Ciência brasileira clona primeiro porco para viabilizar transplantes de órgãos suínos em humanos

Avanço no Centro de Estudos do Genoma Humano da USP abre caminho para a produção de animais modificados destinados a salvar vidas humanas

20 abr 2026 - 14h02

Quase três décadas após o marco histórico do nascimento da ovelha Dolly, o primeiro mamífero clonado do planeta, a ciência brasileira alcançou um feito inédito. Uma equipe de pesquisadores celebrou recentemente o nascimento de um porco clonado, um passo fundamental dentro de um projeto ambicioso que visa a criação de animais geneticamente modificados para o transplante de órgãos em seres humanos. O animal, que nasceu no dia 24 de março, encontra-se saudável e está sendo mantido em uma fazenda localizada na cidade de Piracicaba, no interior de São Paulo. A coordenação do trabalho é realizada por Ernesto Goulart, pesquisador do Centro de Estudos do Genoma Humano e de Células-Tronco (CEGH-CEL) do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. Segundo o grupo responsável, este é o primeiro registro de clonagem desta espécie na América Latina.

O porco clonado em incubadora na fazenda em Piracicaba (SP)
O porco clonado em incubadora na fazenda em Piracicaba (SP)
Foto: Centro de Estudos do Genoma Humano do IB-USP (Genoma USP) / Perfil Brasil

O desafio técnico da clonagem animal

A complexidade do procedimento é vasta, e o sucesso da equipe destaca a capacidade técnica dos cientistas envolvidos. Ao comentar sobre a dificuldade intrínseca do processo, Ernesto Goulart explica a singularidade do momento. São pouquíssimos grupos no mundo que conseguiram a clonagem animal e, entre os animais, o porco é o mais difícil de ser clonado. Como nosso grupo nunca havia trabalhado com esse procedimento, consideramos um sucesso essa etapa, afirma o pesquisador. Embora o leitão recém-nascido não possua, neste momento, as modificações genéticas necessárias para a captação de órgãos, o nascimento serve como uma prova de conceito indispensável. A equipe agora direciona seus esforços para o próximo objetivo: implantar embriões geneticamente modificados que viabilizem o xenotransplante no futuro próximo.

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Rumo ao futuro dos xenotransplantes

O uso de suínos para fins terapêuticos não é uma ideia nova, mas as barreiras biológicas sempre impuseram limites severos. Essa ideia de produzir suínos geneticamente modificados para um transplante em humanos é um sonho bem antigo da medicina, mas ele tinha muitas limitações, porque sempre tem a rejeição hiperaguda, pontua Goulart. Ele explica que a rejeição ocorre devido aos anticorpos anti-suínos presentes no sangue humano, o que levava a ataques ao órgão em questão de horas. Com o avanço das técnicas de edição gênica, como o sistema Crispr-Cas 9, descoberto pelas cientistas Emmanuelle Charpentier e Jennifer Doudna, premiadas com o Nobel em Química em 2020, as possibilidades mudaram drasticamente. Hoje, a modificação genética tornou-se mais acessível, permitindo novos horizontes para o transplante de órgãos suínos em humanos, campo que já viu tentativas nos Estados Unidos com pacientes como David Bennett e Lawrence Faucette.

Tecnologia nacional para o SUS

Diante do cenário internacional, onde países como a China também avançam nos estudos, o médico Silvano Raia provocou seus colegas da USP sobre a necessidade de o Brasil liderar o projeto para não se tornar dependente de órgãos estrangeiros e reduzir custos ao SUS. Sob sua coordenação, surgiu o Centro de Ciência para Desenvolvimento em Xenotransplante, integrando nomes como o imunologista Jorge Kalil, a geneticista Mayana Zatz e os pesquisadores Ernesto Goulart, Luiz Caires e Luciano Abreu Brito. Ao relembrar o início do projeto, Mayana Zatz compartilha a visão por trás da iniciativa. O professor Silvano sabia do meu trabalho com genoma, aqui no centro da USP, e me perguntou: Olha, sei que é uma ideia futurística, mas e se a gente usar suínos como doadores de órgãos?. E ele indagou se era possível modificar os genes para reduzir a rejeição. Eu respondi que conversaria com a minha equipe, conta a geneticista, que hoje lidera o grupo. O objetivo final é claro e ambicioso: Nós estamos desenvolvendo uma tecnologia 100% brasileira para levar ao SUS e não depender de órgãos do exterior.

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