Por que as pesquisas eleitorais voltaram a errar as projeções na disputa presidencial

Flávio Bolsonaro (PL) saiu na frente com 47,03%, enquanto Lula (PT) registrou 45,16%

5 out 2026 - 04h57
Analista cita impacto da abstenção ao explicar diferença das pesquisas com resultado das urnas
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O resultado do primeiro turno da eleição presidencial revelou, neste domingo, um cenário distinto das estimativas dos principais institutos de pesquisa. Durante toda a campanha eleitoral, o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aparecia numericamente à frente do senador Flávio Bolsonaro (PL), mesmo que em empate técnico. Porém, na apuração o cenário foi bem diferente.

Com 99,99% das urnas apuradas, o filho do ex-presidente recebeu 47,03% dos votos, enquanto o petista registrou 45,16%.

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Os últimos levantamentos da AtlasIntel, Datafolha e Quaest indicaram vitória de Lula no 1º turno com base nos votos válidos.

  • AtlasIntel: Lula 47%; Flávio 44%
  • Datafolha: Lula 45%; Flávio 42%
  • Quaest: Lula 46%; Flávio 45%

Segundo o analista político Carlos Borenstein, da Arka Advice, a diferença entre as pesquisas e o resultado das urnas não significa, necessariamente, um problema de metodologia dos institutos. Para ele, um dos fatores está na própria natureza das pesquisas eleitorais, que retratam o momento em que são realizadas e não funcionam como uma projeção do resultado da eleição.

“A opinião pública espera que os institutos de pesquisa prognostiquem o resultado da eleição. Só que isso não é possível. As pesquisas, quando são realizadas, fazem um diagnóstico daquele momento que foram realizadas”, afirmou.

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Borenstein também citou a dificuldade dos levantamentos em captar o chamado voto útil, especialmente nas últimas horas antes da votação. Segundo ele, o fenômeno teria contribuído para a diferença entre os percentuais estimados e os votos válidos registrados nas urnas.

“Se a gente pegar as eleições de 2014 em diante, os percentuais estimados para candidaturas que antagonizavam com o PT --Aécio Neves, em 2014; Bolsonaro, em 2018 e 2022; e Flávio, agora--, quando comparados ao voto válido, a gente observou que o voto válido foi muito maior.”

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Na avaliação do analista, um dos fatores por trás desse movimento seria o que ele chama de “antipetismo de chegada”, quando eleitores que rejeitam o PT definem o voto nas últimas horas da campanha. Ele também apontou a abstenção como um fator que, historicamente, teria maior impacto sobre o eleitorado de Lula.

“Eu não enxergo que tenha um problema de metodologia. O que eu acho que gera essa discrepância é justamente essa premissa inicial: as pesquisas são um diagnóstico do momento, elas não são uma projeção”, afirmou.

Abstenção e “maiorias silenciosas”

A cientista política Tathiana Chicarino, coordenadora do curso de Graduação em Sociologia e Política da FESPSP, também aponta a abstenção como um dos fatores que precisam ser considerados na análise da diferença entre as pesquisas e o resultado das urnas.

Segundo ela, como o voto no Brasil é obrigatório, os levantamentos eleitorais partem da expectativa de que os entrevistados irão comparecer às urnas. A dificuldade está em identificar, durante a pesquisa, quem efetivamente deixará de votar.

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“No Brasil, o voto é obrigatório. Então, as pesquisas já pressupõem que as pessoas vão votar. [...] Na pesquisa eleitoral, é mais difícil captar um não-voto”, afirmou.

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Para Tathiana, o impacto da abstenção sobre o desempenho de Lula já era uma possibilidade conhecida antes da votação. Ela, porém, acrescenta outro elemento à análise: a existência das chamadas “maiorias silenciosas”, grupos de eleitores que podem ser mais difíceis de alcançar pelos levantamentos tradicionais.

“Já era sabido que, se tivesse uma abstenção alta, ou qualquer nível de abstenção, impactaria mais o número de votos do Lula. Mas aí tem uma segunda questão: a gente tem observado desde 2018 um fenômeno chamado de ‘maiorias silenciosas’, que são aquelas que não conseguem captar. Elas estão dentro de grupos de WhatsApp, vão receber a colinha…”, disse.

A cientista política ressalta, no entanto, que a diferença entre as estimativas e o resultado das urnas não deve levar a uma desqualificação automática das pesquisas eleitorais. Para ela, os institutos utilizam metodologias relevantes, mas precisam revisar e ajustar seus modelos a cada eleição.

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“As pesquisas do Brasil são de instituições sérias, têm metodologias importantes. Claro que, em todas as eleições, é necessário fazer ajustes nessas metodologias. E elas importam muito para a democracia”, afirmou.

Borenstein também destacou a evolução de Flávio nas pesquisas ao longo do primeiro turno. Segundo ele, apesar das oscilações dentro da margem de erro, o candidato do PL apresentou uma trajetória de alta nos levantamentos.

Para o analista, acontecimentos dos últimos dias da campanha também podem ter influenciado a decisão de parte do eleitorado. Ele citou a controvérsia envolvendo as regras do debate presidencial da TV Globo, o posterior cancelamento do encontro e as críticas de formadores de opinião, juristas e advogados que classificaram a decisão da Justiça Eleitoral como censura.

Na avaliação de Borenstein, o episódio teria repercutido negativamente para a Justiça Eleitoral e se somado a um ambiente de desgaste do Supremo Tribunal Federal e às repercussões do escândalo envolvendo o Banco Master. Segundo ele, a direita e o bolsonarismo utilizaram a narrativa de um suposto viés político contra candidatos bolsonaristas.

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O analisa também avalia que o resultado do primeiro turno não se restringiu ao desempenho de Flávio Bolsonaro e apontou para um movimento mais amplo do eleitorado em direção a candidatos de direita. Ele citou o desempenho do PL nas disputas para o Senado, a Câmara dos Deputados e os governos estaduais.

“É um fenômeno que não se restringe exclusivamente ao Flávio, mas que a gente enxerga um movimento que a opinião pública fez, de quinta-feira à noite até o domingo, de votar no campo da direita. E isso se refletiu na eleição presidencial”, afirmou.

Segundo Borenstein, esse movimento de última hora é justamente um dos fatores que dificultam a captação pelas pesquisa. “O eleitor está se definindo para mais tarde. O percentual de indecisos é maior nessa reta final”, disse. 

Fonte: Portal Terra
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