O que estão compartilhando: vídeo alega que a Polícia Federal teria vazado e-mails do senador Marcos do Val (Podemos - ES). A correspondência conteria um dossiê da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), que indicaria o envolvimento de autoridades brasileiras e norte-americanas para aplicar um golpe de Estado no Brasil.
O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é enganoso. O primeiro print que aparece no vídeo mostra um e-mail que teria sido enviado pela conta "marcosdoval@senado.leg.br", mas esse não é o endereço eletrônico institucional do político. Conforme consta em sua página no Senado, o endereço correto é "sen.marcosdoval@senado.leg.br".
Também não há notícias sobre vazamento de e-mails de Marcos do Val. Buscas pelos supostos prints vazados não apresentam resultados válidos. A PF sequer inseriu imagens de e-mails do senador no relatório final da investigação contra ele.
A PF foi procurada, mas não se manifestou. A reportagem entrou em contato com a assessoria de imprensa do senador, que não respondeu. O autor do post no Instagram também não deu retorno à tentativa de contato.
Saiba mais: Marcos do Val teve o celular apreendido pela Polícia Federal em junho de 2023, em uma investigação sobre tentativa de golpe de Estado. Em setembro, o político acusou a instituição de ter vazado fotos íntimas dele e da companheira.
Conforme noticiou o Metrópoles, no inquérito que apurava a participação do senador no plano golpista foram inseridas fotos e diálogos entre ele e a esposa. As informações foram extraídas do celular do senador e um dos arquivos registra um momento íntimo do casal. Marcos do Val reagiu ao fato em pronunciamento no Senado. Essa é a única notícia sobre um suposto vazamento de informações pessoais do senador durante as investigações.
A reportagem consultou o relatório final da investigação produzida pela Polícia Federal — que indiciou o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e outras 36 pessoas por golpe de Estado, organização criminosa e tentativa de abolição do Estado Democrático de Direito. O documento tem um tópico exclusivo para as ações de Marcos do Val, mas não apresenta imagens da caixa de entrada dele semelhantes às que aparecem no vídeo.
Dentre as capturas de tela inseridas estão posts e lives do senador nas redes sociais e trocas de mensagens via WhatsApp que já haviam sido divulgadas anteriormente pela imprensa. O senador não foi um dos indiciados pela PF.
Os prints que aparecem no vídeo têm trechos ilegíveis, sendo impossível identificar os endereços completos de e-mails de quem interagia com Do Val. As partes compreensíveis das correspondências não apresentam informações claras e tratam, basicamente, de cumprimentos, comunicados de envio de documentos, ou citações a viagens e reuniões nos Estados Unidos.
Essas imagens não comprovam a série de alegações feitas no vídeo, desmentidas anteriormente pelo Verifica. Muitas das afirmações compartilhadas no conteúdo são baseadas em alegações falsas ou enganosas feitas pelo próprio senador. Confira a checagem de cada uma delas:
Senador possui dossiê da USAID que prova golpe de Lula e Moraes
O conteúdo alega que o senador tem um "dossiê da USAID" que comprova o envolvimento de entidades e autoridades brasileiras, como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), com o ex-presidente norte-americano Joe Biden para aplicar um golpe de Estado no Brasil.
Essa alegação é semelhante à feita pelo próprio senador em um vídeo, gravado recentemente, em que ele afirma ter documentos que comprovam uma intervenção da USAID nas eleições presidenciais brasileiras de 2022. Conforme o senador, um "modelo de censura" foi aplicado no País pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), à época presidido por Moraes, baseado em orientação da USAID.
Conforme checado pelo Comprova, em parceria com o Verifica, os documentos citados por Do Val como "secretos" na verdade são públicos e estão disponíveis na internet. Além disso, eles não comprovam qualquer tentativa de golpe.
Um deles é um documento produzido pela USAID em 2021 que traça um panorama da desinformação a nível global. O objetivo do texto é ajudar funcionários e parceiros a compreender princípios básicos da desinformação e como lidar com o fenômeno, reduzindo os danos de seus impactos. O outro documento é do TSE e delineia esforços para reduzir os efeitos da desinformação no processo eleitoral brasileiro.
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O que se sabe sobre o planejamento de 8 de janeiro?
Seguindo a linha de que um golpe de Estado teria sido orquestrado por Lula, Moraes e aliados, o vídeo afirma que os atos de 8 de Janeiro foram planejados por esse grupo, que tentou culpabilizar os "patriotas".
Após o 8 de Janeiro, o Estadão analisou transmissões ao vivo, listas de passageiros de ônibus, postagens em redes sociais e imagens que comprovam que os atos foram premeditados e organizados por apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Nas redes sociais, usuários tentaram espalhar a versão falsa de que os atos de destruição foram praticados por "infiltrados" em protestos contrários a Lula.
Em janeiro deste ano, o Estadão fez um apanhado sobre quem foi identificado como organizador e financiador da invasão às sedes dos Três Poderes, em Brasília, no início de 2023. A Polícia Federal apontou no relatório em que indiciou Bolsonaro que esse grupo influenciou a narrativa golpista que levou aos atos contra os Três Poderes.
Segundo a investigação, diante da não concretização de um golpe de Estado que era planejado para 15 de dezembro de 2022, os investigados continuaram a "subsidiar as manifestações antidemocráticas em frente às instalações militares, fato que culminou nos eventos violentos do dia 08 de janeiro de 2023, quando novamente o golpe de Estado foi tentado no País".
Conforme a PF, a disseminação de notícias falsas sobre o processo eleitoral brasileiros, somada ao financiamento de manifestações antidemocráticas por integrantes do governo e por militares, alimentou a expectativa de que um golpe militar era iminente.
A investigação foi utilizada como base das denúncias feitas pela Procuradoria-Geral da República (PGR). Conforme o procurador-geral, Paulo Gonet, os atos foram uma "associação criminosa" para "destruir com violência o Estado Democrático de Direito". Ele citou que os ataques foram realizados por apoiadores de Bolsonaro.
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Trump pode prender Moraes?
Outra afirmação feita no conteúdo checado é que os e-mails do senador revelariam que por anos Marcos do Val esteve envolvido em uma investigação junto do presidente norte-americano Donald Trump sobre "os ataques à democracia e a perseguição aos patriotas". Por isso, alega o vídeo, Trump sempre afirmou que iria prender Alexandre de Moraes.
Essa alegação é mais uma oriunda de afirmações feitas pelo próprio Do Val e também desmentidas pelo Comprova em parceria com o Verifica. Em um vídeo, o senador diz que Trump avisou antes das eleições que, se virasse presidente dos Estados Unidos, o ministro seria preso por supostas ordens ilegais determinadas em processos no Brasil. Ele acrescenta que as únicas instituições com autonomia e legitimidade para prender o ministro são a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) e o Tribunal Penal Internacional (TPI).
Nenhuma das declarações é verdadeira. Não há registro de que Trump tenha, de fato, feito a declaração de que prenderia Moraes. Além disso, advogados consultados pelo Comprova classificaram a hipótese como "absurda". A legislação brasileira veda a possibilidade de expedição por parte de um presidente americano de ordem de prisão de um ministro do STF.
Também não é possível, em uma ocasião hipotética, que o presidente americano expeça uma ordem de prisão a um ministro brasileiro, porque essa competência seria de um juiz e teria de estar nos limites da legalidade.
Já a CIDH não pode julgar indivíduos, mas Estados soberanos. A entidade não tem jurisdição para condenar alguém à prisão. Ela faz condenações civis, como pagamento de indenizações. O TPI, por sua vez, só poderia ser acionado se verificado que um desses quatro crimes tenham sido praticados no Brasil: crime de guerra, crime de genocídio, crime contra a humanidade ou crime de agressão.