O candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi o quarto a participar da série de sabatinas com os presidenciáveis promovidas pela TV Globo na noite desta quinta-feira, 27, e começou sendo questionado sobre o seu filho, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, que é investigado em três inquéritos pela Polícia Federal. "Vai ter que provar a inocência", afirma Lula em entrevista conduzida por Renata Vasconcellos e César Tralli. Polêmicas deram tom à noite, com casos do INSS, Master, dívida pública e crise em estatais sendo elencados.
Momento da Decisão vai colocar frente a frente os principais candidatos à Presidência no dia 14 de setembro, às 22h, em debate promovido pelo Terra e outros 10 veículos
Lulinha, Marcola e PF
Questionado sobre a conduta do filho, investigado em três inquéritos da Polícia Federal sob suspeita de corrupção e tráfego de influência em órgãos federais, Lula rebateu que "não tem nenhuma acusação" e apenas "ilações tiradas de telefonemas". O candidato repete o que tem dito sobre o assunto, de que como atual presidente da República não irá proteger seu filho -- e que se ele fez algo errado, irá pagar por isso.
"Não sou do Ministério Público. Não sou delegado, não sou juiz. Sou Presidente da República e pai do Fábio. Se o Fábio cometeu qualquer ilícito, ele terá que pagar como qualquer cidadão brasileiro que cometeu ilícito", afirmou.
Além disso, Lula compara a situação com o que ele viveu na Lava Jato, o que chamou de "a maior mentira montada no país" com o intuito de impedir que ele voltasse a ser presidente. "Eu poderia ter feito qualquer coisa para não prestar depoimento, e fiz questão de prestar mais de 20. [...] E com meu filho vai acontecer a mesma coisa, só ele sabe a verdade. Se ele fez erro, ele pagará. Ele não será protegido por ser meu filho, ele sabe o que tem que fazer. Tem que provar a inocência e tenho certeza que ele será inocente. Vamos esperar o tempo", alegou.
Tralli questionou Lula sobre mensagens específicas da lobista Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha, obtidas pela Polícia Federal que citam seu filho. "Você acha que se eu pegasse o seu celular e fosse investigar tudo que você falou, só teria coisa correta? O que uma pilantra, ou um cara qualquer, pode fazer no telefone? Quero dizer que o fato de terem pego conversa no telefone não justifica absolutamente nada", alega, complementando que até o momento não há provas concretas de movimentações de seu filho em torno do caso.
Renata cita uma conversa da lobista em que ela disse que o presidente teria a oferecido um carro e para ela escolher "onde quer ficar". Lula segue rebatendo: "Só faltou ela dizer que eu ofereci a ela o Ministério da Defesa, o comando da Marinha, da Aeronáutica. É de uma imbecilidade. Eu não conheço essa moça, eu nunca vi essa moça na minha vida, nunca conversei com essa moça. Ela nunca esteve próxima de mim. É o seguinte, malandro é igual em qualquer lugar do mundo", diz.
O ex-assessor presidencial de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, também é citado nas investigações e teve seu nome elencado pela bancada da Globo. Lula foi questionado se isso não traz suspeitas para dentro do Palácio e o candidato confirma que isso levanta desconfianças para sua imagem. Mesmo assim, o petista defende o papel que Marcola tinha no governo e diz que não quer se precipitar. "Eu não gosto de fazer pirotecnia com acusações sem que se termine o inquérito", diz.
Enquanto Lula tenta descolar a imagem de Marcola à da lobista, Renata cita contas que foram pagas e presentes que foram dados pela mulher ao ex-assessor. "Não é adequado, é totalmente errado e o Marcola sabe do erro que ele cometeu. Ele sabe disso. Agora, ele diz que tomou R$ 249 mil reais emprestado, como tá na imprensa. Só ele sabe a verdade. Quando tiver a acariação entre os dois, é que vamos saber. Por enquanto, acredito na versão dele de que foi emprestimo", complementa Lula -- que reforça que se o seu aliado cometeu um erro, que ele pague à Justiça.
Escândalo do INSS
Investigações revelaram que mais de 60% dos descontos sob suspeita do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) aconteceram durante o governo Lula. Tralli traz à mesa o fato de que o presidente do INSS durante o governo do petista está preso preventivamente, Alessandro Stefanutto, e pede explicações do candidato aos aposentados e pensionistas afetados.
"Nós já demos a explicação. Primeiro que nós já devolvemos R$ 3,5 bilhões. Não tem um aposentado que foi roubado que não foi devolvido o dinheiro. E esse dinheiro vai ser ressarcido pelos bens que nós apreendemos da quadrilha, uma quadrilha que foi montada em 2019, inclusive com a participação do ministro da Previdência daquela época", responde Lula, que traz para o seu governo os créditos de ter descoberto e desarticulado a dita quadrilha.
Outro nome citado foi o de Carlos Lupi, que foi ministro da Previdência Social do governo Lula de 2023 a 2025, quando pediu demissão em meio a escândalos de fraudes no INSS. Renata lembra que, mesmo com a questão, Lula teria voltado a dar visibilidade política a Lupi. "Você não vê problema de pedir voto para alguém que demorou para agir, para barrar os desvios, e foi o responsável pela indicação do presidente do INSS que tá preso?", pergunta a jornalista.
Lula diz que ele não está condenado, que é um cidadão livre e que "a relação política não tem nada a ver com a relação administrativa". "Vamos aguardar a investigação. Eu sei o que é isso, já passei por isso", diz, mais uma vez se colocando como vítima do período da Lava Jato.
Na sequência, subindo o tom, Lula diz que a imprensa brasileira "comprou uma mentira, vendeu a mentira e nunca reconheceu", voltando ao assunto da Lava Jato. A bancada da Globo rebate, alegando que o jornalismo da Globo cumpriu a sua obrigação de noticiar os fatos durante a cobertura. "A imprensa sabe que ela produziu um monstro mentiroso chamado Moro, chamado Dallagnol".
Ainda sobre o INSS, Tralli fala sobre a fila do serviço. Lula adianta que irá anunciar na próxima semana que a fila zerou, e que "a espera de 45 dias vai estar apenas em 250 mil pessoas, que é o normal".
Caso Master
Jaques Wagner, aliado histórico de Lula, que até junho era lider do governo no Senado, é investigado por suspeita de promover interesses do banqueiro Daniel Vorcaro. "Apesar da investigação, o senhor continuou demonstrando apoio e pediu inclusive votos a Jaques Wagner. Antes, não é preciso aguardar as investigações para esclarecer de fato o envolvimento dele?", questionou Renata.
Lula diz que há muita gente envolvida no caso, e alega que não está provada relação de Wagner com o banco Master. "As pessoas são inocentes até que se prove o contrário [...] Eu não posso colocar em dúvida o comportamento e a relação do Wagner comigo por conta de uma ilação, não posso. Eu tenho consciência que ele é honesto. Se cometeu um desvio, vai acontecer com ele o que vai acontecer com qualquer pessoa: vai pagar um preço pelo erro que cometeu", diz.
Dívida pública
Lula não conseguiu equilibrar as contas públicas em seus últimos quatro anos de mandato e o problema fiscal no Brasil segue grave. Em junho deste ano, a Dívida Bruta do Governo Geral avançou para 81,9% do PIB (Produto Interno Bruto), alcançando R$ 10,4 trilhões no mês. Esse é o maior valor desde abril de 2021, quando a dívida estava em 82,62% do PIB. Na Globo, Renata pergunta sobre as metas do petista e para qual percentual do PIB ele pretende trazer essa dívida.
"Renata, eu pensei que uma jornalista da tua qualidade, da tua competência, pudesse começar essa pergunta falando diferente. Você poderia dizer: presidente Lula, o senhor foi o único presidente da história do Brasil que fez superávit primário durante 8 anos do seu primeiro mandato", rebate Lula.
"Nunca tive problema fiscal nesse país. Você acha que o Brasil está com problema de dívida pública porque chegamos a 80%. Sabe por quê? Porque estamos há mais de 10 anos sem crescer. Sabe quando o PIB voltou a crescer acima de 2%? Quando voltei à Presidência da República", continua, sem responder a pergunta inicial da jornalista. Lula diz que a dívida pública não o preocupa.
Lula é questionado se pretende reduzir gastos obrigatórios e quais exatamente. O petista diz que "já fez o básico que tinha que fazer" e que, agora, quer fazer uma revolução tecnológica em seu próximo mandato.
Considera vender os Correios?
A bancada da Globo traz à tona o rombo histórico em estatais federais, que acumulam prejuízo de R$ 20 bi no governo Lula -- citando o caso mais grave, dos Correios, que enfrenta um rombo histórico. "O senhor considera vender os Correios?", pergunta Tralli. Lula argumenta que "desde 1985 o Correio está em crise e alguém quer privatizar o Correio".
"O Correio é uma empresa muito importante para o Brasil porque ela está em todos os municípios brasileiros. Obviamente, a crise do Correio é que ele não se adaptou aos novos tempos. Surgiram muitas empresas de fazer entrega e o Correio ficou na mesmice. Não só, a gente está com uma nova administração no Correio que está com a responsabilidade de fazer o enxugamento que for necessário nas contas do Correio. Se for necessário fazer associação com empresa, nós faremos, porque a gente quer um Correio prestando serviços", discorre o petista, que garante que os Correios vão sair dessa crise.
Segurança Pública e crime organizado
Por que, em mais de 20 anos, o crime organizado se espalhou pelo Brasil? É a pergunta feita pela bancada da Globo na reta final da entrevista. Lula explica que quer criar o ministério da Segurança Pública para estabelecer qual é a participação de cada ente federado na Segurança Pública. "Qual vai ser o papel da União, dos estados e dos municípios. E aí sim a gente vai trabalhar muito forte. Tiveram muitos governadores que não quiseram: Tarcísio não quis, Caiado não quis. Porque não querem que o governo federal se meta na segurança pública", diz, atacando adversários políticos.
Tralli cita o caso da Bahia: Lula esteve na presidência por 12 anos e o PT governa a Bahia tem 20 -- e ainda assim o Estado conta com 5 das 10 cidades mais violentas de todo o Brasil. "Não seja injusto com a Bahia. Nenhum governador do Brasil conseguiu resolver o problema da Segurança Pública, nenhum conseguiu segurar", responde Lula.
Quando os outros candidatos serão entrevistados?
As entrevistas tiveram início na segunda-feira, 24, com Romeu Zema (Novo). O candidato defendeu anistia a Bolsonaro, disse ser contra a obrigatoriedade de vacina, e sofreu mais de 10 interrupções de Renata e Tralli.
Na terça-feira, 25, foi a vez de Ronaldo Caiado (PSD). O candidato evitou responder perguntas comprometedoras, detalhar planos econômicos, tentou se colocar como 3ª via e se comprometeu com um projeto de 'anistia ampla, geral e irrestrita' aos condenados pelo 8 de janeiro para pacificar o Brasil. A entrevista foi marcada por cerca de 40 interrupções ou tentativas de interrupções de Renata Vasconcellos e César Tralli, que muitas vezes foram ignorados pelo ex-governador de Goiás.
Na quarta-feira, 26, Renan Santos (Missão) foi entrevistado. O candidato defendeu o desenvolvimento de bomba nuclear para fazer do Brasil protagonista e soberano, se disse alinhado do entendimento "prendeu, matou", e reivindicou uma reforma da Previdência.
Agora, após Lula, a cronologia das entrevistas segue a seguinte ordem sorteada:
- 28/8 (sexta-feira) - Flávio Bolsonaro (PL)
- 29/8 (sábado) - Augusto Cury (Avante)
Cada entrevista tem 40 minutos de duração, com dois blocos, e um minuto para considerações finais no encerramento. Foram convidados os seis candidatos mais bem colocados na pesquisa Quaest de intenções de voto, divulgada em 14 de agosto.