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Nota ruim do Brasil no Pisa desmente avanço medido pelo MEC? Uma hipótese otimista e outra incômoda

Avaliação internacional traz País estagnado há uma década em Matemática, Leitura e Ciência, resultado distinto do que se viu no Ideb. Diferenças merecem análise cuidadosa

8 set 2026 - 12h11
Resumo
Embora o Ideb e o Saeb 2025 indiquem recordes históricos e recuperação pós-pandemia, o Pisa 2025 revela uma década de estagnação na educação brasileira. Essa divergência metodológica reflete diferenças entre as avaliações: o Saeb foca no currículo e capta melhor avanços na base de baixo rendimento, enquanto o Pisa mede competências complexas e aplicação prática. O cenário sugere cautela, apontando que melhorias nos índices nacionais podem não significar uma evolução real no aprendizado amplo.

Os resultados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) e do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) 2025, divulgados em agosto pelo Ministério da Educação (MEC), trouxeram uma notícia que o Brasil esperava desde a pandemia: a educação brasileira não apenas teria recuperado as perdas provocadas pelo fechamento das escolas, como alcançado os melhores resultados da série histórica do Ideb.

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Entre 2023 e 2025, o índice avançou de 6,0 para 6,3 nos anos iniciais do ensino fundamental, de 5,0 para 5,3 nos anos finais e de 4,3 para 4,5 no ensino médio. Também houve crescimento nas proficiências do Saeb, ainda que pequenas para os anos finais do fundamental e para o médio.

Um mês depois, o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) 2025 apresenta um retrato menos positivo. Aos 15 anos, os estudantes brasileiros obtiveram 408 pontos em Leitura, 377 em Matemática e 409 em Ciências. Na comparação com 2022, praticamente nada mudou.

Mais importante: segundo a OCDE, os resultados brasileiros permanecem próximos dos observados desde 2015 nas três áreas. Ou seja, enquanto Saeb e Ideb sugerem avanço e recuperação, a principal avaliação internacional de estudantes mostra uma década de estagnação.

A aparente contradição merece atenção, mas não comporta explicação simples. Saeb e Pisa medem construtos diferentes e têm instrumentos diferentes. Minha tese de doutorado, que analisou conjuntamente Saeb, Pisa, e outras duas avaliações internacionais (Pirls e Timss), mostrou justamente que comparar médias sem considerar o desenho das avaliações pode levar a conclusões equivocadas.

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O Saeb está mais fortemente associado ao currículo brasileiro, costuma ter textos e itens mais simples e seus resultados afetam políticas de incentivo de muitas redes e escolas.

O Pisa, por outro lado, não tem incentivos atrelados a seus resultados e procura medir se o aluno consegue extrapolar o conhecimento adquirido, integrar ideias e resolver problemas em situações pouco familiares. Há, porém, outra diferença menos discutida e especialmente importante: a capacidade de discriminar estudantes de muito baixo desempenho.

O Brasil tem proporção excepcionalmente grande de jovens nas regiões inferiores das escalas das avaliações internacionais. Em situações assim, uma prova composta majoritariamente por itens que já são difíceis demais para esses estudantes pode perder capacidade de distinguir adequadamente diferentes graus de baixa aprendizagem.

Dois alunos podem ter conhecimentos bastante distintos, mas ambos acertarem pouquíssimos itens. Estatisticamente, a informação do teste torna-se menor naquela região da escala e parte das diferenças reais entre eles fica comprimida.

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Isso ajuda a compreender um achado que já chamava atenção na edição anterior. A queda brasileira no Pisa entre 2018 e 2022 foi menor do que a identificada pelo Saeb de 2019 a 2021. Na avaliação do 2º ano do Saeb, por exemplo, a parcela abaixo do nível 1 em Língua Portuguesa saltou de 8,8% para 23,6%.

Já no Pisa, a rede pública brasileira permaneceu praticamente estável entre 2018 e 2022: +1 ponto em leitura, +1 em ciências e -1 em matemática. As quedas apareceram de maneira mais clara na rede privada, cujos estudantes estavam mais de 100 pontos acima dos da rede pública e, portanto, em uma região da escala na qual o teste consegue diferenciá-los melhor.

A conclusão não é de que o Pisa seja uma avaliação pior. Pelo contrário. Seu desenho é mais rico que o do Saeb. Ele exige competências de interpretação, raciocínio e aplicação do conhecimento que ainda aparecem de forma limitada na avaliação brasileira.

Mas uma avaliação pode ser mais exigente cognitivamente e menos informativa na extremidade inferior da escala. É por isso que o Pisa 2025 torna a interpretação do Saeb 2025 particularmente interessante. Se o Saeb mostra recuperação e avanço e o Pisa, estabilidade, há pelo menos duas hipóteses a serem investigadas.

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A primeira é otimista: parte relevante da recuperação ocorreu justamente entre alunos de menor desempenho. Nesse caso, o Saeb, por ter mais itens com poder de discriminação nessa região da escala, pode captar um progresso que o Pisa tem dificuldade de identificar.

A segunda é mais incômoda: o Brasil pode estar avançando nas habilidades mais diretamente associadas ao Saeb sem ganhos equivalentes nas competências avaliadas internacionalmente. Essa hipótese é consistente com uma das principais conclusões da minha tese: diferenças de domínio, formatos de itens e incentivos criados pelo Ideb podem fazer com que progresso no indicador nacional não seja equivalente a progresso na aprendizagem em sentido mais amplo. Provavelmente há um pouco das duas coisas.

O próprio Pisa oferece uma pista positiva. O Brasil é destacado pela OCDE como o único entre determinados países analisados que manteve estabilidade nas três áreas desde 2015 ao mesmo tempo em que ampliou em quatro pontos percentuais a cobertura da população de 15 anos. Como a incorporação de estudantes mais vulneráveis tende a pressionar a média para baixo, a estabilidade tem mérito.

Ainda assim, é difícil conciliar a ideia de uma transformação da aprendizagem brasileira com uma década praticamente sem alteração no Pisa. E ainda mais difícil fazê-lo lembrando que os resultados recentes do Pirls e do Timss também mostraram enormes contingentes de estudantes brasileiros incapazes de atingir níveis elementares de aprendizagem.

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Nas avaliações de Matemática do Timss 2023 mais de 15% dos alunos brasileiros não acertaram com consistência nem as questões mais fáceis da prova. É razoável questionar se não há interpretação excessivamente otimista sobre os resultados do Ideb. O Brasil pode comemorar avanços no Ideb, mas deveria tratá-los como parte do diagnóstico, não como conclusão.

Depois de três décadas de avaliações em larga escala, o desafio brasileiro já não é simplesmente produzir mais indicadores. É saber se aquilo que chamamos de melhora no indicador corresponde, de fato, a uma melhora na capacidade dos estudantes de ler profundamente, raciocinar matematicamente, compreender ciência e utilizar o conhecimento diante de problemas novos. O Pisa 2025 sugere que essa pergunta continua em aberto.

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