Diego Garcia: O custo geopolítico de se albergar uma base militar estadunidense

Autor, que nasceu na Ilha Maurício, explica que durante décadas as bases militares americanas carregaram a promessa de estabilidade. Mas, à luz dos conflitos atuais, com o Irã bombardeando bases nos países do Golfo, isso torna-se questionável

23 mar 2026 - 11h21

O meu país de origem, a Ilha Maurício, alberga uma base militar americana em parte do seu território, o Arquipélago dos Chagos, localizado no Oceano Índico. Foi a partir desta base que algumas operações militares contra o Afeganistão e o Iraque, no início dos anos 2000, foram lançadas. A base é operada desde o final dos anos 1960, em uma das ilhas do arquipélago: Diego Garcia.

Existe um conflito entre a Ilha Maurício e o Reino Unido quanto à soberania sobre o arquipélago. Durante o processo de descolonização, o Reino Unido desmembrou os Chagos do território mauriciano para arrendar a ilha de Diego Garcia aos Estados Unidos, com o objetivo de ali estabelecer uma base militar. O custo foi elevado: a população nativa, os chagossianos, foi deportada e, até hoje, não obteve plenamente o seu direito de reassentamento.

Publicidade

Esse desmembramento foi considerado ilegal em Direito Internacional. A Corte Internacional de Justiça assim o reconheceu em uma opinião consultiva de 2019. O posicionamento da Corte, embora não vinculante, exerceu pressão sobre o Reino Unido, que firmou, em 2025, um acordo com a Ilha Maurício pelo qual se reconhece a soberania mauriciana sobre os Chagos.

Acordo aguarda ratificação

O acordo prevê também que a ilha de Diego Garcia seja arrendada pela Ilha Maurício ao Reino Unido para que a base militar americana possa continuar as suas operações. A Ilha Maurício aceitou essa concessão, entendendo ter realizado um acordo vantajoso, já que receberá valores anuais elevados em contrapartida do arrendamento. O acordo foi assinado, mas ainda não ratificado. A guerra atual no Oriente Médio pode, inclusive, retardar esse processo.

Cresci com a ideia de que a presença de uma base militar americana na região constituía uma garantia de proteção permanente. No Oceano Índico, acreditava-se que a segurança era assegurada por esse "escudo" militar. Era estrategicamente preferível ter os Estados Unidos por perto. Tratava-se da promessa de um dispositivo de proteção avançada para Estados com capacidades militares limitadas diante de cenários de conflito ou de crises internacionais.

Hoje, contudo, o contexto internacional convida a uma reflexão mais crítica sobre essa promessa. Na atual guerra, cuja legalidade é objeto de contestação, contra o Irã, observa-se que países que acolhem bases militares americanas em seu território podem tornar-se alvos prioritários de ataques, mesmo quando não iniciaram a guerra, não participam diretamente das hostilidades e não desejam envolver-se nelas. Estados do Golfo, como Emirados Árabes Unidos, Qatar, Bahrein, Kuwait e Arábia Saudita, ilustram essa realidade: ao acolher infraestruturas militares americanas, passam a integrar a geografia estratégica de conflitos que não são os seus.

Alvo potencial de retaliação

Uma base militar ativa constitui, por definição, um objetivo estratégico em caso de conflito. Assim, o Estado que a acolhe passa a ser percebido como parte da infraestrutura da guerra. O país anfitrião transforma-se, desse modo, em alvo potencial de retaliação, independentemente da sua vontade política.

Publicidade

A promessa de proteção revela-se, portanto, paradoxal. Aquilo que é apresentado como um escudo pode, em determinadas circunstâncias, converter-se em fator de vulnerabilidade. Ao acolher bases militares estrangeiras, os Estados não apenas reforçam eventuais garantias de segurança, mas também internalizam os riscos estratégicos associados às guerras de terceiros.

Há, além disso, uma dimensão mais estrutural dessa realidade: a externalização do risco. Ao posicionar as suas bases fora do seu território, os Estados Unidos deslocam para países parceiros — como os Estados do Golfo — a exposição inicial a eventuais ataques. Esses países tornam-se uma linha avançada, ou mesmo um escudo, em dinâmicas de conflito que os ultrapassam.

No contexto da atual guerra envolvendo o Irã, esse risco torna-se particularmente visível: instalações e posições associadas à presença militar americana na região são percebidas como alvos potenciais em cenários de escalada. Ainda que os níveis de ataque e envolvimento variem, a simples presença dessas bases já é suficiente para colocar esses Estados na linha de mira. E percebe-se que os Estados Unidos não parecem demonstrar igual preocupação com esses aliados, atrás dos quais a sua presença militar se projeta.

Fim da promessa de estabilidade

Durante décadas, as bases militares americanas carregaram a promessa de estabilidade. Mas, à luz das transformações atuais, impõe-se uma questão fundamental: até que ponto a presença de uma base militar estrangeira protege realmente o território que a acolhe — e até que ponto o transforma em alvo?

Publicidade

A questão é eminentemente atual. Em 21 de março, o Irã lançou dois mísseis em direção à base militar de Diego Garcia. No estado atual das informações publicamente disponíveis, sabe-se que os mísseis iranianos têm um alcance aproximado de 2.000 km, ao passo que a distância mínima entre o Irã e Diego Garcia é de cerca de 4.000 km.

Em princípio, portanto, tais mísseis não poderiam atingir a base. De fato, um deles não alcançou o alvo, enquanto o outro foi interceptado pelos Estados Unidos. Ainda assim, o episódio revela que, apesar das limitações técnicas aparentes, o risco permanece, e a questão, longe de se dissipar, continua plenamente atual e inteira.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Nitish Monebhurrun não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
Curtiu? Fique por dentro das principais notícias através do nosso ZAP
Inscreva-se