Design restrito, a falha silenciosa de inovação nas startups brasileiras

Pesquisa realizadajunto a empreendedores de startups brasileiras procurou entender como elas inovam na prática e qual é, de fato, o papel do design nesse processo

3 fev 2026 - 12h37

O Brasil vive um boom de startups. Atualmente são 18 mil e cada ano surgem novas empresas prometendo soluções inovadoras para velhos problemas. Mesmo assim, metade das startups brasileiras não sobrevive. Um dos motivos menos discutidos para esse fracasso é o seguinte: muitas startups brasileiras buscam inovação, mas não sabem como fazê-lo de maneira sistemática.

Quando olhamos para empresas bem-sucedidas, como Apple e Google, muitos atribuem ao design parte do sucesso de suas inovações. São produtos inéditos e desejados pelo público. Mas quando se fala em design no ecossistema de startups, a associação mais comum é com aspectos visuais, identidade da marca ou interface de aplicativos.

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Esses elementos são importantes, mas representam apenas uma parte do que o design pode oferecer. Pesquisas em inovação e empreendedorismo mostram que o design também é uma ferramenta utilizada para reduzir incertezas, organizar decisões estratégicas e transformar ideias em soluções viáveis.

Esse ponto é especialmente relevante no Brasil. Startups brasileiras operam em um ambiente marcado por escassez de recursos, instabilidade econômica e mudanças constantes nas regras do jogo. Nessas condições inovar é imprescindível, mas errar custa caro. Decidir rápido, aprender com o usuário e ajustar o rumo é uma questão de sobrevivência. Especialmente se consideramos a importância do design para a criação de produtos e para percepção de marca.

Design apenas em nível operacional é um problema

Foi exatamente isso que investigou-se em uma pesquisa realizada entre 2021 e 2023 junto a empreendedores de startups brasileiras, especialistas em inovação e professores de design. Ao todo, foram mais de 40 entrevistas, analisadas de forma sistemática. O objetivo era entender como as startups inovam na prática e qual é, de fato, o papel do design nesse processo.

Descobriu-se que o design está presente em quase todas as startups, mas quase sempre restrito ao nível operacional. Ele aparece na criação de logotipos, interfaces, materiais de comunicação e, em alguns casos, na experiência do usuário. Raramente participa das decisões estratégicas ou da definição do próprio modelo de negócio.

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Isso é um problema porque inovar não é apenas ter uma boa ideia. Inovação acontece quando uma solução nova é implementada e aceita pelo mercado. Autores como Peter Drucker e Eric Ries mostram que inovar exige testar hipóteses, aprender rápido e lidar com a incerteza de forma estruturada. É justamente nesse ponto que o design pode contribuir por meio de metodologias de trabalho próprias da área.

A pesquisa identificou quatro formas principais pelas quais startups brasileiras buscam inovar. A primeira é a inovação viável, quando o foco está em resolver um problema que muitas pessoas têm, apostando que o mercado aceitará a solução. A segunda é a inovação factível, baseada nos recursos e competências já disponíveis na empresa. A terceira é a inovação criativa, mais intuitiva, baseada em insights e ideias não estruturadas.

A importância do 'design thinking'

A quarta abordagem é a que mais se aproxima do que a literatura chama de design thinking. Trata-se de um processo que combina imersão no problema, geração de ideias e testes rápidos com usuários. Diferente do que muitos pensam, design thinking não é uma tempestade de ideias informal. É um método estruturado para tomar decisões em ambientes incertos.

Entre as quatro abordagens, apenas o design thinking aparece em outros estudos associado diretamente ao aprendizado contínuo e até mesmo à redução de riscos. Mesmo assim, seu uso nas startups brasileiras ainda é superficial.

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Outro achado importante diz respeito aos designers. Eles são vistos pelos participantes da pesquisa como profissionais criativos e essenciais para inovação, mas raramente confiados a posições de liderança. Isso acontece também porque muitos cursos de design ainda não preparam seus alunos para empreender ou minimamente para entender a dinâmica dos negócios. O resultado é que o designer acaba atuando como executor, não como um gestor ou tomador de decisão.

Isso é um desperdício de potencial. Designers são treinados para resolver problemas complexos, equilibrando aspectos técnicos, econômicos e humanos. Essa habilidade é conhecida como criatividade orientada a objetivos: não se trata de criar por criar, mas de criar para resolver problemas reais.

Em startups, essa competência pode ajudar a alinhar tecnologia, necessidades do usuário e metas do negócio. Também pode apoiar a criação de produtos mais simples, testáveis e adaptáveis, algo essencial em mercados instáveis como o brasileiro.

Não falta criatividade: falta entendimento de design

O que essa pesquisa mostra, em resumo, é que o problema não é falta de criatividade nas startups brasileiras. O problema está relacionado à falta de entendimento do design como parte do processo de inovação. Enquanto o design for visto apenas como acabamento, muitas boas ideias continuarão morrendo antes de virar soluções sustentáveis.

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Fortalecer a inovação no Brasil passa por rever como formamos designers, como empreendedores tomam decisões e como o design é integrado às empresas. Não se trata de moda ou tendência. Trata-se de usar melhor uma ferramenta que já mostrou, na prática, que ajuda empresas a inovar com menos risco.

The Conversation
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Foto: The Conversation

Rodrigo Schoenacher foi pesquisador bolsista da Capes durante o período de 2019 a 2020 e atualmente atua como Diretor Senior de Operações na Conservation International Brasil, organização sem fins lucrativos dedicada a projetos ambientais.

Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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