O que estão compartilhando: que a vacina contra a dengue do Instituto Butantan é um "experimento" e que aqueles que receberam o imunizante são "cobaias" do governo.
O Estadão Verifica checou e concluiu que: é enganoso. A vacina Butantan-DV contra a dengue não é experimental, porque cumpriu os estágios obrigatórios de desenvolvimento para a aprovação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), em novembro de 2025. O número de supostos eventos graves notificados após a vacinação, que ainda estão sob investigação, representa 0,008% do total de 500 mil pessoas imunizadas. Especialistas explicaram ao Verifica que casos adversos podem ser registrados à medida que há maior número de vacinados.
O autor do vídeo analisado é o vereador Dárcio Bracarense (PL), de Vitória (ES). Procurado, ele afirmou ter questionado formalmente o governo sobre o tema. "Existem muitas outras questões mal explicadas", disse. O parlamentar reiterou que, em sua opinião, "usaram as pessoas como cobaias".
Segundo a médica Mônica Levi, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), "de maneira alguma se pode dizer que essa vacina era experimental". A especialista ressaltou que o produto do Butantan passou rigidamente por todos os estágios de licenciamento, atingindo resultados positivos de eficácia e segurança.
O professor Helton Santiago, professor de imunologia da Universidade Federal de Minas Gerais e diretor clínico do Centro de Tecnologias de Vacinas, também destaca que a vacina não está em fase de experimentação. "Já foram gerados dados suficientes para garantir que se trata de um produto eficaz e que traz benefícios para a população", disse. O especialista ressaltou que o termo "cobaia", usado no vídeo, é depreciativo. "Mesmo quando a pesquisa estava em testes clínicos, contando com a participação voluntária de pessoas contribuindo para o progresso da ciência, não se usava esse termo", alertou.
Por que houve relato de novos efeitos adversos?
Os especialistas ouvidos pelo Verifica explicaram que, quando há o uso da vacina em milhares ou milhões de pessoas, é possível que sejam registrados novos eventos adversos devido à maior exposição. "Se um evento ocorre a cada 50 mil pessoas, por exemplo, em um ensaio clínico com 20 mil pode não ser observado nenhum desses casos", disse o professor Santiago. "Mas, quando se vacinam 500 mil, você poderá ter mais certeza de que tal evento pode estar associado." Segundo ele, quando o imunizante é levado à população, pode se identificar de forma mais precisa os grupos em que a vacina não deve ser aplicada.
"Isso não quer dizer que a vacina não seja segura, nem que não traga benefícios, mas cada relato precisa ser investigado", disse o especialista. "Precisa-se chegar a uma conclusão se o evento foi mesmo relacionado à vacina, se houve uma característica particular que poderia contraindicar a vacina nesse grupo ou se a vacina deve ser suspensa."
O guia técnico do Ministério da Saúde para a administração vacina do Butantan contra a dengue, de 2026, explica que "por ser uma vacina nova, e mesmo que as pesquisas tenham mostrado que ela é segura e eficaz, podem surgir eventos raros e inesperados durante uma vacinação em massa". O documento exige a notificação de eventos supostamente atribuíveis à vacinação no sistema do SUS. Casos graves têm prazo de 24 horas.
De acordo com a médica Mônica Levi, a suspensão da vacina pelo Ministério da Saúde para a investigação dos casos é adequada, ética e de precaução. Nesta quinta-feira, 11, a SBIm divulgou uma nota apoiando a medida e reforçando a importância dos sistemas de farmacovigilância para detectar e fornecer informações rápidas para tomada de decisão.
É importante ressaltar que outra vacina contra a dengue, a Qdenga, produzida pela farmacêutica Takeda, continua sendo ofertada no SUS para crianças de 10 a 14 anos.
Suspensão da vacina da dengue do Butantan: o que fazer se você tomou o imunizante
Vacina contra dengue do Butantan não é a mesma aplicada em crianças e na rede particular