Estudo com camundongos aponta que se abster de álcool pode elevar risco de posterior consumo compulsivo

A abstinência alcoólica altera a atividade cerebral de maneiras que podem levar uma pessoa com transtorno por uso de álcool a uma recaída

21 ago 2026 - 11h16
Resumo
Um estudo com camundongos revelou que a abstinência pode elevar o risco de consumo compulsivo de álcool, mesmo quando a bebida é tornada amarga. Os cientistas descobriram que esse impulso é precedido por uma hiperatividade no núcleo do leito da estria terminal (BNST), região cerebral ligada à ansiedade e depressão. A descoberta sugere que monitorar a atividade do BNST pode ajudar a identificar indivíduos vulneráveis a recaídas, abrindo caminhos para tratamentos mais eficazes contra a dependência.
Experimento identificou alterações na atividade de certas áreas do cérebro que podem estimular o desejo por álcool após um período der abstinência. Yana Iskayeva/Moment via Getty Images
Experimento identificou alterações na atividade de certas áreas do cérebro que podem estimular o desejo por álcool após um período der abstinência. Yana Iskayeva/Moment via Getty Images
Foto: The Conversation

Para algumas pessoas, a abstinência de álcool pode, posteriormente, aumentar o consumo compulsivo da substância. Nossa equipe de pesquisa descobriu que, em camundongos abstêmios, esse desejo de beber é precedido por alterações na atividade de uma determinada região do cérebro, apontando para possíveis novas oportunidades para identificar e ajudar as pessoas mais vulneráveis à recaída.

Embora a abstinência alcoólica esteja associada a melhores resultados de saúde, pesquisadores especializados em dependência teorizaram que as alterações cerebrais que ocorrem durante a abstinência podem aumentar o risco de recaída de uma pessoa.

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Para explorar essa hipótese, estudamos como camundongos se comportavam após lhes termos dado acesso voluntário ao álcool por um longo período, seguido por um período de abstinência forçada. Descobrimos que um subgrupo dos camundongos desenvolveu ingestão de álcool resistente à aversão - ou seja, eles passaram a beber álcool mesmo com a quinina que adicionamos para torná-lo cada vez mais amargo. Além disso, em comparação com aqueles que não passaram pela abstinência forçada, esses camundongos consumiram quantidades ainda maiores do álcool extremamente amargo. Esses resultados sugerem que há possíveis desafios físicos associados à abstinência que contribuem para recaídas no transtorno por uso de álcool.

Em seguida, monitoramos a atividade de um conjunto específico de células em uma região do cérebro conhecida como núcleo do leito da estria terminal, ou BNST, na sigla em inglês. Pesquisadores já haviam constatado anteriormente que essa pequena estrutura está fortemente implicada nos sintomas do transtorno por uso de álcool, como ansiedade e depressão.

Diagrama da silhueta do cérebro com duas pequenas partes em forma de asas de borboleta destacadas perto do centro
Foto: The Conversation
O BNST está localizado nas profundezas do cérebro.Rob Hurt/Wikimedia Commons, CC BY-SA

Descobrimos que permitir que camundongos abstinentes voltassem ao ambiente onde o álcool estava anteriormente disponível os levaria a tentar beber, mesmo que o bico contivesse apenas água. Essas tentativas estavam associadas à atividade no BNST. Camundongos abstinentes que haviam desenvolvido o gosto por álcool muito amargo apresentavam mais do que o dobro da atividade nessa área do cérebro em comparação com camundongos que não passaram por abstinência forçada.

É importante ressaltar que observamos atividade no BNST mesmo antes de darmos aos camundongos em abstinência acesso ao álcool amargo. Essa descoberta sugere que talvez seja possível identificar pessoas em risco de recaída por meio da análise da atividade do BNST quando alguém tem acesso ao álcool.

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Por que isso é importante

O uso indevido de álcool é um dos principais desafios de saúde pública nos Estados Unidos e em grande parte do mundo. Embora essa condição esteja associada a uma ampla variedade de efeitos negativos para a saúde, o público subestima cronicamente sua gravidade.

As mortes associadas ao consumo de álcool em 2024 nos EUA foram 4,5 vezes maiores do que as mortes atribuídas aos opioides. Embora a redução de danos — um componente importante do tratamento do transtorno por uso de opioides — esteja sendo explorada no transtorno por uso de álcool, a abstinência continua sendo o pilar da maioria das abordagens para esse tipo de dependência.

Mais de 80% dos americanos com 12 anos ou mais consomem álcool em algum momento de suas vidas, e cerca de 10% acabam desenvolvendo transtorno por uso de álcool. Esses 10% representam quase 30 milhões de americanos que precisam de tratamento.

Conjunto de garrafas de bebida alcoólica e copos vazios
Foto: The Conversation
Qualquer quantidade de álcool pode prejudicar sua saúde.Anja Uhlemeyer-Wrona/imageBROKER via Getty Images

Infelizmente, os profissionais de saúde não estão bem preparados para prever quem precisará de ajuda. Embora existam tratamentos aprovados pela Food and Drug Administration (FDA, a agência que regula alimentos e medicamentos nos EUA) para o transtorno por uso de álcool, o número de pessoas diagnosticadas com essa condição continua muito alto. Na verdade, esses números praticamente dobraram nos EUA desde 1999.

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Desenvolver estratégias melhores para identificar quem corre risco de desenvolver transtorno por uso de álcool e ajudá-las a se orientar melhor na busca por tratamento.

O que ainda não se sabe

Não está claro o papel exato que a região do BNST do cérebro desempenha no comportamento relacionado ao transtorno por uso de álcool. Também não está claro o que impulsiona o aumento da atividade, nem quais populações específicas de células cerebrais dentro do BNST codificam essa atividade. Obter essas respostas poderia levar a novos alvos terapêuticos.

Próximos passos

Novas ferramentas da neurociência têm permitido que pesquisadores manipulem a atividade de neurônios específicos no cérebro de camundongos. Usando essas estratégias, nossa equipe está trabalhando para compreender o papel que o BNST desempenha no consumo de álcool, apesar das consequências prejudiciais.

Nossa colega Jennifer Blackford também está investigando a atividade do BNST nos cérebros de pessoas com transtorno por uso de álcool que estão no início da abstinência. Se sua equipe observar resultados semelhantes em pessoas, o próximo passo seria testar mais a fundo o uso do BNST como método de triagem em ensaios clínicos.

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The Conversation
Foto: The Conversation

Danny G. Winder recebe financiamento do National Institutes of Health.

Marie Doyle recebe financiamento do National Institute of Alcohol Abuse and Alcoholism.

Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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