Ônibus de graça no fim de semana: o que SP e São Caetano ensinam sobre a promessa de Lula

Proposta prevê gratuidade nacional aos sábados, domingos e feriados; experiências municipais mostram mais passageiros, mas também desafios para manter o serviço

17 out 2026 - 14h14
(atualizado às 14h23)
Resumo
A promessa de Lula de instituir passe livre aos fins de semana via PEC, financiada por emendas parlamentares, reacende o debate sobre a tarifa zero no Brasil. Casos como São Paulo e São Caetano apontam forte alta na demanda, mas expõem gargalos operacionais e orçamentários, com custos estimados entre R$ 20 bilhões e R$ 60 bilhões ao ano. Especialistas alertam que a medida exige planejamento financeiro contínuo e reforço de frota para evitar a sobrecarga ou a revogação do serviço, já vista em oito cidades.

A promessa de ônibus gratuitos aos fins de semana em todo o Brasil pode colocar mais passageiros no transporte público, mas também exigir reforço nas frotas e aumentar os custos. Em São Paulo, a demanda aos domingos cresceu 33% no primeiro mês do Domingão Tarifa Zero. Em São Caetano do Sul, na região metropolitana, o número de passageiros quadruplicou após a implantação da gratuidade, e a prefeitura acabou restringindo o benefício.

As experiências ajudam a dimensionar os desafios da proposta anunciada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na quinta-feira (15). A dez dias do segundo turno das eleições, Lula prometeu enviar ao Congresso em 2027, caso seja reeleito, uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) para garantir transporte coletivo gratuito aos sábados, domingos e feriados.

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As estimativas de custo variam bastante. A Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU) calcula que a medida custaria cerca de R$ 20 bilhões por ano. Já a Confederação Nacional dos Municípios (CNM) estima um impacto entre R$ 50 bilhões e R$ 60 bilhões anuais. Como mostrou o Estadão, entidades ligadas ao setor de transportes e prefeituras afirmam que ainda é impossível saber com exatidão qual o impacto da tarifa zero em todo o País.

O presidente pretende usar recursos de emendas parlamentares para financiar a gratuidade, mas ainda não detalhou como funcionariam os repasses nem quais modalidades de transporte seriam contempladas.

Em São Paulo, demanda aos domingos subiu 33%

A capital paulista oferece ônibus municipais gratuitos aos domingos desde dezembro de 2023. No primeiro domingo do programa, em 17 de dezembro daquele ano, cerca de 3 milhões de passageiros usaram os ônibus municipais. No primeiro mês, o sistema registrou 16,2 milhões de embarques.

Segundo a prefeitura, a média de passageiros aos domingos passou de 2,1 milhões, em janeiro de 2023, para 2,8 milhões no primeiro mês do programa, sem contar os feriados prolongados, um crescimento de 33%.

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O Domingão Tarifa Zero permite viagens ilimitadas das 0h às 23h59, sem cobrança de passagem, mas não inclui metrô, trens nem ônibus intermunicipais. O objetivo da prefeitura é ampliar o acesso da população a lazer, cultura e serviços.

O caso mostra que a gratuidade, por si só, não garante melhora na mobilidade. Para atender mais passageiros, as cidades precisam avaliar a frota disponível, os intervalos entre viagens e a capacidade financeira de ampliar a operação.

Oito cidades já desistiram da tarifa zero

Apesar da expansão da gratuidade no País, algumas cidades voltaram a cobrar passagem. Levantamento da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU) publicado pelo Estadão em julho identificou 146 municípios com tarifa zero universal. Em uma década, o número passou de 26 para 146, mas o ritmo de adesão desacelerou.

Até aquele levantamento, oito municípios haviam revogado a gratuidade. Só em 2025, três cidades encerraram seus programas: Monte Mor (SP), Picos (PI) e Ubiratã (PR).

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Ubiratã (PR)
Ubiratã (PR)
Foto: reprodução via instagram/@prefeituraubirata / Estadão

Entre os principais obstáculos estão os custos operacionais, a falta de fontes permanentes de financiamento e o aumento da demanda. Segundo Francisco Christovam, diretor-presidente da NTU, programas implantados sem planejamento financeiro de longo prazo têm dificuldade para se manter. O problema pesa mais nas cidades grandes, onde a operação exige frotas numerosas, mais funcionários e uma rede extensa de linhas.

Ônibus de graça pode diminuir o trânsito?

Um dos argumentos a favor da tarifa zero é incentivar o transporte coletivo e reduzir a dependência do carro. Mas, como já mostraram reportagens do Estadão, mais passageiros nos ônibus não significam, necessariamente, menos carros nas ruas.

A gratuidade também pode estimular viagens que antes não eram feitas ou atrair quem se deslocava a pé ou de bicicleta. Para medir o efeito sobre congestionamentos e emissões, seria preciso saber quantos novos passageiros de fato deixaram o veículo particular.

A qualidade do serviço também conta. Ônibus lotados, intervalos longos e trajetos demorados reduzem a atratividade do transporte público, mesmo com passagem gratuita.

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Quem vai pagar a conta?

A proposta de Lula prevê usar emendas parlamentares para financiar o benefício. Para 2027, estão reservados R$ 57,5 bilhões para essas emendas, valor próximo da estimativa de custo da CNM. O modelo, porém, ainda precisa ser detalhado.

Por enquanto, a gratuidade nacional é apenas uma promessa |
Foto: Tiago Queiroz/Estadão / Estadão

Para Marcos Bicalho, diretor de gestão da NTU, o governo federal deveria assumir integralmente os custos da gratuidade, inclusive nos municípios que já oferecem o benefício. A entidade também defende repasses regulares, que garantam recursos suficientes para manter os veículos circulando.

A mudança pode exigir revisão dos contratos com as operadoras, especialmente nos sistemas em que a remuneração depende do número de passageiros transportados.

Por enquanto, a gratuidade nacional é apenas uma promessa. Sua implantação depende da aprovação do Congresso e da definição de um modelo de financiamento. As experiências municipais mostram que tirar a cobrança da passagem é só parte do desafio. A outra é garantir que, com mais passageiros, os ônibus continuem funcionando.

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