Mais velho, ativo e decisivo: o novo perfil do eleitorado brasileiro

Mudança do perfil etário amplia demandas por políticas públicas e adaptações nas cidades

19 ago 2026 - 04h58
Urna eletrônica: Eleições de 2026 serão marcadas pela discussão sobre o uso de IA
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Foto: Dida Sampaio/Estadão / Estadão

A população brasileira está envelhecendo e isso reflete nos eleitores. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), são aproximadamente 37,5 milhões de eleitores com 60 anos ou mais, o que representa 23,6% do total. Em 2022, eram 32,9 milhões, o que correspondia a 21%. Nesse mesmo período, o número de eleitores de até 18 anos caiu 14,5%.

O movimento acompanha o avanço da longevidade no País. Segundo o IBGE, a população brasileira com 60 anos ou mais passou de 10,8% em 2010 para 15,8% em 2022. Os impactos deste processo são percebidos em diferentes setores da sociedade, da economia e do mercado de trabalho à política, ao consumo e às políticas públicas.

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Para especialistas, é pouco provável o sucesso de uma campanha política sem considerar as demandas e necessidades dos cidadãos desta faixa etária no Brasil. De acordo com Cléa Klouri, especialista em longevidade e cofundadora do data8, um hub de pesquisas sobre longevidade, as eleições podem representar uma oportunidade para lançar um olhar mais atento à questão do envelhecimento da população.

“Nenhuma campanha eleitoral pode ignorar essa população mais velha. Claro que saúde preventiva, cuidado e previdência são muito importantes. Mas estamos vendo uma população 60+ que é muito ativa, que trabalha, empreende, consome e sustenta as famílias”, comenta.

Envelhecimento amplia demandas políticas e sociais

A mudança do perfil etário do eleitorado também amplia o conjunto de demandas que podem chegar às urnas. “Os projetos eleitorais também precisam falar de mercado de trabalho, inclusão digital, de mobilidade, de moradia e, principalmente, do combate ao etarismo”, conclui.

O envelhecimento populacional, no entanto, não é um processo uniforme por todo o País. As características desta população variam de acordo com fatores como renda, gênero, cor e local de moradia, o que também influencia suas necessidades e o acesso a serviços públicos.

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“É fundamental considerar aspectos como gênero, renda e local de moradia ao pensar em políticas para idosos. Existem muitas ‘velhices’ no Brasil. Por exemplo, a expectativa de vida de uma pessoa que mora numa região nobre em São Paulo é maior do que a de uma moradora da periferia ou da favela. Há diferenças de expectativas de vida de quase 15 anos”, explica.

As diferenças regionais e socioeconômicas também podem influenciar a forma como essa população participa da vida pública e acessa serviços. Por isso, além de considerar o crescimento do eleitorado 60+, a discussão sobre políticas para essa parcela da população precisa levar em conta fatores como renda, escolaridade, gênero, raça, condições de saúde, acesso à tecnologia e local de moradia. 

A presença dos eleitores mais velhos no cadastro eleitoral também aumentou. Segundo dados do TSE, o número de idosos com o título de eleitor ativo cresceu aproximadamente 74% desde 2010. O dado, no entanto, representa o crescimento do eleitorado com título ativo e não necessariamente significa que esta população esteja comparecendo, de fato, às urnas.

Na avaliação de Cléa, o crescimento desse grupo faz com que sua participação possa ter peso relevante nos resultados eleitorais. A especialista afirma que a campanha “Voto 70+”, criada para estimular a participação desse eleitorado, surgiu a partir da percepção de que parte dos idosos não se sente representada pelos candidatos e acaba deixando de votar. 

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“A participação dessa faixa etária é fundamental para uma sociedade mais inclusiva, justa e participativa. A geração 70+ pode fazer a diferença para o resultado dessa eleição”, observa.

Longevidade transforma trabalho, cidades e consumo

O envelhecimento do eleitorado, porém, é apenas uma das manifestações de uma transformação demográfica que alcança diferentes áreas da sociedade. Entre os impactos mais notáveis do avanço da longevidade no País, está o envelhecimento da força de trabalho, à medida que as pessoas tendem a permanecer por mais tempo vinculadas a empregos formais, ao empreendedorismo ou à geração de renda.

O fenômeno também traz desafios relacionados à acessibilidade, especialmente nas grandes cidades, conforme aponta Marcos Eduardo Ferreira, especialista em longevidade e mercado secundário.

“Há um desafio brutal de adaptação das cidades e de seu entorno, dado que a relação de um habitante maduro com a comunidade e com a cidade é um pouco diferente da de um jovem”, explica. 

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“Do ponto de vista da saúde pública, há um desafio enorme de adaptação do SUS, à medida que se inverte a lógica de quem vai demandar os serviços. De maneira geral, portanto, o fenômeno terá impactos no setor privado, no setor público, nas relações de consumo, na força de trabalho e na preparação das cidades para esse processo de envelhecimento da população brasileira”, conclui.

Outro impacto importante está no setor econômico. A chamada economia prateada, formada pelo consumo da população madura, já movimenta cerca de R$ 1,8 trilhão no Brasil, segundo pesquisa da data8. De acordo com o mesmo levantamento, a projeção é de que esse valor chegue a R$ 3,8 trilhões em 2044, de modo a representar 35% do consumo privado dos domicílios brasileiros.

Para o especialista, setores como saúde, turismo, bem-estar e serviços financeiros devem estar entre os mais beneficiados com a mudança do perfil demográfico. Ao mesmo tempo, o envelhecimento da população exigirá a formação de uma mão de obra capaz de atender às novas demandas e a adaptação de empresas e serviços a um público que tende a permanecer economicamente ativo por mais tempo.

“Estamos vivendo uma verdadeira revolução da longevidade. A população madura já é protagonista de alguns setores econômicos. Se olharmos, por exemplo, para o mercado financeiro, são grandes detentores de investimentos e consumidores de previdência privada, saúde e seguros”, afirma.

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O avanço da longevidade, portanto, não se limita aos efeitos sobre saúde, previdência ou mercado de trabalho. À medida que a população mais velha ganha espaço na sociedade e no eleitorado, suas demandas passam a ser ainda mais determinantes na formulação de políticas públicas e nas decisões de candidatos e partidos.

Para Marcos Eduardo Ferreira, o crescimento desse grupo deveria estar no radar de candidatos e partidos nas próximas eleições. “Primeiro, pelo poder econômico, pela presença e pelo poder de pressão que essa população pode exercer. Segundo, porque essa participação só tende a aumentar”, comenta.

De acordo com o especialista, a discussão não deve se restringir apenas aos cidadãos com 60 anos. A população com 55 anos ou mais também deve ser considerada, uma vez que chegará à faixa dos 60+ em um curto período. “A política e os planos de governo precisam preparar as cidades para o futuro”, diz.

Nesse cenário, o envelhecimento populacional deixa de ser apenas uma questão demográfica e passa a representar um tópico central na política brasileira. Com a expansão do eleitorado 60+ e a perspectiva de continuidade desse processo, candidatos e partidos terão de considerar não apenas demandas tradicionalmente associadas a idosos, como saúde e previdência, mas também questões relacionadas a trabalho, mobilidade, moradia, inclusão digital, consumo e combate ao etarismo.

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“Portanto, todo esse desafio de adaptação das cidades e de criação de políticas públicas deveria estar no radar dos políticos e dos líderes partidários, que terão poder e capacidade de influência no Executivo e no Legislativo”, conclui.

Fonte: Portal Terra
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