'Trégua frágil' e tentativa de 'melhorar imagem no Brasil': o que a imprensa internacional prevê para encontro entre Lula e Trump

Jornais destacam momento político delicado para o presidente Lula domesticamente, com derrotas no Congresso e empate com Flávio Bolsonaro nas pesquisas.

7 mai 2026 - 10h16
Lula e Trump, ao lado de suas comitivas, durante encontro na Malásia em outubro
Lula e Trump, ao lado de suas comitivas, durante encontro na Malásia em outubro
Foto: AFP via Getty Images / BBC News Brasil

O encontro entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e seu homólogo americano, Donald Trump, marcado para esta quinta-feira (7/5) na Casa Branca, nos Estados Unidos, é um dos destaques do noticiário internacional.

Em um artigo publicado em seu site, o jornal americano The New York Times aponta que a reunião é um momento de "trégua frágil" após um ano de grande tensão em meio à imposição de tarifas por Washington e trocas de "insultos públicos" entre os dois líderes.

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"Não está claro como Trump e Lula vão interagir, visto que a relação entre os dois países tem sido marcada por momentos significativos de acrimônia", diz o periódico, em referência ao convívio áspero recente.

Mas segundo o The New York Times, temas como segurança, comércio e minerais críticos devem estar entre os discutidos na Casa Branca.

"A segurança é uma questão fundamental para os eleitores nas eleições brasileiras de outubro, com as pesquisas mostrando Lula e [o senador Flávio] Bolsonaro em empate técnico", aponta a reportagem.

Para o NYT, a designação de facções criminosas brasileiras como organizações terroristas por Washington pode dar mais destaque ao tema e potencialmente beneficiar Flávio Bolsonaro, que tem criticado Lula por sua gestão da segurança pública.

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Segundo interlocutores do presidente Lula ouvidos pela BBC News Brasil, uma ala da administração Trump defende que facções como o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital (PCC) sejam classificadas como organizações terroristas.

A agência de notícias Reuters afirma ainda que o governo brasileiro tem identificado indícios de que suas exportações podem ser afetadas por novas tarifas relacionadas a uma investigação sobre práticas comerciais desleais.

A preocupação do Brasil com o tema começou em julho do ano passado, na mesma época em que o governo Trump impôs um tarifaço de 40% — que foi posteriormente revertida.

Naquele mês, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) abriu uma investigação com base na seção 301 da Lei de Comércio do país sobre práticas comerciais supostamente irregulares do Brasil. Entre outras coisas, o órgão incluiu o Pix entre os itens sob apuração.

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Os norte-americanos afirmam que o Pix representaria uma ameaça à atuação de empresas dos Estados Unidos que operam o mercado de meios de pagamento. Do lado brasileiro, técnicos defendem que o sistema não prejudica empresas norte-americanas numa tentativa de evitar sanções.

Segundo a reportagem da Reuters, autoridades brasileiras manifestaram preocupação com a possibilidade de uma nova onda de tarifas durante uma reunião realizada há duas semanas com representantes do Departamento de Comércio dos EUA. "Segundo pessoas presentes nas negociações, os representantes americanos fizeram poucas perguntas, reforçando a percepção de que a investigação visava justificar tarifas em vez de resolver questões comerciais", diz a agência.

'Trump receberá o presidente brasileiro após meses de altos e baixos', diz título da reportagem do NYT
Foto: Reprodução/NYT / BBC News Brasil

Outra reportagem, da agência Associated Press (AP), aponta o acesso aos depósitos de terras raras do Brasil como outro ponto fundamental que provavelmente estará na agenda da reunião.

"O país sul-americano possui a segunda maior reserva mundial de minerais de terras raras, utilizados em uma ampla gama de produtos, incluindo smartphones, veículos elétricos, painéis solares e motores a jato", diz a AP.

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'Opostos ideológicos'

Segundo o jornal argentino La Nación, Trump e Lula são "opostos ideológicos" que mantêm uma "relação difícil".

O periódico relembrou o último encontro entre os dois líderes, realizado na Malásia em outubro do ano passado, que teria levado Washington "a relaxar as tarifas punitivas impostas ao Brasil pelo julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, um aliado de Trump condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe".

Mas segundo o La Nación, muita coisa aconteceu desde então: "os Estados Unidos capturaram o líder chavista Nicolás Maduro em Caracas e lançaram uma guerra contra o Irã ao lado de Israel", diz o artigo.

A reportagem ressalta ainda que Lula critica abertamente as ações militares americanas e acusa Trump de atuar como um "imperador" do mundo.

La Nación: 'Em desacordo, Lula e Trump buscam relançar as relações bilaterais em uma cúpula na Casa Branca'
Foto: Reprodução/La Nación / BBC News Brasil

'Lula chega à reunião politicamente enfraquecido'

A imprensa internacional também destaca o momento político delicado para o presidente Lula domesticamente.

Segundo o La Nación, o brasileiro chega ao encontro "politicamente enfraquecido após uma série de derrotas no Congresso, e empatado nas pesquisas para as eleições presidenciais de outubro com o filho mais velho de Bolsonaro, o senador Flávio Bolsonaro".

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O canal de televisão France 24, em seu site, aponta ainda que ao mesmo tempo em que precisa abordar questões delicadas com Trump, Lula "tenta melhorar sua imagem no Brasil antes das eleições de outubro".

Para AFP, Lula discutirá combate ao crime organizado e tarifas em reunião com Trump
Foto: Reprodução/AFP / BBC News Brasil

Reunião organizada "na surdina" após inúmeras reviravoltas

O jornal espanhol El País tratou ainda, em reportagem em seu site, da falta de clareza sobre como a reunião na Casa Branca deve ser organizada.

"Até o último minuto, a logística do encontro, descrito pelo alto funcionário e pelo Brasil como uma reunião de trabalho, permanece incerta. Não se sabe se Lula será recebido por Trump na entrada principal da Ala Oeste, como era costume ao receber líderes estrangeiros na Casa Branca, ou se o protocolo das recentes visitas de autoridades não-chefes de Estado será seguido: chegada por uma entrada lateral e reunião a portas fechadas, como ocorreu nos casos do presidente colombiano Gustavo Petro e do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu", diz a reportagem.

Segundo o El País, o governo Trump orquestrou a visita do Brasil "na surdina" após inúmeras reviravoltas.

"Para a diplomacia brasileira, o encontro representa mais um passo na construção de confiança com o imprevisível líder da maior potência mundial", diz o jornal.

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