Flávio Bolsonaro é o primeiro candidato a sofrer virada, perde para Lula e fracassa na tentativa de levar bolsonarismo de volta ao poder
Liderança no 1º turno não se converteu em vitória; senador enfrentou resistências na direita e crises envolvendo o Master
Flávio Bolsonaro (PL) perdeu a disputa pela Presidência para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) após terminar o primeiro turno na liderança. A derrota representa um revés para o senador, que chegou ao segundo turno com o apoio de partidos e adversários políticos, mas não conseguiu sustentar a vantagem até a votação final. Desde a redemocratização, em 1989, é a primeira vez que um candidato que sai na frente no primeiro turno sofre uma virada no segundo.
A candidatura de Flávio à Presidência começou a ser desenhada no fim de 2025, quando Jair Bolsonaro (PL), condenado e preso por tentativa de golpe de Estado, indicou o filho mais velho como sucessor político em uma carta. O documento foi lido pelo então senador do lado de fora do Hospital DF Star, em Brasília, onde o ex-presidente, já detido, passava por um procedimento médico na ocasião.
A escolha do chamado “01”, porém, enfrentou resistências desde o início. Parte da direita defendia outros nomes para a disputa, entre eles o governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).
O resultado do primeiro turno mudou o quadro da disputa e abriu caminho para a ampliação dos apoios a Flávio. O senador terminou a primeira etapa na liderança, com 47,03% dos votos válidos, o equivalente a 56,1 milhões de votos. Lula ficou em segundo lugar, com 45,16%.
Na etapa final da campanha, Flávio recebeu o apoio de partidos como Republicanos, Novo e da federação União Brasil-Progressistas. O Podemos também declarou adesão ao candidato, enquanto o MDB anunciou apoio com o respaldo da maioria de seus diretórios estaduais, apesar de divergências internas.
Além das legendas, o senador conquistou o apoio de adversários que também haviam disputado o primeiro turno: Romeu Zema (Novo), Ronaldo Caiado (PSD) e Augusto Cury (Avante). Zema anunciou a adesão em 5 de outubro, justificando a decisão pela oposição ao PT. Caiado, que havia feito duras críticas a Flávio durante a campanha, declarou apoio no dia 6 e afirmou que entraria na disputa de “corpo inteiro”, com o objetivo de derrotar o partido de Lula.
O apoio de Cury, terceiro colocado no primeiro turno, veio acompanhado de condições. Em 8 de outubro, o escritor anunciou que daria um “voto de confiança” ao senador após a assinatura de uma carta de compromissos com propostas para educação, saúde, economia, proteção às mulheres, valorização dos professores e pacificação nacional. Cury também defendeu o fim da reeleição presidencial. Já Clariana Barão (DC), outra candidata derrotada, declarou apoio a Flávio após pedir o compromisso de preservar os direitos das mulheres e de destinar a elas pelo menos metade das indicações ao Supremo Tribunal Federal (STF).
Conflitos dentro da família Bolsonaro
A definição do candidato abriu uma disputa interna no próprio grupo político de Jair Bolsonaro. Um dos principais episódios ocorreu entre Flávio e Michelle Bolsonaro, que se desentenderam publicamente após a ex-primeira-dama criticar a aliança do PL no Ceará com Ciro Gomes (PSDB). Michelle afirmou ter sido desrespeitada pelo enteado, enquanto Flávio negou a intenção de ofendê-la e pediu desculpas. O conflito colocou em evidência uma dificuldade adicional da campanha: reunir diferentes setores do bolsonarismo em torno de uma única candidatura.
Em julho, o ex-presidente tentou encerrar a disputa interna ao escrever uma carta na qual declarou Flávio como seu candidato e "porta-voz". O senador leu a mensagem em uma transmissão nas redes sociais e disse que a decisão do pai ajudaria a evitar "falas conflituosas ou direções diferentes" dentro da direita.
A crise do tarifaço e o desgaste na campanha
As tarifas impostas pelos Estados Unidos ao Brasil, no começo da pré-campanha, apareceram com risco para a campanha de Flávio. O tema ganhou dimensão política depois que o senador se reuniu com Donald Trump na Casa Branca, em 26 de maio, em uma tentativa de consolidar o apoio do presidente americano à sua candidatura.
Na ocasião, segundo o político do PL, os dois conversaram sobre tarifas, comércio, minerais críticos e segurança. Dias depois, em 2 de junho, o senador alegou que havia pedido "expressamente" a Trump que não aplicasse uma tarifa sobre produtos brasileiros.
No entanto, com o anúncio das novas tarifas, Flávio passou a ser acusado por adversários de ter contribuído para a decisão de Trump. O senador, então, argumentou ao presidente americano que uma nova sobretaxa acabaria fortalecendo a campanha à reeleição de Lula, que classificou as retaliações americanas como ataques à soberania nacional. Em meio à repercussão negativa para sua campanha, o filho de Bolsonaro chegou a ser chamado de "Tariflávio" por adversários.
A repercussão do episódio também apareceu na percepção dos eleitores. Pesquisa Genial/Quaest divulgada em 16 de julho mostrou que 51% dos entrevistados concordavam mais com Lula na avaliação de que Flávio havia apoiado o tarifaço para prejudicar o governo brasileiro, enquanto 30% concordavam com a versão do senador de que ele havia pedido a Trump que não taxasse o Brasil.
A oficialização da candidatura
Em 25 de julho, o PL oficializou Flávio como candidato à Presidência durante a convenção nacional do partido, em São Paulo, e se colocou como responsável pela continuidade do legado do pai. A convenção contou com a participação do presidente argentino Javier Milei e com vídeos gravados por integrantes da família Bolsonaro, incluindo Michelle Bolsonaro, que alegou que não compareceu presencialmente para cuidar do marido em prisão domiciliar.
A composição da chapa, porém, só foi definida posteriormente. Flávio passou semanas tentando escolher uma mulher para a vice-presidência e, ao mesmo tempo, buscava atrair partidos do Centrão para a aliança, em uma tentativa de ampliar o apoio político e o tempo de propaganda eleitoral. Entre os nomes cotados estavam a senadora Tereza Cristina (PP-MS) e a economista Daniella Marques (Republicanos). As articulações, porém, esbarraram na decisão das cúpulas de partidos como PP, União Brasil e Republicanos de manter neutralidade na disputa presidencial.
Sem conseguir formar uma aliança com outras siglas, o PL acabou optando por uma chapa própria e, em 5 de agosto, o deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL) foi escolhido como vice. O episódio também trouxe um novo foco de desgaste à campanha, depois que Gaspar passou a ser alvo de um pedido de investigação da Polícia Federal por suspeita de estupro de vulnerável. O deputado negou a acusação e afirmou ser vítima de uma denúncia falsa e caluniosa.
Outro problema ocorreu durante a formalização da candidatura. Em agosto, a equipe de Flávio foi impedida de registrar a chapa pelo PL porque o sistema da Justiça Eleitoral apontava que o senador estava filiado ao Missão, legenda de Renan Santos, e não ao PL. A filiação irregular ao Missão havia sido registrada em 12 de agosto e, pelas regras eleitorais, o vínculo com uma nova legenda cancelava automaticamente a filiação anterior.
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE), porém, afirmou que o episódio não foi provocado por um ataque hacker ao sistema da Justiça Eleitoral. Segundo a Corte, houve "uso indevido" da ferramenta por alguém que possuía as credenciais do Missão para efetivar filiações. O presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, determinou a abertura de investigação e, após pedido da defesa de Flávio, restabeleceu a filiação do senador ao PL e determinou a exclusão do vínculo com o partido de Renan Santos.
A sigla declarou ter sido vítima de uma tentativa de filiação fraudulenta e afirmou que tentou cancelar o registro depois de identificar a irregularidade, mas não conseguiu. A legenda também colocou seus registros à disposição das autoridades para a investigação. Com a filiação ao PL restabelecida, a campanha pôde formalizar o registro da candidatura dentro do prazo eleitoral.
Campanha começou com áudios de Bolsonaro e no ‘quintal de casa’
A campanha oficial nas ruas começou em 16 de agosto, em Copacabana, no Rio de Janeiro. O local foi escolhido por ter sido palco de manifestações bolsonaristas nos últimos anos. Flávio utilizou áudios do pai, defendeu seu legado e apresentou propostas principalmente nas áreas de segurança pública e economia. Entre as promessas estavam classificar milícias e organizações do tráfico como terroristas, reduzir a maioridade penal e promover cortes de gastos.
A candidatura passou a explorar também a crise no Supremo Tribunal Federal, principalmente as investigações da Polícia Federal que apontaram um suposto elo entre Daniel Vorcaro, do Banco Master, e ministros da Corte, incluindo Alexandre de Moraes, que foi o relator do processo que condenou Jair Bolsonaro. Apesar de as investigações também apontarem possíveis elos entre o senador e o ex-banqueiro, Flávio adotou um discurso de crítica aos ministros do STF, com foco em ataques a Alexandre de Moraes, e passou a associar Lula ao Supremo. Em setembro, diante da crise envolvendo a Corte e o Banco Master, levou ao horário eleitoral um pronunciamento no qual afirmou que o governo Lula havia criado um "desequilíbrio institucional".
A crise no STF também passou a ocupar espaço crescente na campanha contra Lula e no debate eleitoral. Os conflitos entre ministros, as discussões sobre decisões da Corte e a pressão de setores do Congresso por mudanças no Supremo ampliaram o desgaste político em torno do atual governo. Para especialistas ouvidos pelo Terra, o episódio acabou afetando a campanha petista ao mobilizar o eleitorado de oposição e deslocar parte do debate eleitoral para uma pauta explorada por Flávio.
Banco Master e o filme 'Dark Horse'
A relação de Flávio com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, tornou-se outro dos principais episódios da campanha. Em maio, vieram a público mensagens e áudios nos quais o senador aparece pedindo recursos ao banqueiro para financiar o filme "Dark Horse", sobre Jair Bolsonaro. Flávio confirmou que procurou Vorcaro e afirmou que se tratava de uma tentativa de “obter patrocínio privado para a produção”.
Em julho, Flávio foi incluído na investigação que apura o repasse de R$ 61 milhões de Vorcaro para o financiamento do filme. Em setembro, o ministro André Mendonça determinou a abertura de um inquérito para investigar a participação do senador em possíveis crimes relacionados ao financiamento da produção, incluindo suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. A investigação está em sigilo, e Flávio nega irregularidades.
O caso ganhou ainda mais espaço na reta final da eleição porque a crise envolvendo o Banco Master e o STF passou a dominar o debate político. Flávio tentou explorar os conflitos dentro da Corte em sua campanha, ao mesmo tempo em que evitou colocar no centro dos discursos a própria relação com Vorcaro.
A relação de Flávio com Vorcaro voltou ao centro da campanha após a divulgação, em setembro, de que o senador havia tentado falar por telefone com o então dono do Banco Master nos dias que antecederam a primeira prisão do ex-banqueiro, em 17 de novembro de 2025. As mensagens e os registros de contato foram identificados pela Polícia Federal no celular de Vorcaro, apreendido na ocasião.
Uma viagem de Flávio, em janeiro de 2025, no mesmo jato executivo que meses depois foi utilizado pelo ministro do STF Alexandre de Moraes, foi outro polêmico da campanha. A viagem ocorreu no retorno de Flávio e da família de Fort Lauderdale, nos Estados Unidos, para Brasília, e teve o advogado Willer Tomaz entre os passageiros. Tomaz já foi preso na Operação Lava Jato e é alvo da PF na Operação Sem Desconto, que apura um esquema bilionário de fraudes em benefícios do INSS. A aeronave, um Legacy 650, era operada pela Prime You, da qual Vorcaro foi sócio, e também tinha outros proprietários de cotas, entre eles Tomaz. O advogado afirma que custeou o voo por meio de sua cota e que a viagem não teve relação com Vorcaro.
Em 10 de setembro, a Polícia Federal deflagrou uma operação para investigar suspeitas de desvios de recursos de emendas parlamentares para organizações ligadas à proprietária da produtora do filme "Dark Horse". No dia seguinte, veio a público a abertura de um inquérito específico para apurar a participação de Flávio em possíveis crimes de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas relacionados ao financiamento do longa. Já durante a campanha do segundo turno, a PF solicitou cooperação internacional às autoridades dos Estados Unidos para rastrear aproximadamente US$ 10,6 milhões supostamente destinados ao fundo que financiou o filme, ampliando a pressão sobre o candidato em meio à disputa presidencial.
-sohus6tzo7cg.jpg)


