A EE Parque dos Sonhos, escola estadual em Cubatão (SP) recebeu o prêmio de 'melhor escolha do mundo' da instituição global T4 Education, no quesito superação de adversidades. A escola, que possui histórico de vandalismo e violência não registra mais ocorrências há anos após a implementação de mudanças e novas atividades que transformaram a vida dos alunos.
Uma escola com salas de aula, corredores, quadra, carteiras, quadro negro, portões, professores e alunos. Parece uma escola qualquer, mas essa foi eleita a melhor escola do mundo. Mas o que a torna diferente?
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Para o diretor Régis Marques Ribeiro, de 43 anos, a resposta não está na estrutura física. “Eu falo que a gente não tem nada de diferente de outras escolas, porque vem as pessoas aqui visitar e olham e falam: ‘É só uma escola’”. Segundo ele, o que mudou foi a intencionalidade no trabalho e a decisão de transformar uma realidade marcada pela violência.
A EE Parque dos Sonhos, em Cubatão, no litoral de São Paulo, foi construída em 2013 e começou a funcionar em 2014. Quando Régis assumiu a direção, em 2016, encontrou um cenário crítico. “A escola era conhecida como ‘Parque dos Pesadelos’”. Ele relata episódios constantes de furtos, brigas e vandalismo. “Aqui a escola era furtada, era roubada, os alunos se agrediam, os professores entravam aqui e pediam para sair”, lembra.
No segundo dia de trabalho, levou um choque. “No dia 23 de janeiro tinham tacado cinco pedras na minha sala. Eu cheguei e encontrei as pedras no chão". Em outra ocasião, uma mãe entrou na escola com uma barra de ferro para agredir um aluno. “Eu no meio não sabia se chamava o Samu, se segurava a mãe que estava com a barra de ferro, o menino tendo convulsão.”
A virada de chave veio com uma mudança de visão sobre o que deveria ser feito para mudar aquela realidade. “Eu chego com toda uma ideia de não violência, de transformação social, de motivação". A proposta de Régis era que o local se tornasse em um ponto de paz, e não de violência, e a iniciativa envolveu professores, alunos e toda a comunidade no entorno.
Ações pequenas fizeram diferença
Em vez de um único projeto grandioso, vieram várias ações menores, que somadas tiveram um impacto real. “Não teve um projeto grande, falar assim: ‘Vamos fazer isso que vai mudar tudo’. E sim vários projetos pequenos que se tornaram grandes”, conta. A escola implantou oficinas, ampliou atividades culturais e esportivas e criou a Semana da Não-Violência, com rodas de conversa e debates.
Um dos projetos mais emblemáticos foi o “Escola Vai à Sua Casa”, em que professores visitam alunos com histórico de faltas ou indisciplina: “O nosso foco era mostrar como a escola era importante na vida dessa criança. Como a escola poderia mudar a vida dessa criança?”. A proposta também transforma o olhar dos educadores sobre alunos problemáticos em sala de aula. “O professor muda a forma de ver o aluno, porque ele anda por onde esse aluno anda, ele enxerga o que esse aluno enxerga."
A mudança refletiu nos números. A escola, que tinha 116 alunos em 2016, iniciou 2026 com cerca de 1.200, crescimento de mais de 1000%. Além disso, os registros de ocorrências praticamente desapareceram. “Hoje na escola, não registramos boletim de ocorrência já fazem três, quatro anos”, comemora.
O sentimento de pertencimento passou a fazer parte do cotidiano dos alunos, que agora zelam pelo ambiente. “A escola é sua, a escola é de vocês, a escola não é minha”, costuma dizer o diretor aos estudantes. Quando há danos ao patrimônio, por exemplo, a resposta é pedagógica: “Além de se desculpar, você repara o erro”. Assim, alunos que quebram carteiras ou picham paredes são totalmente responsáveis pelo conserto ou restauração.
Prêmio internacional e criação da rede
O reconhecimento internacional veio com o World’s Best School Prize, concedido pela T4 Education, uma plataforma global que une líderes da educação no mundo. Em setembro de 2025, a EE Parque dos Sonhos venceu na categoria Superação de Adversidades, justamente pelo enfrentamento da violência e pela construção de uma cultura de paz em uma região de vulnerabilidade social de Cubatão.
A premiação impulsionou a criação da Rede Escolas dos Sonhos, que começa em 2026 com um projeto-piloto em 105 unidades estaduais. “A nossa ideia é trabalhar em rede”, afirma Régis. As escolas participantes deverão estruturar planos de melhoria da convivência, com acompanhamento e metas.
O diretor também destaca a importância de apoiar outros gestores. “O cargo de diretor é um cargo muito solitário”, diz. “Estamos juntos, ninguém larga a mão de ninguém, vamos transformar a educação”, ressalta ele, que acredita que a rede surge como espaço de troca e fortalecimento.
Mais do que resultados em avaliações, o educador defende que o foco está no futuro dos alunos. “A educação também é igual plantar a tâmara. Quem planta a tâmara não come a tâmara.”
Hoje, o antigo “Parque dos Pesadelos” se consolidou como referência internacional. Uma escola que não é diferente das outras na estrutura, mas escolheu ser diferente na forma de acolher, escutar e transformar vidas por meio da educação.