A catarata, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), afeta mais de 94 milhões de pessoas e é uma das principais causas de deficiência visual e cegueira no mundo. Nesse cenário, entender as técnicas disponíveis, seus verdadeiros benefícios e limitações é essencial tanto para os pacientes quanto para quem formula as políticas de saúde.
Ela ocorre quando o cristalino - a lente natural do olho humano - começa a perder sua transparência com o tempo. Isso ocorre porque as proteínas se acumulam, o que deixa a lente opaca e faz a visão ficar turva, como se a pessoa olhasse o mundo por um vidro fosco. É um processo natural durante o envelhecimento.
Não existe, até o momento, um tratamento clínico capaz de reverter a catarata. A única opção eficaz é a cirurgia, que consiste na remoção do cristalino opacificado e sua substituição por uma lente artificial, chamada lente intraocular (LIO), para restaurar a visão. Hoje, esse é um dos procedimentos cirúrgicos mais realizados no mundo, com milhões de operações feitas todos os anos. No Brasil, embora o Sistema Único de Saúde (SUS) realize mais de 600 mil cirurgias desse tipo por ano, ainda existe uma grande demanda não atendida.
A técnica mais usada é a facoemulsificação convencional. Nesse procedimento, o cirurgião faz pequenas incisões na córnea e utiliza uma ponteira de ultrassom para fragmentar o cristalino opacificado pela catarata, permitindo sua remoção por aspiração. Essa técnica é segura, amplamente consolidada e apresenta bons resultados.
As aplicações do laser de femtossegundo
Nos últimos anos, o mercado e a indústria oftalmológica têm investido em novas tecnologias para a cirurgia de catarata. Entre elas, destaca-se a FLACS (Femtosecond Laser-Assisted Cataract Surgery, ou cirurgia de catarata assistida por laser de femtossegundo). Trata-se de um laser que emite pulsos de luz extremamente curtos, na ordem de femtossegundos (10⁻¹⁵ segundos). Nesse procedimento, em vez de o cirurgião realizar manualmente os cortes e a abertura da cápsula do cristalino, essas etapas são executadas por um laser de alta precisão, guiado por imagens em tempo real do olho do paciente.
Mas o que a ciência realmente mostra sobre a FLACS? Na prática, os benefícios parecem ser modestos em comparação com o método convencional. Uma metanálise publicada na revista Scientific Reports, em 2025, reuniu 46 estudos clínicos envolvendo 8.871 olhos operados. Os resultados indicaram uma discreta melhora da acuidade visual na primeira semana após a cirurgia, em comparação com a facoemulsificação convencional. No entanto, essa diferença desaparece após cerca de um mês de acompanhamento.
Além disso, as taxas de complicações, os resultados visuais de longo prazo e a qualidade de vida relatada pelos pacientes foram semelhantes nos dois grupos. Em outras palavras, as evidências disponíveis até o momento indicam que a FLACS não oferece vantagens clínicas significativas em relação à técnica tradicional de facoemulsificação.
O maior ensaio clínico independente já conduzido sobre o tema, o estudo FEMCAT, publicado no The Lancet e realizado com 907 pacientes em cinco centros franceses, chegou à mesma conclusão: sem diferença clínica relevante entre as técnicas. Vale ressaltar que a FLACS foi mais cara e menos custo-efetiva. Uma revisão feita pela Cochrane em 2023, uma das principais fontes de sínteses de evidências da área da medicina, concluiu que não há muita evidência para dizer que uma técnica é melhor do que a outra.
O ponto principal é que a FLACS não deve ser apresentada como uma técnica mais eficiente, e sim como uma ferramenta útil em casos selecionados. De acordo com uma revisão publicada no American Journal of Ophthalmology em 2026, a tecnologia do laser de femtossegundo oferece algumas vantagens reais para pacientes com características como cataratas muito duras, câmaras anteriores rasas, cataratas brancas ou polares posteriores. Nessas situações, a precisão adicional desse laser pode aumentar a precisão de algumas etapas da cirurgia e diminuir, por exemplo, as chances de danos às células da córnea.
O progresso das lentes intraoculares
Se houve uma inovação que realmente transformou a vida dos pacientes operados de catarata nas últimas duas décadas, foi o desenvolvimento das lentes intraoculares de alto desempenho, conhecidas como lentes premium. Durante muitos anos, as lentes implantadas após a remoção da catarata corrigiam apenas a visão de longe. Com isso, embora enxergassem bem à distância, os pacientes continuavam dependentes de óculos para atividades de perto e de visão intermediária, como ler, usar o celular ou trabalhar no computador.
Agora, existem lentes capazes de proporcionar visão nítida em três distâncias diferentes e outras que ampliam a faixa de visão sem a necessidade de óculos. Um grande estudo publicado em 2022 na JAMA Ophthalmology, que reuniu 27 pesquisas e 2.605 pacientes, mostrou que as lentes trifocais oferecem a melhor visão de perto entre as opções avaliadas, enquanto as lentes de foco estendido (EDOF, do inglês Extended Depth of Focus) se destacam na visão intermediária.
A comparação entre essas lentes revela um dilema clínico claro. As trifocais proporcionam maior independência dos óculos, mas estão associadas a uma maior percepção de halos e brilhos ao redor das luzes, sobretudo à noite. Já as EDOF tendem a provocar menos fenômenos ópticos, mas podem exigir o uso de óculos para algumas tarefas de perto.
A escolha, portanto, depende do estilo de vida e das prioridades visuais de cada paciente. Também podem ser consideradas estratégias como monovisão ou micro-monovisão, buscando diferentes distâncias de foco entre os dois olhos. Todas essas opções devem ser discutidas entre o paciente e seu oftalmologista antes da cirurgia, considerando profissão, hábitos, necessidade de dirigir à noite, expectativa de independência dos óculos e tolerância aos fenômenos ópticos.
Os desafios do acesso
Apesar dos avanços, desafios importantes persistem. As lentes premium ainda têm custo elevado, não estão disponíveis pelo SUS e não são cobertas pela maioria das operadoras de saúde, ampliando as desigualdades no acesso. Além disso, muitos estudos ainda apresentam limitações metodológicas, como períodos curtos de acompanhamento — de três a seis meses — e amostras pequenas. Soma-se a isso o fato de grande parte das pesquisas receber financiamento da indústria, o que exige uma leitura crítica dos resultados.
O futuro do tratamento da catarata aponta para uma abordagem cada vez mais personalizada, envolvendo o planejamento cirúrgico baseado em biometria de alta precisão, o uso de inteligência artificial para o cálculo das lentes e a integração entre laser e plataformas digitais. Mas a ciência ensina uma lição valiosa: tecnologia cara nem sempre é tecnologia melhor. O que importa é que o paciente enxergue bem e tenha melhora na sua qualidade de vida.
No Hospital Alemão Oswaldo Cruz, Ione Feijão Alexim acompanha pacientes oncológicos em estudos clínicos com medicamentos experimentais que podem causar efeitos adversos oculares. Também ministra aulas relacionadas a esses estudos.