Cancelamento de debate expõe falência de modelo e privação de informações ao eleitorado, avaliam especialistas

Decisões judiciais levaram a TV Globo a optar pelo cancelamento do debate entre presidenciáveis na quinta-feira, 1º

2 out 2026 - 09h57
Globo cancelou debate presidencial na noite desta quinta-feira, 1º
Globo cancelou debate presidencial na noite desta quinta-feira, 1º
Foto: Manoella Mello/Globo

O cancelamento do debate da TV Globo entre os candidatos à Presidência, que seria realizado na noite de quinta-feira, 1º, deixa um recado claro de privação de informações ao eleitorado, desgaste do espaço democrático e falência do modelo tradicional de confronto político, avaliam especialistas ouvidos pelo Terra.  

Motivada por um cenário de 'insegurança jurídica' e 'interferência indevida na liberdade', a emissora optou por não realizar o que seria o último debate entre os presidenciáveis antes das eleições, que ocorre no domingo, 4. O cientista político Sérgio Praça, professor visitante da Unifal-MG, avalia que a ausência do evento impede que os líderes nas pesquisas prestem contas sobre políticas públicas e polêmicas. 

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"O eleitor fica com menos informações, sem saber como os dois principais candidatos, Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), argumentariam um com o outro. O Lula deixa de ser questionado sobre o fracasso de suas políticas públicas, sobre o envolvimento do filho em corrupção. O Flávio não é questionado por tantos escândalos em que também está envolvido", destaca. 

"Pesa o fato de o Brasil --e muito por causa do Poder Judiciário, TSE e STF, Kassio Nunes Marques e Gilmar Mendes, pessoas diretamente responsáveis por esse quadro-- não conseguir organizar um debate, não conseguir ter estabilidade jurídica para tal", acrescenta Praça. 

Globo cita ‘insegurança jurídica’, ‘interferência indevida’ e cancela debate com presidenciáveis
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Adriana Buarque, coordenadora do Esfera Lab, laboratório de pesquisa em Comunicação Política e Pública da ESPM, entende que o debate, mesmo quando permeado por acusações e polarização, cumpre uma função pedagógica e institucional indispensável. 

"Uma questão muito sensível para as campanhas é o eleitor não ter esse momento de debate, de entender as propostas. Mesmo que a gente saiba que tenha muita fake news, mentiras e acusações, ainda assim é saudável, faz parte da democracia entender o que os candidatos estão falando. Isso é muito ruim para o indeciso. O eleitor perdeu um pouquinho esse espaço democrático de direito."

Outro recado ao eleitor é o esgotamento do formato atual de debate na televisão: Praça aponta que o modelo engessado favorece o confronto estéril e que a decisão da emissora de cancelar o evento passa uma mensagem de desvalorização da própria eleição. 

"O fato de a Globo ter cancelado é extremamente significativo. Acaba como uma admissão de que não quer debate, só quer se os mais bem colocados nas pesquisas estiverem. Se um foi convidado e não quer ir, tudo bem, mas há outros aí que, para bem ou para o mal, têm, juntos, 10% dos votos. Não são 10 votos cada um, é uma parcela bastante significativa", avalia Praça. 

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O cientista político também analisa a percepção pública sobre a decisão dos candidatos sobre participação ou ausência no debate, especialmente nos casos de Lula e Flávio Bolsonaro. Sob a ótica do eleitor, Praça entende que o caos que se instaurou após o cancelamento do evento pode ter beneficiado o petista. 

"O cenário era o Lula não participar, e o Flávio sim, o que eu acho que seria uma derrota e tanto para o Lula. Não acho que o debate seria de ótima qualidade, mas fica a questão do púlpito vazio. Mas, da maneira que ficou, e com o Lula participando de entrevista, ele deve estar surpreso e feliz, porque tudo indicava que não seria uma boa noite para ele."

Fonte: Portal Terra
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