Golfinhos também podem ter Alzheimer?

Lesões semelhantes às do Alzheimer foram encontradas em golfinhos e outros cetáceos. Comparar seus cérebros com os de humanos abre novos caminhos na neurociência e conecta a saúde do oceano com a nossa.

13 jul 2026 - 10h46
Estudos recentes identificaram em golfinhos lesões cerebrais em golfinhos similares às causadas pela doença de Alzheimer em humanos. Shutterstock
Estudos recentes identificaram em golfinhos lesões cerebrais em golfinhos similares às causadas pela doença de Alzheimer em humanos. Shutterstock
Foto: The Conversation

Consideramos a doença de Alzheimer como uma condição caracterizada pelo deterioramento da memória e pela desorientação que afeta pessoas. Mas parte de sua história também poderia estar presente em outras espécies, particularmente no oceano. Estudos recentes identificaram em golfinhos lesões cerebrais comparáveis às causadas pela doença de Alzheimer em humanos.

Os cetáceos são mamíferos marinhos que se dividem em odontocetos e misticetos. Os primeiros têm dentes e utilizam a ecolocalização para se orientar e caçar, como os golfinhos, as orcas e os zífios. Os segundos filtram plâncton e pequenos organismos marinhos por meio de suas barbas, como as baleias. Até agora, alterações neuropatológicas semelhantes à doença de Alzheimer foram descritas principalmente em odontocetos.

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Além dos modelos clássicos

Durante décadas, a pesquisa sobre a doença de Alzheimer baseou-se em camundongos transgênicos. Esses animais apresentam superexpressão da proteína precursora amilóide (APP) para produzir beta-amilóide (Aβ), relacionada a uma das lesões características dessa doença. Embora tenham sido essenciais, esses modelos não reproduzem toda a complexidade da doença na população humana.

A doença de Alzheimer combina duas lesões: placas de beta-amilóide no cérebro e emaranhados neurofibrilares de proteína tau hiperfosforilada, às quais se somam uma perda neuronal significativa e deterioração cognitiva. Nenhum modelo animal natural reproduz essa combinação de forma completa.

Por isso, as descobertas em golfinhos chamam atenção. Em seus cérebros, foram descritos acúmulos de beta-amilóide na forma de placas dentro do parênquima cerebral e também nas paredes dos vasos sanguíneos; essa última localização é compatível com angiopatia amilóide cerebral, condição reconhecida como causa de demência em idosos. Além disso, foram encontradas alterações da proteína tau que se assemelham a emaranhados neurofibrilares e neuritos distróficos.

Em alguns casos, também foram detectadas inclusões associadas à TDP-43, uma proteína essencial para a saúde neuronal cujo mau funcionamento provoca doenças neurodegenerativas em humanos. Além disso, o peptídeo beta-amilóide dos golfinhos é idêntico ao humano, e o gene da proteína precursora amilóide é muito semelhante.

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Tudo isso reforça o interesse em comparar os cérebros de golfinhos e seres humanos.

O preço de viver muitos anos

Como interpretar os achados neuropatológicos observados em golfinhos e sua aparente semelhança com os descritos em humanos? A longevidade pode ser uma chave. Alguns odontocetos vivem várias décadas e apresentam uma fase pós-reprodutiva prolongada, uma característica pouco comum entre mamíferos e comparável à nossa. De acordo com a chamada "hipótese da avó", as fêmeas mais velhas aumentam a sobrevivência do grupo ao cuidar dos filhotes e transmitir conhecimento.

Mas longevidade não é sinônimo de envelhecimento saudável. De fato, uma vida mais longa implica uma maior exposição acumulada ao estresse metabólico e ambiental. Além disso, a fase pós-reprodutiva prolongada está associada a uma menor eficiência na sinalização da insulina, mecanismo ligado, em humanos, a um maior risco de Alzheimer e alterações metabólicas.

Assim, a mesma característica que favorece vidas longas poderia aumentar a vulnerabilidade cerebral.

Um oceano contaminado

A idade, porém, não é o único fator. Os golfinhos ocupam o topo da cadeia alimentar marinha. Isso os torna grandes acumuladores de contaminantes. Em sua gordura são armazenados compostos tóxicos persistentes e metais pesados. A concentração dessas substâncias aumenta ao longo da cadeia alimentar. Elas também podem ser transmitidas da mãe para a cria durante a amamentação.

A isso somam-se as proliferações nocivas de algas, mais frequentes em um oceano afetado pelas mudanças climáticas. Algumas produzem uma neurotoxina chamada BMAA (beta-metilamino-L-alanina). Essa substância tem sido associada a doenças neurodegenerativas em humanos.

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Foram detectados níveis elevados de BMAA e alterações neurodegenerativas semelhantes às observadas em humanos nos cérebros de golfinhos encalhados. A exposição crônica a contaminantes ativa a inflamação e o estresse oxidativo, e ambos os processos danificam os neurônios. Até certo ponto, os golfinhos atuam como indicadores do estado do ecossistema: o que ocorre em seus cérebros reflete a saúde do mar.

Mergulhar até o limite

Algumas espécies, como os zifios, realizam mergulhos extremos que ultrapassam os 3.000 metros de profundidade. Embora eles estejam adaptados ao mergulho, esses comportamentos envolvem episódios repetidos de hipóxia, ou seja, baixo suprimento de oxigênio.

Em humanos, a hipóxia tem sido associada a alterações no metabolismo do amilóide. Em cetáceos, observou-se o acúmulo de beta-amilóide no núcleo dos neurônios, um fenômeno que poderia estar relacionado à a resposta ao estresse hipóxico.

Se esses episódios se intensificarem — por exemplo, devido a perturbações como o ruído submarino —, eles poderiam contribuir para danos neuronais cumulativos.

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Semelhanças surpreendentes

Em alguns odontocetos também foi descrita a presença de neuromelanina, um pigmento que se acumula no cérebro com a idade, em duas áreas desse órgão — a substância negra e o locus cerúleo.

Suas características são semelhantes às observadas em seres humanos. Em nossa espécie, esse pigmento está localizado nos neurônios da substância negra — especialmente vulneráveis na doença de Parkinson — e do locus cerúleo — uma das regiões afetadas precocemente na doença de Alzheimer.

Também foram identificadas em golfinhos outras alterações associadas à doença de Alzheimer e à esclerose lateral amiotrófica. Por exemplo, inclusões com alfa-sinucleína e ubiquitina, associadas aos corpos de Lewy, bem como alterações compatíveis com degeneração granulovacuolar e alterações da TDP-43.

Mas ainda sabemos pouco sobre o impacto comportamental destas alterações. Não está claro se essas lesões afetam a orientação ou a memória, nem se influenciam em algumas ocorrências de encalhes dos animais. São questões em aberto que exigem mais pesquisas.

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Uma única saúde

O estudo da neurodegeneração em cetáceos se encaixa plenamente na abordagem "uma única saúde" (do inglês, One Health) e na perspectiva da saúde planetária. Esse marco reconhece que a saúde humana, animal e ambiental formam um sistema interdependente.

Os odontocetos, situados no topo da cadeia alimentar marinha, acumulam e amplificam contaminantes persistentes — metais pesados, bifenilos policlorados, pesticidas e toxinas de proliferação de algas — que também circulam em nossos ecossistemas. Por fim, esses contaminantes também podem ser incorporados à alimentação humana.

Do ponto de vista da medicina ambiental, esses mamíferos marinhos atuam como sentinelas do oceano. Suas doenças refletem o impacto acumulado da poluição, das mudanças climáticas, da hipóxia e do ruído antropogênico. Se, nesse contexto, eles desenvolvem lesões comparáveis às da doença de Alzheimer em humanos, isso não é apenas uma descoberta biológica, mas um alerta comum. O oceano e nosso ambiente formam um sistema interconectado, com fatores de risco que compartilhamos.

The Conversation
Foto: The Conversation

Simona Sacchini não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

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Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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