O colunista Emanuel Pessoa apontou que a vitória de Lula contra Flávio Bolsonaro na eleição presidencial decorreu de dois fatores: a campanha petista explorou com eficácia o medo da perda de direitos sociais e democráticos, enquanto Bolsonaro demonstrou arrogância e excesso de confiança. Para o analista, o candidato derrotado agiu com falta de humildade ao antecipar nomes de ministérios e medidas de governo antes do resultado das urnas, repetindo o erro histórico de Fernando Henrique Cardoso.
A derrota de Flávio Bolsonaro (PL) para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições presidenciais de 2026 continua provocando análises sobre as estratégias adotadas pelos dois candidatos. Entre os pontos discutidos estão a comunicação das campanhas e o comportamento dos envolvidos durante a disputa.
Nesta terça-feira (27 de outubro), o colunista Emanuel Pessoa analisou o resultado eleitoral durante sua participação no programa Jornal Gente, da Band. Ao comentar os fatores que podem ter influenciado a votação, ele fez críticas à postura de Flávio Bolsonaro e destacou uma estratégia utilizada pela campanha de Lula.
Segundo Pessoa, a campanha petista conseguiu explorar o receio da população de perder direitos e benefícios sociais. Na avaliação do colunista, o medo da perda costuma provocar uma reação emocional mais intensa do que a expectativa de conquistar algo novo.
O comentarista também criticou o comportamento de Flávio Bolsonaro durante a campanha. Para ele, o candidato demonstrou excesso de confiança ao antecipar discussões sobre possíveis integrantes de um futuro governo, mudanças constitucionais e nomeações antes da definição do resultado eleitoral.
Ao classificar a postura como um "salto alto gigantesco", Emanuel Pessoa afirmou que faltou humildade ao candidato e comparou a situação a um episódio envolvendo Fernando Henrique Cardoso durante uma disputa pela Prefeitura de São Paulo.
Confira as declarações completas de Emanuel Pessoa:
"Todos os estudos mostram que nós sentimos a perda com intensidade de duas a duas vezes e meia mais forte do que o ganho.
É por isso que a dor do final de um relacionamento é muito mais intensa e machuca muito mais do que a alegria que você sente de quando você começou.
E é por isso que, mesmo você tendo aqueles anos de felicidade com alguém, quando acaba, a tristeza é tão grande que te consome.
Então, dito isto, o que acontece é o seguinte: a propaganda do Lula não focou no que o governo federal ia fazer para você. Focou no que eles diziam que o Flávio Bolsonaro ia tirar da população.
Então, eles disseram que o Flávio Bolsonaro, a campanha do Bolsonaro, ia tirar o direito de voto.
Tanto é que era muito comum a gente… Não sei se foi a campanha do Lula que disse isso ou as pessoas ao redor da campanha, que era fake news, mas você via muita gente na internet dizendo que estava votando no Lula para ter o direito de votar de novo.
Como se o Flávio Bolsonaro fosse estabelecer uma ditadura no Brasil.
As pessoas dizendo que o Flávio Bolsonaro ia tirar o Bolsa Família.
As pessoas dizendo que o Flávio Bolsonaro ia reverter o seis por um.
E assim sucessivamente.
Então, você ativou nas pessoas o medo da perda. E o medo da perda é muito mais impactante nas pessoas do que a perspectiva de ganho.
Porque o Flávio Bolsonaro falava de ganhos, do que ia fazer a mais para as pessoas, e não do que elas poderiam perder.
Então, essa é uma força muito poderosa.
Você soma esse fator com um salto alto gigantesco. Salto alto gigantesco.
Flávio Bolsonaro abandonou a humildade do outro lado do país. É como se ele estivesse no Oiapoque e abandonou a humildade na campanha no Chuí.
Basta ver que já estavam falando pessoas como seus ministros da Fazenda, dizendo o que iam fazer.
Já estava falando que ia fazer emenda constitucional.
Já estava falando sobre programa de governo.
Já estava falando quem ia nomear.
Já estava falando de cargo para o pai.
Você não faz isso.
Você está numa campanha que você só ganhou por dois pontos o primeiro turno. Você fala para as pessoas: 'Olha, ainda não é hora de falar disso. Acho que é muito cedo. A gente tem muito trabalho a fazer.'
Não. Faltou humildade. Se comportou como presidente.
Nós já vimos isso em São Paulo, quando o Jânio Quadros concorreu com Fernando Henrique.
O Fernando Henrique se sentou na cadeira de prefeito para tirar uma foto. A foto vazou e as pessoas puniram Fernando Henrique, que estava muito à frente nas pesquisas, não lhe dando voto pela arrogância ao sentar na cadeira de prefeito da cidade de São Paulo antes de ser eleito."