Mobilização pró-Lula, rejeição ao bolsonarismo e impasse com o centro: o que levou Flávio à derrota, segundo especialistas

Especialistas avaliam como a articulação de apoiadores do petista e os limites da candidatura do PL para atrair novos segmentos

26 out 2026 - 05h00
Flávio Bolsonaro não reconhece resultado, cita 'sacanagem' e diz que irá pedir anulação da eleição
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Flávio Bolsonaro (PL) perdeu a disputa pela Presidência da República para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) após terminar o primeiro turno à frente do adversário. A derrota interrompeu uma trajetória que havia começado com a liderança nas urnas e foi marcada por uma disputa acirrada, articulações políticas e tentativas de conquistar eleitores indecisos e os que não compareceram à primeira votação.

Desde a redemocratização, em 1989, nenhum candidato que havia terminado o primeiro turno na liderança tinha sido derrotado na etapa final da eleição presidencial. Para especialistas ouvidos pelo Terra, a virada pode ser compreendida a partir de uma combinação de fatores: a ampliação da mobilização em torno de Lula, a atuação das redes sociais, a rejeição ao bolsonarismo e as dificuldades enfrentadas pelo senador para conciliar os interesses de sua base mais fiel com a busca por votos no centro do eleitorado.

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A campanha de Flávio também atravessou controvérsias relacionadas ao Banco Master e ao filme Dark Horse, produção sobre Jair Bolsonaro (PL), além de questionamentos sobre a escolha do senador como sucessor político do pai. O anúncio da candidatura, feito pelo ex-presidente no fim de 2025, enfrentou resistências de setores da direita que defendiam outras alternativas, entre elas o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).

Mobilização digital e ampliação da frente pró-Lula

Flávio Bolsonaro não reconheceu a derrota
Flávio Bolsonaro não reconheceu a derrota
Foto: FREDERICO BRASIL/THENEWS2 / Estadão

Para Karolina Mattos Roeder, professora dos cursos de Ciência Política, Gestão de Partidos Políticos e Relações Internacionais da Uninter, dois movimentos da campanha petista contribuíram para reverter a vantagem obtida por Flávio no primeiro turno.

O primeiro foi a ampliação dos grupos que passaram a atuar em favor de Lula. Além de artistas, influenciadores e políticos, a mobilização envolveu comunidades de fãs, conhecidas como fandoms, e pessoas sem experiência anterior de militância política que se manifestaram contra a eleição do senador.

“Esse movimento tem relevância analítica porque os fandoms operam como redes de mobilização de alta densidade, capazes de produzir engajamento orgânico, de alcançar públicos jovens e de menor interesse político, e de converter identidade cultural em participação eleitoral. Isso reduziu a vantagem que a direita historicamente construiu no ambiente digital e ajudou a ampliar o comparecimento em segmentos que haviam se abstido ou votado em terceiros na primeira rodada”, afirmou a professora.

O segundo fator, segundo a especialista, foi a retomada de uma estrutura de comunicação digital ligada ao deputado federal André Janones (Rede-MG). O grupo voltou a mobilizar o chamado “exército do Lula” e produtores de conteúdo para disputar narrativas, responder à desinformação e disseminar mensagens em linguagem popular.

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“A experiência de 2022 mostrou que esse tipo de mobilização, descentralizada e de baixo custo, consegue pautar o debate em tempo quase real, o que se torna especialmente valioso em um segundo turno de poucas semanas, em que a campanha precisa reagir rapidamente a debates, notícias judiciais e episódios de última hora.”

A cientista política também apontou a rejeição ao senador como um obstáculo para a ampliação de sua base eleitoral. “Isso indica que a mobilização negativa operou nos dois sentidos e favoreceu quem melhor a ativou. Flávio, portanto, ficou atrás não por perder votos em termos absolutos, mas porque seu teto de adesão se mostrou inferior ao de uma coalizão ampla, culturalmente mobilizada e digitalmente articulada”, analisou.

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A diferença entre os dois candidatos no primeiro turno também deixou espaço para uma mudança de posição entre eleitores que ainda não haviam definido seu voto ou que tinham escolhido outros nomes na primeira votação.

Rogério Baptistini, professor de Sociologia e cientista político da Universidade Presbiteriana Mackenzie, destacou que a margem entre os candidatos era pequena diante do contingente de eleitores que não escolheu nenhum dos dois no primeiro turno.

“Desde 1989, o vencedor do primeiro turno sempre acabou eleito. Uma derrota de Flávio inaugura esse registro. A margem, primeiro, era reversível. 1,87 ponto percentual é menos do que o reservatório de decisão que ficou fora das urnas. Mais de 39 milhões de eleitores se abstiveram ou votaram em branco e nulo no primeiro turno”, afirmou.

O professor destaca que a pesquisa também indicava que, entre os eleitores que não haviam votado em Lula ou Flávio na primeira etapa, 40% declaravam intenção de voto no petista, contra 36% no senador. A disputa também envolveu os eleitores dos candidatos derrotados, que não migraram em bloco para um único lado.

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Baptistini observou que Lula avançou inclusive entre eleitores de Augusto Cury, que havia declarado apoio a Flávio, enquanto o senador cresceu entre os que tinham votado em Ronaldo Caiado. O debate da Band, por sua vez, não teria provocado uma definição clara desse eleitorado.

O cenário reforça a importância da transferência de votos e da capacidade dos candidatos de alcançar públicos que não estavam inicialmente comprometidos com suas candidaturas. Nesse contexto, a liderança no primeiro turno não garantiu a manutenção da vantagem até a votação final.

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Além da disputa pelos eleitores indecisos, Flávio enfrentou o desafio de equilibrar os interesses de grupos distintos dentro de seu próprio campo político. A candidatura foi apresentada como parte da sucessão de Jair Bolsonaro, mas o apoio ao senador também dependia de sua capacidade de dialogar com eleitores que não necessariamente compartilhavam todas as posições do bolsonarismo.

“Flávio precisou simultaneamente tranquilizar o centro e alimentar a base que foi à Avenida Paulista pedindo a libertação de Jair Bolsonaro, condenado a mais de 27 anos de prisão por tentativa de golpe. Ele prometeu aos seus libertar o pai, que será quem colocará a faixa presidencial nele. Como fará isso? Cada frase dirigida a uma metade do eleitorado assusta a outra metade”, avaliou Baptistini.

O professor também apontou que as referências a supostos vínculos com milicianos, feitas pelo próprio Lula durante o debate da Band, e o peso do legado político do ex-presidente dificultaram a aproximação de Flávio com o eleitorado de centro.

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A situação expôs uma tensão na campanha: ao mesmo tempo que precisava manter o apoio dos eleitores mais identificados com Jair Bolsonaro, o senador precisava convencer uma parcela mais ampla do eleitorado de que sua candidatura representava uma alternativa capaz de reunir outros setores políticos.

Rejeição ao bolsonarismo pesou na disputa

Na avaliação de Baptistini, a eleição também foi marcada pela disputa entre rejeições aos dois candidatos. O professor argumentou que a resistência ao bolsonarismo permaneceu como um fator importante para compreender o resultado, especialmente diante da possibilidade de retorno da família Bolsonaro à Presidência.

“Como em 2022, esta foi uma competição de rejeições, e a antipatia ao bolsonarismo é o sentimento político mais organizado do eleitorado brasileiro. Se o medo da volta do pai, do 8 de janeiro e da punição convertida em perdão mobilizou mais gente do que o desgaste de Lula, a inversão se consumou.”

O cientista político acrescentou que a decisão do eleitorado de centro também envolvia uma avaliação sobre o significado político da candidatura do senador para além de sua trajetória individual.

“O centro percebe, afinal, que não estaria elegendo apenas um senador de 45 anos, mas devolvendo o poder a um movimento que nunca aceitou a derrota de 2022 e pode ameaçar a democracia construída a partir de 1988”, concluiu Baptistini.

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Fonte: Portal Terra
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