Faltam pouco mais de 60 dias para definir o futuro político do Brasil. Enquanto ainda há especulações de quem pode sair vencedor como presidente ou governador, o País vive um momento muito delicado: a era das apostas online. Nesse meio, também está o “mercado de predições”, uma espécie de bolsa de apostas sobre eventos futuros, que tem crescido exponencialmente no mundo todo. Com isso, surge um novo alerta: essas plataformas informais podem impactar o comportamento do eleitor ou até virar uma ferramenta de manipulação psicológica? Conforme especialistas ouvidos pelo Terra, a resposta é sim.
Receba as principais notícias direto no WhatsApp! Inscreva-se no canal do Terra
Esse mercado se tornou um desafio, não só para o público, mas também para as autoridades brasileiras, já que pode ser encarado como influência das próprias bets, que se tornou um problema de saúde pública, pelo fácil acesso e promessa de dinheiro fácil. Levando milhares de pessoas ao vício e, algumas delas, até a morte.
Numa tentativa de estancar este mal, em abril, o governo bloqueou 27 plataformas que faziam previsões. Entre elas, estão as americanas Kalshi e Polymarket, e a brasileira, Prévias. Para ficar claro, essas “bolsas de predição” até lembram uma bolsa de valores, mas ao invés de ações em empresas, os participantes negociam previsões. Elas funcionam como plataformas em que os usuários apostam dinheiro com base na probabilidade do desfecho de eventos futuros, como eleições, mudanças climáticas, economia e resultados de jogos esportivos.
Em uma breve pesquisa, nas plataformas americanas, a reportagem encontrou uma porção de previsões acerca dos resultados das eleições brasileiras, com um volume de apostas milionário.
Para Marcelo Di Giuseppe, cientista social e político, e sócio proprietário do Instituto de Planejamento Estratégico IBESPE, o mercado de predição pode influenciar a percepção do eleitor ao divulgar, em tempo real, quem o mercado considera favorito para vencer a eleição, especialmente aqueles eleitores indecisos.
“O próprio IBESPE verificou que a pesquisa de expectativa de vitória apresentou histórico de acerto ligeiramente superior ao voto estimulado (83% contra 80%), indicando que a percepção sobre quem deve vencer pode influenciar o comportamento eleitoral. Esse efeito, entretanto, tende a ocorrer mais pelo chamado ‘voto útil’ do que pelo chamado ‘efeito vencedor’”, aponta.
Ele explica que aqueles que planejam votar em algum candidato com poucas chances de vitória, conforme as apostas, podem migrar para o segundo colocado para evitar a vitória do candidato que mais rejeitam. “Historicamente, esse movimento costuma ser mais intenso do que a decisão de votar simplesmente em quem aparece como favorito.”
O advogado especialista em direito eleitoral Alberto Rollo concorda que esse mercado pode influenciar. “Pode ser que esse eleitor fique impressionado com o número de apostas para o candidato que for vencedor naquele momento.”
Por outro lado, conforme avalia Di Giuseppe, para que plataformas como Kalshi e Polymarket exerçam influência significativa sobre o eleitorado, seria necessário que seus resultados fossem amplamente divulgados pela grande mídia, conferindo maior credibilidade e alcance às informações. Como são mais restritas às redes sociais, o potencial de influência tende a ser menor.
“Pesquisas do IBESPE mostram que 72% dos eleitores possuem redes sociais, mas apenas 46% deles demonstram algum interesse por política, o que representa cerca de 33% do eleitorado brasileiro. Além disso, aproximadamente 85% desse interesse está concentrado em temas da política municipal, reduzindo ainda mais o alcance potencial dessas plataformas sobre a decisão de voto na eleição presidencial”, pontua.
Para além da influência, qual outro risco?
Um dos principais riscos mencionados por Di Giuseppe é que essas plataformas passem a ser percebidas pela população como equivalente à pesquisas eleitorais, que tem método e base científica, e claro, o instituto que a faz precisa estar regulamentado, como prevê a lei. Na avaliação do especialista, isso não ocorre atualmente.
Como elas não utilizam metodologia científica nem amostragem representativa da população, os resultados refletem apenas as negociações realizadas entre os participantes do mercado, podendo ser influenciados pela atuação de poucos investidores ou por mudanças na dinâmica das apostas. “Por isso, não são utilizadas pelas campanhas como instrumento técnico para tomada de decisão”, exemplifica.
“Na prática, essas plataformas acabam sendo exploradas mais como argumento de comunicação por apoiadores ou adversários do que como ferramenta estratégica. Até o momento, não há evidências de que tenham influência relevante sobre o comportamento do eleitorado brasileiro. Portanto, entendo que o risco de produzirem impacto efetivo na eleição é bastante limitado, tanto internamente nas campanhas quanto externamente junto aos eleitores”, complementa.
“Outro ponto é a falta de transparência, pois, ao contrário dos institutos de pesquisa --que são empresas formais, auditáveis e reguladas--, essas plataformas operam à margem da lei, sem garantias de integridade”, afirma ao se mostrar a favor das proibição de bets e dos mercados de apostas eleitorais. “É um modelo que não traz benefício social, destrói a saúde financeira das famílias e contamina a democracia”, complementa.
Do ponto de vista de Di Giuseppe, esse mercado traz a possibilidade concreta de vulnerabilidade à manipulação, diferente das pesquisas eleitorais, justamente por operar frequentemente via criptomoedas. Isso faz com que essas ferramentas virarem terreno fértil para o crime organizado ou para grupos de interesse injetarem capital, inflando artificialmente as chances de um candidato para induzir o eleitor ao erro.
Existe um jeito de punir?
Rollo explica, que do ponto de vista da Justiça Eleitoral, esses mercados de predição sofreriam alguma punição se a empresa tiver sede no Brasil. Nesse caso, uma multa poderia ser aplicada e a plataforma seria tirada do ar. No caso das bets, várias delas são relulamentas pelo Banco Central, portanto, não é considerada ilegal, a menos que eventos como a eleição entrem no páreo.
Mas e se, em um cenário hipotético, em que um candidato ou um eleitor divulga o resultado dessas casas de predição como um apontamento para dizer que ele é a melhor escolha para o País, há alguma lei eleitoral específica? Rollo aponta que não, mas há outras formas de punição.
No caso do eleitor, a Justiça Eleitoral tem condição de entender que isso é uma fake news, é uma desinformação, e mandar retirar do ar e aplicar multa. No caso do candidato é diferente. “Poderia configurar o abuso dos meios de comunicação social, se isso for nas redes sociais, e dependendo do volume, abuso de poder econômico, se tiver impulsionamento, por exemplo”, argumenta.
“Mas eu duvido que algum candidato vá usar esse tipo de informação na sua própria página. É mais fácil a gente pensar em alguém mandado para fazer, ou usado para fazer isso”, complementa.
E as campanhas, podem ser financiadas por esse tipo de empresa?
A resposta é não. As campanhas eleitorais no Brasil só podem ser financiadas por dinheiro oriundo de pessoas físicas. Se as bets ou qualquer empresa de predição entraram na parada, é ilegal. Questionado se isso poderia ocorrer, por exemplo, por vias não declaradas. Rollo salienta que configura o chamado “caixa 2 de campanha”.
“Agora, não é só das bets, qualquer lobby de qualquer setor da economia, por exemplo, acaba fazendo isso. Vamos exagerar no exemplo, até do PCC, do Comando Vermelho, não para o presidente da República, mas para governador ou para deputado, que é o que a gente vê no Rio de Janeiro. Ah, mas será que o CV vai financiar cinco deputados no Rio de Janeiro? Eu acredito que sim, aqueles que têm interesse em defender a criminalidade, ou defender menos rigor da polícia”, exemplifica.
O especialista finaliza dizendo que a Justiça Eleitoral tem que garantir a informação, mas que o eleitor também deve se interessar por saber se há algo ilegal com relação às apostas. “O eleitor tem que ficar esperto para não ser enganado. A história da fake news. O eleitor é o maior interessado em ter a informação correta.”