil habitantes, cerca de 265 mil estão aptos a votar.
Quais são os fatores decisivos para os eleitores?
Os eleitores islandeses estão cada vez mais preocupados com questões geopolíticas, incluindo a ameaça representada pela Rússia e as declarações do presidente dos EUA, Donald Trump, sobre tomar a vizinha Groenlândia da Dinamarca.
Os islandeses, que conquistaram a independência da Dinamarca em 1944, questionam-se se poderiam ser os próximos.
"Não podemos mais confiar realmente nos EUA", afirmou a escritora Hildur Knutsdottir, que planeja votar a favor da adesão à UE. As nações árticas estão no centro de uma disputa crescente pelo extremo norte, à medida que Estados Unidos, Rússia e China competem por influência sobre rotas marítimas, recursos naturais e hegemonia militar.
A coalizão islandesa de orientação esquerdista acredita que a adesão à UE poderia ajudar a contrapor as ambições de Trump no Atlântico Norte.
"A ordem internacional que sustentou nossa segurança e prosperidade por décadas está sob séria pressão", disse a ministra das Relações Exteriores do país, Thorgerdur Gunnarsdottir, na semana passada.
"Em tempos como estes, as pequenas nações precisam pensar cuidadosamente sobre onde se posicionam e quem está ao seu lado", acrescentou ela.
Pesca, taxas de juros e identidade nacional
A última tentativa de adesão à UE foi arquivada em 2015, em grande parte devido a preocupações com a integração à política comum de pesca do bloco.
Os islandeses vivem há séculos da pesca abundante de bacalhau e hadoque e relutam em abrir as águas geladas do Ártico para traineiras espanholas, holandesas e de outros países da UE — uma exigência de Bruxelas.
O governo afirmou que poderia tentar negociar uma isenção total dessa política.
Alguns economistas acreditam que os islandeses, que enfrentaram dificuldades com a inflação e as taxas de juros elevadas, poderiam se beneficiar financeiramente da adesão à UE e, possivelmente, da adoção do euro.
A identidade nacional é outro fator que influencia a decisão de voto. Os opositores da adesão à UE ressaltam que a Islândia desfruta de todos os benefícios da integração europeia sem ser um membro pleno.
"Para um país como o nosso, com uma economia pequena, é muito importante manter nossa soberania e não transferir para a UE mais poder do que seria estritamente necessário", disse a ex-primeira-ministra Katrin Jakobsdottir em um evento em Reykjavik, na quinta-feira.
O que acontece se a Islândia votar pela retomada das negociações com a UE?
Um voto favorável desencadearia um processo de negociação com o braço executivo da UE, a Comissão Europeia.
Isso envolveria discussões em 35 áreas, desde a economia até os direitos humanos.
Um memorando do Ministério das Relações Exteriores estima que as negociações de adesão poderiam começar até o final do ano e levar de 18 a 24 meses.
jps (DW, ots)
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