Vacinação de adolescentes contra covid: por que governo Bolsonaro voltou a recomendar imunização de menores de idade

Secretário-executivo do Ministério da Saúde anunciou nesta quarta-feira (22/09) que pasta retomou orientação de imunizar jovens de 12 a 17 anos depois que relação de morte de adolescente com a vacina foi descartada

23 set 2021 - 06h41
(atualizado às 07h15)
Adolescente toma vacina no braço
Adolescente toma vacina no braço
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Dias depois de suspender a vacinação contra a covid-19 de adolescentes de 12 a 17 anos sem comorbidades, o Ministério da Saúde anunciou na noite desta quarta-feira (22/09) que voltou a recomendar a imunização deste grupo.

A decisão foi comunicada pelo secretário-executivo da pasta, Rodrigo Moreira Cruz, segundo quem o recuo se deu após as autoridades descartarem a relação causal da vacinação com a morte de uma adolescente.

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Na quinta-feira (16/9), o Ministério da Saúde havia divulgado uma portaria recomendando a suspensão da vacinação de adolescentes sem comorbidades. De acordo com a normativa, adolescentes só deveriam ser vacinados se tivessem algum fator de risco para a covid-19, como doenças cardíacas, diabetes ou imunossupressão.

Na ocasião, o governo argumentou que a suspensão ocorria após a morte de uma adolescente que havia sido imunizada. Havia suspeitas de que a morte dela tivesse relação com a vacina, o que demandaria uma investigação sobre o caso. Essa relação foi a que acabou descartada após análise.

Além disso, o governo disse que havia detectado registros de adolescentes que teriam sido vacinados com imunizantes não autorizados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Até o momento, a única vacina autorizada para a imunização de adolescentes é a Comirnaty, fabricada pela Pfizer/Biontech.

Nesta quarta-feira, Rodrigo Cruz disse que a decisão de voltar a recomendar a vacinação de adolescentes sem comorbidades acontece após estudos descartarem a ligação entre a morte da jovem e a vacina contra a covid-19.

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"Os três documentos […] mostraram que não há relação de causa entre a vacina e o óbito da adolescente. Neste cenário, decidiu-se suspender a medida cautelar que recomendava a não aplicação dessas doses", afirmou o secretário.

"Hoje, foi publicada uma nota técnica elaborada pelo ministério que avalia todo esse cenário e verifica que os benefícios da vacinação são maiores que os eventuais riscos de efeitos adversos da sua aplicação", disse.

Cruz afirmou ainda que o ministério procurou Estados e municípios para saber os motivos pelos quais os registros da pasta indicavam que adolescentes teriam sido imunizados com doses de vacinas não aprovadas pela Anvisa para este público. Ele afirmou, no entanto, que o total de registros suspeitos representa apenas 0,7% do total de adolescentes vacinados.

O secretário afirmou que a nova posição do ministério faz parte de uma nota técnica da pasta.

O recuo do governo em relação à vacinação de adolescentes sem comorbidades acontece após uma série de críticas de governos estaduais e de sociedades médicas que se manifestaram contra a recomendação da semana passada.

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Na ocasião, a Anvisa chegou a divulgar uma nota afirmando que não havia até o momento "evidências que subsidiem ou demandem alterações nas condições aprovadas para a vacina".

Risco de inflamação cardíaca por covid é 7 vezes maior do que por vacina, diz estudo

Como dito acima, o único imunizante aprovado para indivíduos de 12 a 17 anos no Brasil é a Comirnaty, de Pfizer e BioNTech.

A aprovação, concedida no dia 12 de junho, teve como base um estudo que reuniu 1.972 adolescentes, em que foi detectada uma taxa de eficácia de 100%.

A única vacina contra a covid-19 liberada no Brasil para indivíduos de 12 a 17 anos é a Comirnaty, de Pfizer e BioNTech
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

De acordo com o site do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos, os sintomas mais comuns que aparecem nos adolescentes após a vacina são dor e vermelhidão no braço, cansaço, dor de cabeça, calafrios, febre e náuseas.

Mas o fato que tem preocupado muitos pais, ainda mais depois da portaria do Ministério da Saúde, é o risco de miocardite ou pericardite, que são tipos de inflamação que acometem o coração.

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No estudo usado como base para a aprovação da Anvisa, foram observados após a vacinação casos de miocardite.

Segundo os cálculos (os mesmos usados pelo Ministério da Saúde), foram 16 indivíduos acometidos a cada 1 milhão de vacinados.

No trabalho, a maioria das inflamações cardíacas foi leve, e os acometidos se recuperaram após um tempo curto de tratamento e repouso. Também não foi observado nenhum infarto decorrente dessa complicação.

As autoridades ainda estão estudando se esse problema cardíaco é realmente causado pelos imunizantes ou se uma coisa não tem nada a ver com a outra.

Além disso, a própria infecção pelo coronavírus também aumenta a probabilidade de ter uma miocardite.

De acordo com um trabalho feito pela Universidade Case Western Reserve, nos Estados Unidos, o risco de jovens sofrerem com uma inflamação cardíaca pela covid-19 é seis vezes maior do que pela vacina.

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Nos Estados Unidos, adolescentes começaram a ser vacinados contra a covid-19 a partir de abril e maio
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Embora os adolescentes não estejam entre os mais afetados pela forma grave do coronavírus, especialistas ouvidos pela BBC News Brasil entendem que levar essa proteção a eles é um passo natural em que os benefícios superam em muito os riscos, ainda que seja mais urgente e prioritário garantir a segunda dose aos adultos e dar uma terceira aos grupos vulneráveis.

Na Europa, diversos países começaram a vacinar seus adolescentes depois que a Agência Europeia de Medicamentos (EMA) aprovou em maio a vacina Pfizer para adolescentes de 12 a 15 anos.

Na França, 66% dos jovens de 12 a 17 anos foram vacinados com uma dose, e 52% estão totalmente vacinados. Em outubro, o passe sanitário, que comprova a vacinação, será estendido para menores de 18 anos. Na Noruega, a vacinação foi recentemente estendida para crianças de 12 a 15 anos, mas apenas a primeira dose será oferecida. A decisão sobre a segunda dose será tomada posteriormente.

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