A disseminação massiva de desinformação sobre o sistema eleitoral por líderes bolsonaristas tem efeitos concretos no eleitorado. Pesquisa Meio/Ideia divulgada nesta quarta-feira, 5, revela que 74% dos simpatizantes da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência desconfiam das urnas eletrônicas em algum grau. Dos entrevistados com intenção de voto no candidato do PL, 46% não confiam e 28% confiam pouco no sistema de votação. Apenas 12% responderam que confiam muito.
Em relação àqueles que declararam que pretendem votar no presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a maioria respondeu que confia muito (58%) nas máquinas de votação. Outros 16% afirmaram que confiam pouco, e 9% que não confiam. Lula e Flávio lideram as intenções de voto na pesquisa.
Entre todos os entrevistados pela pesquisa, a parcela dos que confiam muito no sistema eletrônico de votação ficou em 35%, enquanto 22% afirmaram que confiam pouco e 24% que não confiam.
Considerando o posicionamento dos entrevistados em relação ao campo político, 49% daqueles que se definiram como de direita afirmaram que não confiam no sistema, enquanto 11% disseram confiar muito. Já entre os que se identificaram como de esquerda, a proporção se inverteu: apenas 4% afirmaram que não confiam nas urnas eletrônicas, e 70% que confiam muito nelas.
Bolsonaro promoveu desconfiança nas urnas
O ex-presidente Jair Bolsonaro foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal, em setembro do ano passado, a 27 anos e 3 meses de prisão por golpe de Estado e mais quatro crimes. De acordo com a maioria dos ministros do STF, a desinformação sobre o sistema eletrônico de votação foi um dos principais elementos do plano golpista.
O STF julgou procedente a denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR), feita com base em investigações da Polícia Federal (PF). A PGR apontou que os "ataques incisivos" ao sistema eleitoral e às instituições democráticas foram praticados constantemente para "a propagação dolosa de desinformação e promoção de instabilidade social". A estratégia, segundo o órgão, fazia parte "da execução do plano de permanência no poder à revelia do resultado das urnas".
Os ataques às urnas eletrônicas se intensificaram a partir de 2021. Em agosto daquele ano, o Verifica já havia publicado mais de 140 checagens de alegações mentirosas que viralizaram nas redes sociais sobre as urnas.
No ano seguinte, um dos episódios de maior repercussão foi o encontro de Bolsonaro com embaixadores no Palácio da Alvorada. Bolsonaro fez uma série de ataques infundados ao sistema eletrônico de votação. A transmissão do evento foi checada pelo Verifica, que desmentiu sete alegações falsas ou enganosas divulgadas pelo então presidente na ocasião.
Mais recentemente, o senador Flávio Bolsonaro mentiu ao afirmar, durante uma reunião com embaixadores no mês passado, que a Smartmatic forneceu urnas eletrônicas para as eleições no Brasil. O Verifica mostrou que a empresa nunca forneceu os equipamentos ou softwares para a votação no Brasil. O boato circula desde 2018 e foi desmentido diversas vezes por agências de checagem.
Após a repercussão negativa, Flávio negou ter colocado em dúvida a integridade do sistema eleitoral brasileiro.
A urna eletrônica é usada no Brasil desde 1996. Nunca houve prova ou indícios de fraude eleitoral no sistema.
A pesquisa Meio/Ideia está registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com o código BR-04579/2026. Foram ouvidos 1.500 eleitores por telefone, entre os dias 31 de julho e 3 de agosto.