O senador Flávio Bolsonaro (PL) deixou o Brasil e embarcou em um avião particular com destino aos Estados Unidos após cruzar a fronteira com a Argentina, segundo confirmou um aliado do político à Reuters. Ele partiu de Puerto Iguazú, na província argentina de Misiones, que faz divisa com Foz do Iguaçu (PR), um dia depois de afirmar que havia sido intimado pela Polícia Federal (PF) a entregar o passaporte e impedido de sair do País.
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Flávio é alvo de investigações que apuram possíveis irregularidades no financiamento do filme Dark Horse, sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), e em um suposto esquema de lavagem de dinheiro que envolveria empresas do advogado Willer Tomaz e casas de apostas. Os dois confirmam a amizade, mas negam ser sócios e rejeitam qualquer irregularidade.
Veja quais são as suspeitas envolvendo o senador e o que a Polícia Federal apurou até o momento.
O que a PF investiga sobre o financiamento do filme Dark Horse?
A Polícia Federal apura suspeitas de lavagem de dinheiro, corrupção e outros possíveis crimes relacionados ao financiamento de Dark Horse, cinebiografia sobre Jair Bolsonaro. O caso envolve negociações entre Flávio e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para levantar recursos destinados à produção do longa-metragem.
Segundo a investigação, as tratativas envolveram um montante de R$ 134 milhões. Desse total, pelo menos R$ 61 milhões teriam sido efetivamente transferidos por Vorcaro, em seis operações realizadas em 2025.
Parte dos recursos teria sido encaminhada a um fundo no Texas, nos Estados Unidos, ligado a aliados da família Bolsonaro. Uma das hipóteses investigadas pela PF é que o dinheiro tenha sido usado para custear despesas de Eduardo Bolsonaro, irmão do senador, que vive nos EUA.
Quais são os indícios de ligação entre Flávio e Vorcaro?
Mensagens de WhatsApp e áudios interceptados pela PF indicam que Flávio mantinha contato próximo com Vorcaro e cobrava repasses financeiros. Os investigadores também identificaram a emissão de R$ 1,5 milhão em notas fiscais pelo senador para empresas ligadas ao banqueiro.
Outro elemento citado na apuração é o uso de um jatinho associado a Vorcaro por Flávio, em janeiro de 2025, durante uma viagem dos Estados Unidos ao Brasil.
O senador também confirmou que se encontrou com o empresário depois que ele passou a cumprir prisão domiciliar, com tornozeleira eletrônica. Segundo Flávio, a visita tinha como objetivo encerrar a relação entre os dois e avaliar a busca por outro investidor para o filme.
Inicialmente, o parlamentar havia negado a participação de Vorcaro no financiamento da produção. Após o vazamento de áudios e mensagens, admitiu que procurou o banqueiro, mas afirmou que buscava apenas um investidor privado para viabilizar a cinebiografia do pai.
Qual é a investigação sobre Flávio e Willer Tomaz?
Em outra frente, Flávio é investigado por suspeita de envolvimento em um esquema de lavagem de dinheiro que teria utilizado empresas ligadas ao advogado Willer Tomaz e casas de apostas. A apuração começou na primeira instância da Justiça Federal no Rio Grande do Sul e também envolveu suspeitas de evasão de divisas.
Durante a investigação, a PF gaúcha obteve autorização judicial para acessar dados telemáticos de Tomaz. A análise de e-mails indicou que Flávio estava cadastrado como "usuário master" de uma conta bancária da Alcazar Holdings, empresa pertencente ao advogado.
Em relatório, a PF afirmou: "Na documentação relativa à abertura da conta bancária da empresa Alcazar Holdings, verificou-se que Flávio Bolsonaro figurava com perfil de usuário master, condição que, em princípio, lhe conferia nível elevado de acesso e gerenciamento da conta".
Os investigadores também identificaram uma mensagem eletrônica de 22 de maio de 2025 na qual Tomaz teria solicitado a retirada do acesso do senador. Para a PF, o registro indica que Flávio continuava vinculado à conta, ao menos operacionalmente, até aquela data.
"Posteriormente, em e-mail datado de 22/05/2025, foi expressamente solicitada [por Willer Tomaz] a exclusão de seu acesso, elemento que indica que o senador permanecia vinculado à conta bancária, ao menos sob a perspectiva operacional, até aquela data", disse a PF.
A corporação também reuniu outros elementos que, segundo os investigadores, apontariam para uma relação próxima entre os dois.
"Entre os registros localizados, constam referências a festas, encontros e reuniões envolvendo ambos, além de documentos de natureza pessoal vinculados a Flávio encontrados no iCloud [nuvem] de Willer", diz o relatório policial.
Qual é a relação das empresas de Tomaz com as casas de apostas?
A PF identificou viagens do senador custeadas por uma das empresas de Tomaz, a Cathedral. A companhia dividia com a Alcazar Holdings um endereço na Ilha da Madeira, em Portugal, região conhecida por oferecer condições fiscais favoráveis.
A Cathedral também é proprietária da Best Bet, da Rede Loto. De acordo com a polícia, a Rede Loto foi a primeira casa de apostas habilitada a operar no Rio de Janeiro, em 2023.
Outro elemento apontado pelos investigadores é a estrutura de propriedade de um avião utilizado por Flávio e Tomaz em janeiro de 2025, em um trajeto entre Fort Lauderdale, na Flórida, e o Brasil.
A aeronave, um Legacy 650 de prefixo PP-NLR, tinha três cotistas à época: Tomaz, por meio da Alcazar Holdings; Laerte Cosentino, dono da Totvs; e Vorcaro, por meio da Prime You, empresa que também administrava o uso compartilhado do jatinho.
O que aconteceu com a investigação sobre Willer Tomaz?
Em 8 de outubro, a investigação envolvendo Flávio foi encaminhada ao Supremo Tribunal Federal (STF), em razão do foro especial do senador. O ministro Alexandre de Moraes foi sorteado relator do caso. O mandato de Flávio no Senado termina em 2027.
Tomaz também é investigado em outra apuração da PF, que envolve o senador Weverton Rocha (PDT-MA) e familiares dele. Em agosto, o advogado foi alvo de mandado de busca e apreensão, após os investigadores identificarem suspeitas de movimentações financeiras e patrimoniais que poderiam ter sido utilizadas para ocultar recursos relacionados ao parlamentar.
Na ocasião, a PF descreveu Tomaz como uma possível estrutura de sustentação financeira e patrimonial de Weverton, com atuação por meio de empresas, imóveis, aeronaves e outros intermediários.