O que fez Lula vencer Flávio Bolsonaro em virada histórica? Especialistas comentam

Lula (PT) superou Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições neste domingo, 25, e é eleito Presidente da República pela quarta vez

26 out 2026 - 05h00
Lula após reeleição: 'Vou fazer o melhor mandato que um presidente já fez'; veja a íntegra
Video Player

Não há uma “única bala de prata” que fez com que Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vencesse Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições neste domingo, 25. Para especialistas ouvidos pelo Terra, há uma série de fatores que podem ter pesado nessa reta final: como o despertar da militância nas redes sociais e nas ruas, um movimento do eleitorado de “pregar aos não convertidos”, o desgaste da imagem de Flávio e o medo do retorno da família Bolsonaro ao poder. Além disso, mais uma vez, Lula foi pioneiro ao se tornar o primeiro presidente eleito quatro vezes e, também, o primeiro a ganhar de virada.

“São diversos tiros de chumbinho que vão cravejando o imaginário do eleitorado com a prospecção, de como seria o futuro. O eleitor não é bobo. O eleitor identifica quando o candidato tem proposta, e isso apareceu com mais força agora que os candidatos foram ao debate”, avalia Flávia Bozza, cientista política da ESPM.

Lula (PT) em primeiro discurso após ser reeleito Presidente da República
Lula (PT) em primeiro discurso após ser reeleito Presidente da República
Foto: Estadão Conteúdo

A vitória de Lula não tem necessariamente a ver com uma com uma adesão do eleitorado ao presidente Lula e muito menos ao petismo, avalia a cientista política. Ela acredita que a desconstrução da imagem de Flávio e o medo do retorno da família Bolsonaro ao poder foram os pilares que garantiram a vitória de Lula --mais do que a intenção direta de votar no petista.

Publicidade

Flávio Bolsonaro conquistou 47,03% (56.104.503 votos) e superou Lula, que ficou com 45,16% (53.879.538 votos), no dia 4 de outubro. O resultado foi um baque para os apoiadores do petista e para a sua própria campanha. Enquanto a militância se assustou, a equipe do candidato à reeleição precisou focar em mudar suas estratégias. Já no segundo turno, Lula foi eleito com 51,79% (64,2 milhões de votos), enquanto Flávio Bolsonaro ficou com 48,21% (59,8 milhões), com 100% das urnas apuradas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). 

“A possibilidade de entrada de Flávio Bolsonaro no poder assustou a militância, assustou os jovens. Um candidato que é um constante desafio à Constituição, um candidato que flerta com o golpismo. Me parece que houve um grande despertar com esse perigo” – Flávia Bozza, cientista política.

Nas redes sociais, Lula passou a publicar vídeos selfies, intensificou o diálogo com jovens influenciadores e traçou outros caminhos com o intuito de fazer a campanha durar a bolha. Isso porque, com a dificuldade de “virar voto” do adversário, o foco passou a ser os indecisos.

No primeiro turno, mais de 33 milhões de eleitores não compareceram às urnas, representando 21,08% do eleitorado – o maior índice registrado desde 1998. Já a diferença de votos de Flávio Bolsonaro para Lula foi de 2,2 milhões de votos. Já no segundo turno, a taxa de abstenções, brancos e nulos registrou mínima histórica.

“Essa virada foi alcançada justamente por a campanha inteira de Lula, em especial, e as forças que orbitaram em torno dela, resolveram pregar para os não convertidos. Foi uma estratégia de apelação ao indeciso, àquele que anulou a voto ou que votou em branco”, acredita a especialista.

Publicidade

Para além dos atos que tomaram as ruas pelo Brasil, não há como falar da vitória de Lula no segundo turno sem citar o “Exército do Lula”, grupo criado e administrado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG) no WhatsApp. Após a frustração com o resultado do primeiro turno, Janones convocou o eleitorado do petista para o canal, onde promoveu “missões” em prol da candidatura de Lula e que também buscaram desidratar a imagem do adversário.

O grupo, que ultrapassou 10 milhões de seguidores, virou uma pedra no sapato da campanha de Flávio Bolsonaro – e, por isso, acabou se tornando alvo de um “vai e vem” de processos e decisões no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Lula falou primeiro para ‘soldados’ de Janones após ser reeleito presidente: ‘Não pode parar’
Video Player

“Nunca antes na história do País"

Não é atoa que “nunca antes na história deste País" é um dos bordões mais famosos de Lula. “É uma trajetória de ineditismos”, explica Flávia Bozza. E, agora, Lula fez mais um feito histórico sendo o primeiro presidente eleito que não terminou o primeiro turno como o mais votado. Essa foi a primeira “virada” do tipo.

Lula, torneiro mecânico, conseguiu organizar a classe trabalhadora e conquistou a confiança do eleitorado a ponto de vencer sua primeira eleição para Presidência em 2002. Sobre as primeiras vezes, ela relembra que Lula foi o primeiro presidente sem nível superior eleito, assim como ele foi o primeiro a conseguir indicar um sucessor após uma reeleição –mo caso, Dilma Rousseff, em 2011. “É uma trajetória onde essa liderança foi presa, condenada, depois teve a condenação anulada pela Justiça, conseguiu retomar a sua liberdade e voltou ao poder”.

Publicidade

Promessas e contexto político

Lula, sendo o incumbente, teve a máquina pública nas mãos e aproveitou para lançar o “pacote da bondade” na reta final da eleição para reverter a desvantagem nas urnas. No primeiro turno, ele focou em três pontos: a proibição das bets, o aumento do valor do Bolsa Família e a promessa de disponibilizar canetas emagrecedoras no Sistema Único de Saúde (SUS). No segundo, o petista ainda sancionou uma lei que garante o perdão de dívidas de microempreendedores individuais (MEIs) e prometeu tarifa zero no transporte aos fins de semana. Outra coisa que garantiu foi a versão universitária do “Pé-de-Meia”, caso seja reeleito 

Sérgio Simoni Jr., professor de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP), avalia que esses fatores ajudaram na virada de Lula, mesmo com parte das propostas ainda não terem sido efetivadas ou chegado “na ponta”. “Mas os compromissos feitos por Lula, considerando a credibilidade de sua trajetória com relação a benefícios sociais, podem ter sido passíveis de retorno eleitoral”, avalia.

Sérgio relembra, ainda, que no primeiro turno a população ficou muito voltada às discussões em torno do Supremo Tribunal Federal (STF) e das denúncias que surgiram em torno do escândalo do Banco Master. “Isso tirou o foco da eleição presidencial e diminuiu o debate sobre candidatura particularmente do Flávio Bolsonaro”, acredita.

Flávio Bolsonaro é acompanhado de uma força inegável que vem se deu pai, Jair Bolsonaro, do movimento do bolsonarismo. Mas esse também foi um fator que trouxe uma forte rejeição à sua candidatura. Assim, avalia Sérgio, no primeiro turno Flávio conseguiu minimizar a questão se colocando como um “Bolsonaro moderado”, mais dialogável, menos radical, que dá mais atenção às mulheres e afins. E, em um primeiro turno sem debates diretos dele com outros candidatos, isso o segurou em um cenário mais favorável para ele sair na liderança.

Publicidade

“No segundo turno, quando o debate foi mais direto entre os dois candidatos, com a apresentação de argumentos contrários à candidatura do Flávio, envolvendo o seu nome em casos de corrupção e com a ideia de que ele iria cortar programas sociais, a virada de Lula é mais explicada”, acredita.

Imagens aéreas mostram multidão na Avenida Paulista para celebrar reeleição de Lula
Video Player

Apesar da vitória, desafios

A vitória de Lula não significa necessariamente que ele terá um mandato calmo e pacífico. “Apesar de uma vitória, a gente pode ter saído das urnas um vencedor que não vai ganhar muito. Por quê? Porque a gente está num cenário em que um presidente minoritário tem muitas dificuldades de governar”, aponta Flávia.

Ela explica que quando um presidente não possui a maioria do Congresso como aliados, muitas vezes ele busca uma agenda próxima do centro do Congresso, onde talvez não vá precisar fazer tantas concessões. “O que não tem sido o caso, tanto nesse governo que o Lula encerra agora nesse ano, quanto pode ser o que a gente vai encontrar também saído das urnas ao calcularmos o tamanho das bancadas”.

“Um presidente que não tem apoio no Congresso é um presidente mais fragilizado, é um presidente que tem que abrir concessões com as quais ele não estaria em situações contrárias, nem um pouco disposto a abrir. Então, o que se tem, apesar da vitória do Lula, é um contexto em que não tenha dúvidas que vai ser difícil governar”, explica a cientista política.

Publicidade
Fonte: Portal Terra
Curtiu? Fique por dentro das principais notícias através do nosso ZAP
Inscreva-se