O avanço acelerado da inteligência artificial já deixou de ser uma tendência distante para se tornar uma preocupação real entre trabalhadores brasileiros. Hoje, o receio de perder espaço no mercado acompanha profissionais de diferentes áreas, mas alguns correm ainda mais risco.
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Um levantamento do PageGroup mostra que três em cada quatro brasileiros acreditam que a IA pode substituir seus empregos. Ao todo, 76,6% dos entrevistados no país afirmam que a tecnologia deve impactar, ao menos parcialmente, suas funções. O índice é o mais alto entre os sete países latino-americanos analisados, à frente de Panamá, México, Peru, Colômbia, Chile e Argentina.
Quanto à parcela que não apresenta medo, a especialista em desenvolvimento humano e organizacional Dilze Percílio avalia que muitos sequer tomaram conhecimento do impacto. "Muitas vezes, eles alegam que houve redução, que não sabem porque saíram [...] Infelizmente, muitos profissionais ainda estão com uma cegueira do impacto da inteligência artificial no mercado de trabalho."
Para a outra parcela, o medo é fundamentado por dados. A Organização Internacional do Trabalho estima que cerca de 37 milhões de brasileiros atuam em ocupações com potencial de impacto direto da IA generativa. Ainda que apenas entre 2% e 5% dos empregos devam ser totalmente eliminados, a maior parte das funções tende a passar por mudanças significativas.
Para o especialista em desenvolvimento humano Jorge Matos, mestre em gestão de negócios pela FGV e CEO da Etalent, esse medo já aparece de forma clara no mercado de trabalho. "O medo é recorrente e crescente. Muitos profissionais já estão sendo impactados e temem a obsolescência ou a substituição por sistemas automatizados em processos seletivos e em funções onde a tecnologia já oferece soluções digitais, como editoração de texto, design e contabilidade, entre tantas outras."
Ele avalia que a preocupação não é exagerada. "O receio reflete uma mudança tanto na estrutura quanto no volume de trabalho. Tarefas repetitivas passíveis de automação seguramente já são, ou serão, impactadas. No entanto, ainda estamos longe de atingir um padrão de abundância tecnológica plena; enquanto isso não ocorrer, haverá espaço para a expansão do mercado."
A OIT corrobora com o entedimento do especialista. Segundo o organismo, as atividades com tarefas padronizadas e repetitivas são as mais expostas. Isso inclui funções administrativas, rotinas de atendimento e trabalhos operacionais que seguem regras bem definidas e facilmente seguidas por sistemas automatizados.
Na prática, alguns setores já sentem esse efeito com mais intensidade. De acordo com Matos, áreas ligadas à tecnologia, especialmente em tarefas mais básicas de programação, além de funções administrativas e de suporte ao cliente, estão entre as primeiras a passar por transformação. Ele também aponta impactos em atividades analíticas, como redação técnica e análise de dados simples.
A tendência, porém, é de avanço. "Esse cenário tende a se expandir rapidamente, alcançando outros campos como o setor jurídico, a saúde, a biotecnologia, a mídia, a contabilidade e as finanças", afirma.
No entanto, nem tudo está perdido. Segundo Dilze Percílio, "algumas pessoas estão perdendo seus postos de trabalho. Outras pessoas estão se posicionando melhor e se tornando mais importantes nas relações de trabalho".
Já Matos destaca que em cenários de instabilidade, a adaptação é diferencial. "Para prosperar nesse contexto, o profissional precisa se tornar fluente no uso da inteligência artificial, adotando-a como um agente pessoal ou parceiro estratégico no dia a dia".
Neste novo cenário, cada vez mais automatizado, a humanidade também se destaca. "Ao mesmo tempo, torna-se fundamental desenvolver inteligência emocional e criatividade, incorporando uma mentalidade de aprendizado contínuo e impacto ao longo da vida", afirma o especialista.