O que estão compartilhando: postagem alerta a nunca borrifar perfume no pescoço, porque a área fica sobre a tireoide e a fragrância pode causar alterações hormonais.
O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é enganoso. Não há evidências científicas que justifiquem essa recomendação, nem estudos que comprovem a relação de causa e efeito entre o uso de perfume no pescoço e problemas na tireoide. Mesmo que ficasse provado que perfumes podem causar alterações hormonais, não faria diferença nenhuma evitar a área do pescoço. Endocrinologistas ouvidas pelo Verifica explicaram que a absorção do produto independe da área onde ele é aplicado. Saiba mais abaixo.
Saiba mais: A postagem analisada foi publicada pelo médico José Nasser. Procurado, ele manteve suas alegações. Ele afirmou não fazer alarmismo e disse que apresenta artigos científicos em posts publicados nas redes sociais.
Porém, na postagem analisada, foram citadas duas referências. Uma não fala sobre perfumes e a outra não existe, conforme buscas realizadas pelas especialistas entrevistadas pelo Verifica.
Devo deixar de passar perfume no pescoço?
A postagem recomenda medidas como aplicar o perfume nas roupas, manter distância do cabelo ou utilizar o produto em áreas afastadas do pescoço, como nos pulsos e atrás dos joelhos. Mas essas estratégias não fariam diferença alguma caso a aplicação de perfume no pescoço estivesse associada a alterações na tireoide.
Segundo a endocrinologista Maria Izabel Chiamolera, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia de São Paulo (SBEM-SP), a absorção do produto ocorre pela pele e independe da região do corpo em que é aplicado.
"Só o pescoço não vai fazer diferença nenhuma porque a absorção é pela pele, o produto vai entrar pela pele para a circulação e ele vai passar na circulação, no pulso vai acontecer o mesmo", disse.
O que são disruptores endócrinos?
A justificativa da postagem para evitar a aplicação de fragrâncias no pescoço é que os perfumes têm compostos associados à disrupção endócrina. Segundo o post, o uso na região do corpo que fica sobre a tireoide poderia interferir na sinalização hormonal, processo pelo qual os hormônios enviam mensagens ao corpo.
É verdade que existem disruptores endócrinos em cosméticos, mas até o momento não há evidência de que eles tenham o efeito alegado na postagem.
As endocrinologistas ouvidas pelo Verifica explicaram que os chamados desreguladores endócrinos são substâncias químicas capazes de alterar a função endócrina, que regula e controla várias funções do organismo por meio da produção de hormônios. Esses compostos estão presentes em plásticos, pesticidas agrícolas, produtos de limpeza e cosméticos.
No entanto, o mecanismo de ação dos disruptores ainda não é totalmente conhecido, o que dificulta estabelecer de que forma ou em que nível de exposição eles poderiam causar danos à saúde.
O que se sabe até agora sobre disruptores endócrinos?
Os desreguladores endócrinos estão presentes em diversos produtos com os quais o ser humano tem contato frequente. Embora existam evidências de que esses compostos podem alterar a função hormonal e trazer problemas à saúde, as especialistas entrevistadas pontuaram que a maneira como essas substâncias impactam o organismo ainda não foi totalmente compreendida.
De acordo com a professora Luciana Verçoza Viana, do Departamento de Medicina Interna da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), entre os principais desreguladores endócrinos estão:
Bisfenol A, utilizado na produção de plásticos de policarbonato e resinas epóxi; Ftalatos, substâncias químicas usadas em cosméticos e produtos de cuidados pessoais para aumentar a durabilidade dos plásticos; Pesticidas e herbicidas, como atrazina, glifosato, clorpirifós, DDT e ziram; Metais pesados, como mercúrio, cádmio e chumbo; Filtros UV presentes em cosméticos, como benzophenone-3 (oxibenzona), octinoxate e 4-MBC; Parabenos, entre eles methylparaben, propylparaben e butylparaben, também presentes em cosméticos
As evidências disponíveis até o momento não são suficientes para embasar recomendações de evitar todos os produtos com desreguladores endócrinos, segundo Chiamolera, da SBEM-SP.
"Se a gente começasse a falar que não pode usar, provavelmente a gente não poderia usar nada porque tudo é passível de ter essas substâncias químicas", afirmou.
Por que ainda não existem evidências sobre o assunto?
A professora Luciana explicou que, para que se possa comprovar que um perfume causa um efeito hormonal relevante, é preciso expor um grupo de pessoas a um determinado produto e outro, não. Depois é preciso acompanhar essas pessoas por tempo suficiente para avaliar se elas desenvolveram a alteração hormonal em questão. Isso ainda não foi feito.
Como dito anteriormente, há uma falta de evidências científicas robustas sobre os disruptores endócrinos. De acordo com Chiamolera, isso está relacionado à complexidade de estudar esses compostos químicos e as reações que eles causam no organismo.
Segundo a especialista, muitos desses agentes apresentam um efeito chamado não-monotônico, no qual a relação entre a dose e o efeito não segue um padrão linear.
"Às vezes, a gente vê algum efeito no sistema endócrino até em doses que são abaixo da dose considerada tóxica", disse a médica.
A especialista destacou ainda que os efeitos dos desreguladores endócrinos dependem da fase da vida em que o indivíduo é exposto a essas substâncias.
"Se ele foi exposto, por exemplo, dentro da barriga da mãe, você pode ter um efeito. Se ele foi exposto na adolescência, pode ter outro efeito. A gente fala que existem janelas de suscetibilidade", afirmou.
"Hoje em dia, a gente se preocupa muito com o período perinatal, entre o intrauterino e o pós-parto, a amamentação, a infância e a adolescência. São esses períodos que acabam sendo particularmente críticos para ter algum efeito", observou.
O que realmente faz mal à tireoide?
A tireoide é uma glândula que regula a função de órgãos como coração, cérebro, fígado e rins por meio dos hormônios T3 e T4.
Viana pontuou que os fatores conhecidos por alterar o funcionamento da tireoide são:
exposição à radiação; excesso ou deficiência de iodo; deficiência de selênio; uso de algumas medicações para transtorno bipolar; uso de antiarrítmicos.
Existem alguns desreguladores endócrinos que de fato alteram a função tireoidiana. De acordo com a professora, são eles:
perclorato, presente em fertilizantes; tiocianatos, presentes no cigarro e em alguns alimentos. Leia tambémDevemos nos preocupar com disruptores endócrinos? Oncologista responde