Incidente durante Parada LGBT+ em Berlim deixou dezenas de feridos voltou a chamar a atenção para o uso de veículos como arma. É possível identificar um padrão e evitar novos casos?Autoridades da Alemanha buscam neste domingo (26/07) um suspeito que avançou com um carro contra uma multidão em Berlim no dia anterior, deixando um morto e dezenas de feridos. Entre as vítimas estavam participantes da Parada do Orgulho LGBTQ+, que reuniu milhares de pessoas na capital alemã. O ministro do Interior da Alemanha, Alexander Dobrindt (CDU), classificou o evento como um "ataque terrorista islâmico".
O incidente se soma a um crescente número de atendados cujos prepertores usam carros como armas contra um determinado grupo. Somente na Alemanha, atropelamentos em massa deixaram quase 30 mortos desde 2016, registrados em Munique, Magdeburg, Trier e Berlim.
O padrão suscita uma questão - como identificar causas e evitar atropelamentos em massa?
Em 3 de março de 2025, segunda-feira de Carnaval, foi a vez de Mannheim, sudoeste da Alemanha, registrar um atropelamento em massa, quando um homem deixou 2 mortos e 11 feridos ao investir contra uma multidão no centro do município. Nas semanas anteriores, as autoridades haviam advertido reiteradamente sobre a possibilidade de atentados terroristas.
No entanto o ataque não pareceu motivado por fatores políticos nem religiosos: o autor não tinha histórico de tendências extremistas, e as autoridades partem do princípio de que o ato foi motivado por transtornos mentais.
O mesmo foi concluido em 2025, na costa oeste canadense, quando um homem tambémdirigiu um SUV contra uma multidão que participava do festival filipino Lapu Lapu, matando 11 pessoas. A hipótese de terrorismo foi descartada.
Em contrapartida, o suspeito do atentado que ocorreu em Munique em 13 de fevereiro de 2025, com um saldo de 2 mortes e pelo menos 37 feridos, era um afegão com possíveis tendências pró-islamistas. Os procuradores federais alemães apresentaram formalmente acusações de duplo homicídio e 44 tentativas de homicídio, alegando motivação islamista.
Situação similar se aplica ao autor saudita da investida contra uma feira de Natal de Magdeburg, no estado da Saxônia-Anhalt, em 20 de dezembro de 2024, com um saldo de 6 mortos e cerca de 300 feridos. Ele foi condenado à prisão perpétua. Segundo a promotoria, o réu programou o atentado com antecedência, mas se tratou de uma ação violenta individual motivada por fatores pessoais. O caso não foi classificado como terrorismo.
Na década de 2010, houve em Israel uma série de atentados motorizados, no contexto dos conflitos com grupos militantes locais. O grupo extremista Estado Islâmico (EI) também incentivou o uso de veículos como arma em espaços públicos na Europa.
Entre os palcos dos crimes mais devastadores do tipo, estiveram a cidade francesa de Nice - em que um caminhão fez 86 vítimas em 2016 -, Londres, Barcelona e novamente Berlim. Carros foram usados também como arma numa série de ataques mortais na China, em 2023 e 2024.
Raiva, sugestão, imitação
Em estudo publicado em 2018, o sociólogo cultural Vincent Miller e o criminologista Keith Hayward classificaram os atropelamentos em massa como eventos "imitatórios": mais do que ideologicamente motivados, eles funcionariam como "memes", oferecendo um modelo a ser replicado.
Referindo-se a atentados na China - que foram descritos como "vinganças contra a sociedade" e cujos perpetradores foram punidos com a pena de morte - Miller comenta: "Quem faz isso está, em geral, bastante ressentido, há um sentimento de injustiça, de raiva." Assim, é comum que não se encontrem indícios definitivos de uma motivação política ou religiosa.
"Muitas vezes são formas de ataque muito no calor do momento, ou organizadas às pressas. Os autores são muito diversos: alguns talvez sejam radicais muçulmanos, outros ativistas de direita americanos, outros ainda sofrem de doenças mentais. É muito difícil definir o perfil do criminoso: a principal coisa que eles têm em comum é o ato."
"Subconscientemente, [esse tipo de atentado] se torna parte do repertório de opções para alguém expressar a raiva, e os perpetradores são expostos a ele através dos vetores da imprensa e das redes sociais."
Há como evitar novos atentados com automóveis?
A especialista em segurança internacional Pauline Paillé, da organização independente de pesquisa RAND Europe, concorda com Vincent Miller: "É um pouco difícil entender quais são as motivações, e se há um padrão de fato, ou se só se trata de uma coleção de eventos isolados."
Em 2022, ela participou da elaboração de um relatório para a Comissão Europeia sobre alternativas para evitar os atentados com automóveis. "Eu não acho que seja uma ameaça exclusiva para a Europa, e no tocante à psicologia, depende muito das motivações e do objetivo político dos que atacam."
O relatório da RAND Europe explorou formas de restringir o acesso a automóveis, sobretudo por meio de esquemas de aluguel ou pessoa para pessoa. Esse esquema foi utilizado, por exemplo, na explosão de um Tesla Cybertruck diante do Trump International Hotel de Las Vegas, em 1º de janeiro de 2025, que deixou sete feridos (o criminoso se suicidou), e, no dia seguinte, na investida contra uma multidão em Nova Orleans (14 mortos, dezenas de feridos).
Uma das medidas recomendadas foi endurecer as exigências para o acesso a veículos de aluguel, seja através de uma identificação mais rigorosa, depósito de cauções altas ou checagens de antecedentes criminais.
O geofencing - em que se criam barreiras virtuais possibilitando às autoridades alterarem remotamente as configurações de veículos inteligentes - seria outra possibilidade para evitar a perda de vidas. Para que tais tecnologias funcionem, contudo, seria preciso identificar rapidamente a intenção criminosa.
Barreiras físicas contribuem?
Na opinião de Paillé, áreas urbanas mais bem projetadas seriam uma das soluções mais simples, com carros e de pedestres separadas, por exemplo, "coisas que tornem mais difícil um veículo acessar certos espaços", assegurando que permaneçam usáveis pelos cidadãos comuns, "mas também preservando a segurança deles".
O tema foi amplamente debatido durante a campanha que precedeu as eleições parlamentares na Akemanha. Ao final de 2025, autoridades municipais se viram obrigadas a reforçar as medidas de segurança nas mais de 3 mil feiras de Natal ao longo do país, criando barreiras que impedir a entrada de veículos. Apesar da disparada nos custos com segurança para realização dos eventos, nenhuma tentativa de atropelamento foi registrada na ocasião.
Por outro lado, a especialista em segurança não está convencida da efetividade de barreiras físicas, como quebra-molas, minipostes ou blocos de concreto, pois elas podem simplesmente desviar os perpetradores para outras áreas menos protegidas.
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