Antes consideradas quase impenetráveis, defesas aéreas russas estão agora sob crescente pressão dos drones ucranianos. Ataque massivo a Moscou nesta semana expôs vulnerabilidades.Drones ucranianos parecem estar se tornando cada vez mais eficazes em contornar as defesas aéreas russas para atingir infraestruturas críticas.
Depois que drones ucranianos atingiram vários locais em Moscou em 18 de junho — o maior ataque desde o início da invasão da Rússia à Ucrânia —, eclodiu na Rússia um debate sobre as falhas na rede de defesa do país.
Uma importante refinaria de petróleo em Moscou, responsável por 40% do abastecimento de combustível da região, foi incendiada, e a produção parece ter sido interrompida por vários dias após o ataque. Também ocorreram evacuações no maior aeroporto da Rússia. Imagens que mostraram o topo de um imenso tanque de armazenamento de combustível voando pelos ares correram pelo mundo.
Testemunhas oculares inundaram as redes sociais com imagens do que pareciam ser tentativas frustradas de interceptação dos drones pelo sistema de defesa aérea. A própria explosão do tanque de combustível que voou pelos ares parece ter sido causada acidentalmente por um foguete antiaéreo russo que falhou em abater um drone.
"Essa impressão se forma entre os leigos, que veem um míssil passar por um drone sem atingi-lo", aponta Ruslan Leviev, dissidente russo, analista militar e fundador do grupo de investigação Conflict Intelligence Team, à DW.
O jornalista russo exilado Ivan Filippov, que acompanha blogueiros pró-Kremlin, observou um crescente alarme entre os propagandistas de que a Ucrânia teria encontrado uma brecha nas defesas russas.
"Eles não querem que a guerra pare — querem uma guerra mais eficaz", disse Filippov à DW, referindo-se a pedidos de reforma radical do Ministério da Defesa e do complexo militar-industrial da Rússia. "Mas acho que eles entendem perfeitamente bem que essas reformas são impossíveis. Por isso, esses textos tendem a ser pessimistas."
Anatoliy Khrapchynskyi, especialista ucraniano em aviação e ex-oficial da Força Aérea, atribuiu a violação da defesa aérea de Moscou em 18 de junho a uma combinação de dois fatores: uma degradação sistêmica da arquitetura de defesa da Rússia e a uma evolução tecnológica das capacidades de ataque da Ucrânia.
Leviev, por sua vez, não tem tanta certeza. Sua equipe não registrou enfraquecimento das defesas russas, pois estas, na verdade, abateram mais de 90% dos veículos aéreos não tripulados (VANTs) sobre Moscou. Mas os poucos que conseguiram passar pelas defesas aéreas russas causaram danos substanciais.
Leviev acredita que a questão central é a quantidade. À medida que a escala dos ataques aumenta, o desafio é o mesmo tanto para a Rússia quanto para a Ucrânia: ataques em massa com drones exigem cada vez mais equipamentos de defesa.
Os drones também têm causado problemas para a Rússia na Crimeia ucraniana ocupada. Neste fim de semana, autoridades da península ocupada suspenderam a venda de combustível ao público na região ocupada da Crimeia, em meio a uma grave escassez de energia provocada por ataques ucranianos a rotas de abastecimento,
O governador russo Sergey Aksyonov afirmou que indivíduos e empresas seriam impedidos de comprar combustível nos postos de gasolina, e que o combustível seria vendido apenas para órgãos governamentais responsáveis pela "operação e segurança" da Crimeia.
Os pontos fracos da Rússia
Os sistemas russos, incluindo o Pantsir-S1, foram projetados para combater armas mais clássicas, como mísseis de cruzeiro, aponta Khrapchynskyi. Eles foram calibrados para alvos altamente refletivos ao radar, feitos de metal — mas os drones modernos costumam ser fabricados com materiais compostos, como plástico. Isso significa que esses sistemas são basicamente "cegos" para drones pequenos.
A própria extensão do território russo já é um desafio por si só. Construir uma "barreira aérea" ininterrupta ou uma única "cúpula" é impossível, diz Leviev.
E Moscou é um alvo ainda mais fácil para os drones devido à sua alta densidade urbana. Quanto mais densa for a urbanização — especialmente os arranha-céus —, mais fácil fica para os drones se esconderem dos radares atrás dos prédios, explica Leviev.
A Ucrânia está tirando proveito disso. Khrapchynskyi explica que os drones de longo alcance de Kiev melhoraram significativamente em sua capacidade de traçar trajetórias de voo complexas e evitar possíveis zonas de interceptação.
Ao mesmo tempo, a Rússia também remanejou alguns de seus sistemas de defesa aérea, enviando-os para as regiões da Ucrânia ocupadas pela Rússia.
Especialistas afirmam que os melhores sistemas de defesa aérea são em camadas, com diferentes interceptadores capazes de atuar em várias altitudes e atingir diferentes tipos de armas que se movem em diversas velocidades, incluindo mísseis e drones.
O envio de equipamentos para outras regiões causou a desintegração de um sistema de defesa aérea que antes era em camadas e agora se assemelha mais a uma colcha de retalhos, observa Khrapchynskyi.
A emissora americana CBS também citou fontes ucranianas que afirmam que a Rússia pode estar ficando sem sistemas S-300, uma série de sistemas de mísseis terra-ar de longo alcance destinados a lidar com ataques aéreos. Acredita-se que as sanções contra a Rússia tenham dificultado o fornecimento de peças de reposição.
Khrapchynskyi atribui a escassez ao fato de a Rússia estar redirecionando seus S-300 para ataques terra-terra contra a Ucrânia.
"A Rússia caiu na armadilha da própria 'matemática da guerra' que antes tentou impor", conclui Khrapchynskyi. Ou seja, ao tentar sobrecarregar as defesas aéreas ucranianas com ataques de S-300, a Rússia esgotou seus próprios estoques de mísseis interceptadores.
Kremlin tenta conter danos
Após o ataque de 18 de junho a Moscou, as autoridades russas pareciam mais abaladas pela forma como o ataque foi documentado do que pelo próprio ataque em si.
O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, afirmou que a defesa aérea russa agiu adequadamente e instou a população a se concentrar, em vez disso, em olhar para os ataques russos à Ucrânia. "As imagens são impressionantes — mostram os resultados dos ataques das nossas forças armadas. Esses ataques continuarão", disse Peskov.
A abordagem do Kremlin tem sido de minimizar a importância do ataque a Moscou. Como diz Leviev, do ponto de vista militar, os ataques com drones de 18 de junho pouco contribuíram para mudar a balança no campo de batalha.
Ele acredita que tais ataques funcionam mais como "ataques políticos", uma forma de desestabilizar a opinião pública, especialmente antes das eleições para a Câmara Baixa do Parlamento russo, a Duma Estatal, em setembro deste ano.