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Depoimento de presidente da Anvisa à CPI 'não representa a realidade', diz Nise Yamaguchi

Segundo Barra Torres, uso da cloroquina e alteração de bula do medicamento foi defendida por médica

11 mai 2021 19h14
| atualizado às 20h13
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Uma das principais referências do governo Bolsonaro no uso do tratamento precoce da covid-19 com cloroquina, a médica Nise Yamaguchi negou, nesta terça-feira, 11, informações prestadas pelo diretor-presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres, em depoimento à CPI da Covid. Segundo ele, Nise defendeu a inclusão, na bula do medicamento, da indicação de uso da cloroquina contra o novo coronavírus. Por meio de nota, a oncologista disse que a declaração de Barra Torres "não representa a realidade".

Em seu depoimento, Barra Torres foi questionado por senadores sobre a intenção do governo de mudar a bula da cloroquina, de modo a indicar o medicamento como tratamento para covid-19. Ele confirmou a discussão e atribuiu a ideia a Nise.

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A médica Nise Yamaguchi, oncologista e imunologista
Foto: Reprodução/Facebook Nise Yamaguchi / Estadão

"Em relação à declaração do Presidente da Anvisa hoje à CPI da Covid-19, o Exmo. Dr. Almirante Barra Torres, esta não representa a realidade. Sou médica oncologista e imunologista, com 40 anos de experiência clínica. Assessorei cientificamente os últimos quatro Governos Federais, bem como o do Estado de São Paulo. Já existem evidências científicas comprovadas para o uso de medicações que possam auxiliar no combate às fases iniciais da covid-19 e, caso seja convocada, estarei à disposição da CPI para esclarecimentos", afirmou a médica.

O presidente da Anvisa também confirmou relato dado à CPI pelo ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Segundo ele, o assunto foi tema de uma reunião no Palácio do Planalto na qual havia, sobre a mesa, um papel não timbrado de decreto presidencial propondo a alteração da bula.

"Esse documento foi comentado pela dra. Nise Yamaguchi, o que provocou uma reação confesso que até deseducada ou deselegante minha. Minha reação foi muito imediata de dizer que aquilo não poderia ser. Talvez não seja de conhecimento de vossas excelências: só quem pode modificar uma bula de um medicamento registrado é a agência reguladora daquele país, mas desde que solicitado pelo detentor do registro", explicou.

"Então vamos trocar isso em miúdos. O laboratório X fabrica o remédio e descobre, através de estudos clínicos, que aquele remédio tem uma outra utilização (além da originalmente conhecida). Isso representa benefício para a sociedade e, obviamente, ganho de dinheiro para aquele laboratório. Então ele anexa um pesado dossiê de estudo clínico comprobatório de que aquela nova indicação é comprovada, da entrada na agência reguladora do país e solicita a alteração de bula. Então, quando houve uma proposta de uma pessoa física de fazer isso, isso me causou uma reação mais brusca, eu disse: 'Olha, isso não tem cabimento'", acrescentou Barra Torres.

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Atualmente, a bula da cloroquina cita que o remédio é indicado para caso "agudo de malária", amebíase hepática, artrite reumatoide, lúpus, sarcoidose e doenças que provocam sensibilidade dos olhos à luz. Apesar de a substância ser propagandeada por Bolsonaro como alternativa para tratar a covid-19, vários estudos vêm demonstrando que a cloroquina não tem eficácia comprovada e ainda pode trazer riscos em função do uso indiscriminado.

De acordo com o senador Omar Aziz (PSD-AM), presidente da CPI da Covid, Nise Yamaguchi já se ofereceu para participar da comissão. Aziz afirmou, durante oitiva do atual ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, na semana passada, que a médica esteve em seu gabinete para se colocar à disposição dos senadores.

O senador Ciro Nogueira (PP-PI), aliado de Bolsonaro, apresentou um requerimento pedindo o comparecimento da médica na CPI, mas ele ainda não foi votado. "A Dra. Nise Hitomi Yamaguchi dispõe de vasto conhecimento acadêmico e especialização nas áreas da medicina afetas ao tratamento da cobid-19", escreveu o senador.

A especialista é defensora do uso de cloroquina em pacientes com o novo coronavírus e chegou a ser cotada para assumir o ministério da Saúde após a demissão de Mandetta, que era contrário ao uso do medicamento.

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