Imóvel onde Hitler nasceu vira delegacia de polícia na Áustria

20 jul 2026 - 15h51

Conversão de imóvel em Braunau am Inn é cercada de controvérsias, em meio a debates sobre como lidar com o passado nazista.A partir desta quarta-feira (22/07), a polícia de Braunau am Inn, na Áustria, tem uma nova sede. A delegacia e o comando distrital da polícia agora estão localizados no número 15 da Salzburger Vorstadt - notícia que dificilmente interessaria a alguém fora de Braunau, não fosse o fato de Adolf Hitler, o autoproclamado líder do Terceiro Reich Alemão, ter nascido ali em abril de 1889.

Edifício foi reformado ao custo de cerca de 20 milhões de euros, incluindo uma fachada deliberadamente minimalista
Edifício foi reformado ao custo de cerca de 20 milhões de euros, incluindo uma fachada deliberadamente minimalista
Foto: DW / Deutsche Welle

Hitler levou a Europa e o mundo à Segunda Guerra Mundial, com dezenas de milhões de mortes, e foi o principal responsável pelo Holocausto, o assassinato sistemático de aproximadamente 6 milhões de judeus.

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Seus pais, que alugavam um apartamento no imóvel, se mudaram após alguns meses. Hoje, o edifício tem uma história bastante conturbada: após a anexação da Áustria pelo Reich Alemão em 1938, o partido nazista adquiriu o local de nascimento de seu "Führer" e estabeleceu ali um centro cultural com forte viés ideológico. Após a guerra, o imóvel retornou aos seus proprietários originais. O Estado se tornou inquilino e, posteriormente, o edifício serviu em diferentes épocas como biblioteca, escola e, mais recentemente, como oficina para pessoas com deficiência.

O local de nascimento de Hitler permaneceu vazio a partir de 2011. Em 2016, o governo austríaco decidiu expropriar o edifício — para impedir que neonazistas se apropriassem do local como destino de peregrinação. O objetivo era a "neutralização de todo o local".

Reforma de 20 milhões de euros

O Ministério do Interior austríaco criou a chamada Comissão para o Tratamento Historicamente Correto do Local de Nascimento de Adolf Hitler, e a incumbiu de desenvolver um conceito para o uso futuro da propriedade com passado problemático. A comissão defendeu o uso do edifício para fins sociais, beneficentes ou administrativos.

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Oskar Deutsch, presidente da Comunidade Judaica de Viena e membro da comissão, declarou à DW em 2023 que "o objetivo sempre foi garantir que este edifício não se tornasse um local de peregrinação para nazistas". E embora tenha dito que poderia ter imaginado outros usos além de delegacia de polícia, enfatizou que a instituição faz parte "de um Estado democrático, regido pelo Estado de Direito, cujas funções incluem o combate à atividade neonazista".

O historiador Oliver Rathkolb, também membro da comissão, recorda que "como primeira opção, propusemos unanimemente uma instituição que promovesse a vida, como a Volkshilfe [uma organização de assistência social], mas eles recusaram", explicou. "A delegacia de polícia impedirá que admiradores de Hitler tirem selfies em frente ao edifício completamente modificado."

O Estado redesenhou completamente o edifício ao custo de cerca de 20 milhões de euros (R$ 116 milhões), incluindo uma fachada deliberadamente minimalista. Os moradores de Braunau têm sentimentos contraditórios sobre o resultado.

"Uma oportunidade histórica única foi perdida aqui para usar o local de nascimento do maior assassino em massa da humanidade de uma forma sustentável e historicamente responsável", disse à DW Eveline Doll, natural de Braunau e porta-voz de uma iniciativa cidadã local que propõe uma reflexão sobre o imóvel.

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"É claro que a cidade não tem responsabilidade por isso, mas, mundialmente, Braunau está associada ao fato de que o maior assassino em massa da humanidade nasceu aqui - e isso sempre será assim", resumiu Doll.

Segundo uma pesquisa de 2023, apenas 6% dos entrevistados concordaram com a ideia de a polícia se instalar no local.

História sombria da polícia durante o nazismo

"Ao longo dos últimos 25 anos, houve inúmeras ideias e iniciativas para usar este edifício como um ponto de encontro para a paz, a liberdade, a democracia e a tolerância; mensagens extremamente importantes para o futuro, especialmente agora", explicou Doll. "Mas todas essas ideias foram rejeitadas e, agora, uma delegacia de polícia foi instalada aqui, o que é problemático em muitos aspectos."

Doll se refere, sobretudo, ao papel da polícia durante a era nazista. Depois que Hitler nomeou Heinrich Himmler como chefe da Polícia Alemã, em 1936, a polícia e a SS, organização paramilitar nazista, se tornaram cada vez mais interligadas. A Gestapo (polícia secreta do Estado), em particular, se tornou um instrumento central de terror para o regime e esteve significativamente envolvida na perseguição de opositores políticos, bem como em crimes nazistas.

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Florian Kotanko, presidente da Associação de História Contemporânea de Braunau, recusa-se a traçar paralelos com a era nazista. "Vivemos em um Estado democrático governado pelo Estado de Direito, e a polícia é um de seus instrumentos. Enquanto a polícia puder ser responsabilizada por má conduta e os agentes forem julgados, uma desconfiança fundamental na instituição policial é injustificada", afirmou. Ele se mostra tranquilo em relação à solução atual. "O proprietário, a República da Áustria, decidiu assim", disse à DW.

Papel da Áustria no nazismo

A Áustria se vê há décadas às voltas com seu passado nazista. Em 1938, quando Hitler anexou o país vizinho, a medida foi comemorada por muitos austríacos. Durante o regime nazista, aproximadamente 65 mil judeus austríacos foram assassinados e 130 mil foram forçados ao exílio. A Áustria tem sido repetidamente acusada de não reconhecer plenamente sua cumplicidade no Holocausto.

O Partido da Liberdade da Áustria (FPÖ), de ultradireita populista, fundado em 1956 por ex-nazistas, obteve a maioria dos votos nas eleições para o Conselho Nacional de 2024, mas não conseguiu formar um governo.

Uma pesquisa online realizada pelo instituto Unique Research para a revista Pragmaticus em 2025 apontou que 39% dos austríacos entrevistados concordavam ou tendiam a concordar com a frase: "Está na hora de botar um ponto final na discussão sobre o nazismo".

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A nova fachada do imóvel não receberá um painel informativo. A comissão de especialistas também recomendou a realocação da pedra memorial em frente ao prédio, que se originou do maior campo de concentração da Áustria, Mauthausen, e traz a inscrição: "Pela paz, liberdade e democracia. Fascismo nunca mais. Milhões de mortos advertem". No entanto, a prefeitura decidiu deixar a pedra onde ela está.

O último endereço registrado de Hitler na Alemanha também é hoje sede de uma delegacia de polícia. O edifício na Prinzregentenplatz 16, no bairro de Bogenhausen, em Munique, pertenceu ao líder nazista até sua morte. Após a guerra, o prédio se tornou propriedade do estado da Baviera e foi utilizado para diversos fins oficiais antes de dar lugar, em 1998, à polícia. Recentemente, o edifício começou a abrir suas portas para eventos selecionados, demonstrando que o lugar, com seu passado conturbado, agora abriga valores democráticos.

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