A disputa pela Presidência na eleição de 2026 chegou ao segundo turno com Flávio Bolsonaro (PL) à frente de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas nenhum dos dois conseguiu ultrapassar a marca de 50% dos votos válidos necessária para encerrar a eleição já na primeira etapa. Flávio terminou com 47,03%, contra 45,16% de Lula, e os dois voltam a se enfrentar nas urnas em 25 de outubro.
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Para especialistas ouvidos pelo Terra, o resultado expôs limitações diferentes nas estratégias das duas campanhas. Enquanto Lula teria falhado principalmente em comunicar os resultados do próprio governo e em reconhecer a insatisfação de parte do eleitorado, Flávio conseguiu mobilizar o voto contrário ao petista, mas encontrou dificuldades para apresentar um projeto capaz de ampliar sua base para além do bolsonarismo.
O cientista político Doacir Quadros, professor de Ciência Política da Uninter, considera que o segundo turno já era um cenário esperado diante da competitividade da eleição. "Eu entendo que tanto a campanha do Lula quanto de Flávio conseguiram atingir o máximo possível de eleitores que poderiam nesse primeiro turno", afirmou. Segundo ele, a próxima etapa será marcada pela disputa pelos eleitores que não compareceram às urnas, além da tentativa de atrair os votos dos candidatos que ficaram pelo caminho.
1. Lula subestimou a rejeição ao governo
Na avaliação de Rogério Baptistini, cientista político e professor de Sociologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM), o principal problema da campanha petista foi uma leitura equivocada do cenário eleitoral. O governo teria apostado na percepção positiva de indicadores econômicos e sociais sem considerar suficientemente que parte do eleitorado estava insatisfeita com questões concretas do cotidiano.
"Eu creio que o principal erro da campanha de Lula foi de avaliação. Os petistas acreditaram na vitória e negligenciaram a rejeição ao governo, apontada por todos os institutos. Pessoas descontentes com os juros, com o endividamento e com o preço dos alimentos não se comovem com índices estatísticos que apresentam o bom desempenho do PIB e o crescimento dos empregos, por exemplo", disse Baptistini.
A leitura é próxima da feita por Quadros. Para o professor, a dificuldade de Lula esteve justamente na diferença entre o discurso oficial sobre a situação econômica e a experiência de parte da população com preços e endividamento. "O que nós acompanhamos no âmbito econômico, aumento de preços e endividamento da população, isso de certa forma contradiz a realidade do seu discurso", avaliou.
2. Governo não conseguiu transformar resultados em mensagem eleitoral
O problema, segundo Baptistini, não ficou restrito à campanha. O governo teria passado boa parte do mandato sem construir uma comunicação capaz de traduzir seus resultados para a vida cotidiana do eleitor.
"O governo operou, ao longo do mandato, com duas cabeças: uma delas voltada à responsabilidade perante o mercado e outra à expansão das políticas sociais. Ao não definir com clareza como conciliaria as duas dimensões, perdeu a capacidade de comunicar os seus próprios resultados", analisou. A consequência foi que indicadores como crescimento, emprego e inflação não conseguiram se sobrepor às percepções formadas em torno de juros e supermercado.
"A campanha do PT tentou corrigir isso muito tarde, na reta final, com anúncios de governo convertidos em pautas eleitorais, aumentando o Bolsa Família e extinguindo as bets, entre outras iniciativas, mas isso foi correr atrás do tempo perdido", disse Baptistini.
Adriane Buarque, coordenadora do Esfera Lab, laboratório de Comunicação Política da ESPM, também avalia que Lula tinha mais material para explorar durante a campanha. Para ela, faltou apresentar de maneira mais clara o que havia sido feito durante o mandato e, principalmente, o que seria feito em uma eventual nova gestão.
3. Medidas de última hora tiveram pouco tempo para produzir efeito
A tentativa de transformar políticas públicas em bandeiras eleitorais também é apontada pelos especialistas como uma limitação. O aumento do Bolsa Família e a medida provisória que proibiu as bets foram anunciados já na reta final da disputa. Para Baptistini, o calendário reduziu a possibilidade de que essas medidas fossem percebidas concretamente pelo eleitor.
"Elas chegaram tarde. O reajuste do Bolsa Família, elevando o piso de R$ 600 para R$ 691, foi anunciado a 17 dias do primeiro turno. E a MP que proíbe as bets, a nove dias. E há um problema adicional, pois os novos valores do Bolsa Família começam a ser pagos em 19 de outubro, pouco antes da realização do segundo turno eleitoral. Anunciou-se o efeito, mas o eleitor não o experimentou no bolso", explicou.
Além do efeito limitado pelo curto prazo, Quadros avalia que a adoção de medidas durante a campanha pode ter provocado uma reação negativa entre os eleitores. “A ampliação de benefícios durante a eleição pode ter produzido um efeito contrário, porque o eleitor está mais crítico e atento e cansado de governos e políticos que adotam medidas para conquistar votos. Essas medidas não estão sendo eficientes para angariar votos para os governantes", apontou.
No caso das bets, Baptistini vê potencial de alcance maior, por atingir famílias endividadas de diferentes faixas de renda. A avaliação, porém, é que a medida acabou ganhando aparência de ação eleitoral justamente por ter sido apresentada perto da votação.
"Com a proibição das bets a situação foi diferente, pois a medida atinge famílias endividadas em todas as classes. Mas esse é um tema que deveria ter sido de governo, não de campanha. E veio tarde. Antes, talvez, teria cobrado um preço ao bolsonarismo, historicamente associado ao setor. Deixada para a reta final, virou pauta eleitoral e, como tal, foi vista com desconfiança por parte do eleitorado", afirmou.
Adriane também considera que medidas como a proibição das bets e o aumento do Bolsa Família podem ter sido interpretadas como iniciativas voltadas à conquista de votos. Para ela, o eleitor precisava receber uma mensagem mais ampla sobre projeto de governo. "O eleitor pode ter visto isso exatamente como uma base eleitoreira para coletar voto".
4. Campanha de Lula ficou distante das ruas e das redes
Outra crítica dirigida à campanha petista foi a falta de maior movimentação fora da estrutura institucional do governo. Adriane classifica a campanha como "mais morna" e afirma que Lula poderia ter apostado mais em redes sociais, viagens e atividades de rua.
"Foi uma campanha que tinha que ter sacudido mais nas redes sociais, como a direita faz, uma campanha que tinha que ir pra rua. Nos interiores quase não tinha movimento da campanha na rua. Então, faltou ele fazer essa visita nos interiores, como sempre fez em outras campanhas."
5. Flávio apostou demais no voto anti-Lula
Do outro lado da disputa, a principal fragilidade apontada por Baptistini foi praticamente oposta à de Lula. Enquanto o petista teria confiado demais na avaliação positiva de seu governo, Flávio teria apostado que a rejeição ao adversário seria suficiente para levá-lo à vitória em um 1º turno.
"Já Flávio Bolsonaro cometeu o erro inverso e complementar, ou seja: confiou em que a rejeição ao governo bastaria", afirmou.
Para o cientista político, a campanha do senador foi construída essencialmente em torno da oposição ao presidente, sem apresentar um programa capaz de convencer eleitores que não se identificam integralmente com o bolsonarismo.
"Sua campanha é basicamente anti-Lula e não propositiva. É a típica campanha de extrema direita, que mobiliza ressentidos de todos os espectros. Para o segundo turno isso pode não ser suficiente. Para governar, certamente, não é", analisou.
Adriane faz uma ressalva: para ela, a estratégia de Flávio funcionou em parte durante o primeiro turno. O candidato teria conseguido atrair eleitores que inicialmente estavam divididos entre nomes como Zema, Ronaldo Caiado e Augusto Cury, em um movimento de voto útil. O problema, na avaliação dela, foi que essa migração não foi acompanhada por uma apresentação consistente de propostas. "Eu acho que o erro de campanha foi que não teve projeto", complementou.
6. Falta de um projeto dificultou a expansão de Flávio
A ausência de propostas também aparece na avaliação de Baptistini, mas com uma dimensão adicional: a dificuldade de Flávio em conquistar setores da sociedade que não se identificam com o núcleo mais ideológico da direita.
"Flávio não ampliou ainda mais a sua votação porque esbarrou em três limites que me parecem decisivos. São eles, a dependência de um capital político que não lhe pertence (na verdade, como expliquei, ele surfa na onda do antilulismo); depois, falta-lhe um projeto de país (tudo o que a extrema direita apresenta, desde que surgiu com força no cenário brasileiro, é um discurso ultraliberal na economia, antiestatista, e isso é pouco); e, por fim, e isso é importante, ele não dialoga com amplos setores da sociedade, sobretudo com as mulheres, os eleitores urbanos de renda média mais intelectualizados e os religiosos moderados", explicou.
A análise de Adriane vai na mesma direção ao apontar que, durante a campanha, não teria ficado claro o que Flávio faria em áreas como economia, saúde, educação e emprego. "Em nenhum momento ficou claro durante a campanha o que que realmente ele vai fazer", afirmou. Para ela, essa ausência pode ter deixado parte do eleitorado em dúvida sobre qual projeto estava sendo apresentado.
7. Flávio não conseguiu falar com setores além da base bolsonarista
A dificuldade de ampliar a coalizão eleitoral é, portanto, outro ponto central para o segundo turno. Baptistini avalia que existe um eleitorado de centro-direita que combina liberalismo econômico e conservadorismo nos costumes, mas que não necessariamente se identifica com uma retórica política mais radical.
Esse grupo, segundo ele, representa uma fronteira que Flávio não conseguiu ultrapassar no primeiro turno. O especialista cita especialmente mulheres, eleitores urbanos de renda média e religiosos moderados como segmentos nos quais a campanha teria encontrado dificuldades.
"Flávio largou na frente no primeiro turno. Pode até vencer a eleição. Mas é o tipo de líder que não conduz nem conduzirá a sociedade brasileira", disse Baptistini.
Adriane acrescenta outro aspecto: a dificuldade de dialogar com trabalhadores e eleitores de menor renda. Na avaliação dela, a percepção de que Flávio governaria prioritariamente para uma parcela mais rica da sociedade pode limitar a expansão de sua votação. Ela cita ainda o debate sobre a escala de trabalho 6 por 1 como exemplo de uma pauta que poderia afetar essa parcela do eleitorado.
O desafio comum para o 2º turno: transformar eleitor em voto
Apesar das diferenças entre as campanhas, os três especialistas convergem em um ponto: o segundo turno exigirá uma estratégia para além dos eleitores que já estão mobilizados por Lula ou Flávio. A abstenção foi de 21,08% no primeiro turno, segundo o Tribunal Superior Eleitoral. Para Quadros, esse contingente será uma das principais frentes de disputa daqui até 25 de outubro.
"Agora o passo seguinte no segundo turno será de conquistar esse eleitorado que se absteve no primeiro turno", argumentou. Ele destaca que esse grupo inclui, em maior proporção, eleitores com mais de 70 anos, pessoas com baixa escolaridade e moradores de áreas remotas.
Baptistini, porém, pondera que a abstenção não será necessariamente resolvida com novas promessas. Para ele, parte desse eleitorado expressa uma desafeição mais profunda em relação à política.
"As abstenções foram significativas no primeiro turno e, somadas aos brancos e nulos, chegam a cerca de um quarto do eleitorado. Não creio, porém, que seja possível atrair esse contingente com mais promessas. A abstenção não deixa de ser uma forma de posicionamento político."
Na avaliação do especialista, Lula parte de uma situação particularmente delicada por ser o atual presidente, enquanto Flávio precisa evitar que sua base de mobilização fique restrita ao eleitorado que já está alinhado ao bolsonarismo.
"Para Lula, o desafio é maior, porque ele é aquele que ocupa o cargo, o incumbente. Quem se absteve, em parte, absteve-se dele. Para Flávio, o abstencionista é um eleitor a desmobilizar permanentemente. A sua campanha já opera com um teto de mobilização, e o segundo turno será decidido menos pela conversão do eleitorado do adversário e mais pela capacidade de quem conseguir transformar desafeição em comparecimento", analisou.
Além dos abstencionistas, os dois candidatos precisarão disputar os votos de quem escolheu os demais nomes no primeiro turno. Quadros aponta a necessidade de construir pontes com os candidatos derrotados e seus eleitores.
Com apenas três semanas até a nova votação, a principal mudança, segundo Adriane, deverá estar na capacidade de apresentar propostas concretas para o próximo mandato. "Terá que vir uma campanha aí com mais conteúdo, com projeto, mostrando o que o governo trouxe, ou o que o governo pensa para o futuro", afirmou.