A imprensa internacional repercutiu com destaque a fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos após sua derrota para Lula nas eleições. O senador descumpriu uma ordem para entregar seus passaportes e viajou com a família de carro até a Argentina, de onde seguiu em voo privado com escala no Equador até Miami. Jornais europeus compararam a manobra à saída de Jair Bolsonaro em 2022 e apontaram que a rota visava driblar investigações por lavagem de dinheiro, com apoio de aliados políticos.
A fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos se transformou nesta quarta-feira em um dos principais temas da imprensa internacional. Enquanto autoridades argentinas, norte-americanas e brasileiras acompanham os desdobramentos do caso, jornais europeus passam o dia tentando reconstruir os detalhes da saída do senador do Brasil após sua derrota para Luiz Inácio Lula da Silva na eleição presidencial de domingo (25).
O episódio mobiliza correspondentes em Brasília, São Paulo, Buenos Aires, Miami e Guayaquil e provoca interpretações distintas sobre o significado político da viagem. Entre dúvidas sobre seu paradeiro, especulações sobre seus planos futuros e questionamentos sobre a atuação de governos estrangeiros, a imprensa internacional trata o caso como mais um capítulo da crise política envolvendo a família Bolsonaro.
Enquanto isso, jornalistas confirmaram que Flávio Bolsonaro desembarcou por volta das 9h30 (10h30 em Brasília) no aeroporto executivo de Opa-locka, nos arredores de Miami, acompanhado de familiares, após uma viagem que passou pela Argentina e pelo Equador.
Jornais europeus acompanham operação passo a passo
O jornal Le Monde destaca em sua cobertura que as autoridades brasileiras já trabalhavam há semanas com a hipótese de uma saída do país em caso de derrota eleitoral.
Segundo a correspondente do diário francês em São Paulo, a possibilidade ganhou força depois que Eduardo Bolsonaro passou a mencionar publicamente a hipótese de o irmão deixar o Brasil caso fosse derrotado nas urnas. O jornal observa que esse receio ajudou a justificar a decisão judicial que determinou a entrega dos passaportes de Flávio Bolsonaro.
Para o diário francês, a medida mostra que a possibilidade de uma saída do país não era tratada como uma simples especulação política, mas como um cenário concreto considerado pelas autoridades.
"Desapareceu?"
O também francês Libération escolheu um caminho diferente. Sob o título "Desapareceu?", o jornal concentra sua cobertura nas horas de imprecisão que cercaram o paradeiro do senador.
A publicação destaca que existia uma "incerteza total" em torno da localização de Flávio Bolsonaro enquanto diferentes informações surgiam sobre uma possível saída do Brasil. O diário descreve a operação como uma grande "fuga" e acompanha as tentativas da imprensa internacional de reconstruir os passos do senador desde a noite de terça-feira (27).
Mais do que o aspecto jurídico ou eleitoral, o foco do jornal está no desaparecimento repentino de uma figura política que, apenas dois dias antes, havia disputado a presidência.
Já o diário econômico Les Echos estabeleceu uma comparação direta entre familiares: "Tal pai, tal filho", resumiu o jornal ao recordar que o ex-presidente Jair Bolsonaro também deixou o Brasil rumo aos Estados Unidos após a derrota para Lula em 2022, antes de retornar meses depois ao país.
No Reino Unido, o Guardian mobilizou seu correspondente em Brasília para acompanhar a expectativa em torno da chegada de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos. A reportagem britânica acompanha o deslocamento do senador praticamente em tempo real e descreve a expectativa criada em torno de seu desembarque em Miami. O jornal trata o episódio como um dos principais desdobramentos da eleição presidencial brasileira e acompanha atentamente os efeitos diplomáticos e políticos da viagem.
Operação Alpa e a conivência de aliados
Já o italiano Corriere della Sera concentra sua atenção na chamada Operação Alpa. Segundo o jornal, a operação teria sido concebida pelo secretário de Estado norte-americano Marco Rubio com o objetivo de facilitar a saída de Flávio Bolsonaro do Brasil. A publicação destaca que o deslocamento incluiu etapas discretas e até uma travessia terrestre na fronteira com a Argentina.
Na Espanha, o El País não se limita a relatar a fuga. No próprio título de sua reportagem, "A escapada de Bolsonaro: do Brasil à Argentina para viajar aos Estados Unidos depois de fazer escala no Equador", o veículo enquadra a viagem como uma operação de saída organizada em "várias etapas".
O texto afirma que Flávio Bolsonaro deixou o Brasil "para evitar uma investigação por lavagem de dinheiro" e destaca que Donald Trump se declarou disposto a recebê-lo nos Estados Unidos.
O El País observa que a travessia ocorreu justamente na região de Foz do Iguaçu, administrada pelo Partido Liberal, legenda de Bolsonaro. O jornal também lembra que o estado do Paraná é governado por aliados do bolsonarismo e que Sergio Moro foi eleito governador no primeiro turno.
Argentina revelou a rota da viagem
As primeiras informações concretas sobre a movimentação da família Bolsonaro surgiram durante a madrugada desta quarta-feira, quando a Direção Nacional de Migrações da Argentina divulgou detalhes da travessia.
Segundo o órgão, Flávio Bolsonaro, sua esposa Fernanda Antunes Figueira Bolsonaro e as filhas Carolina e Luiza cruzaram a fronteira às 22h50 (hora local) de terça-feira, entrando em território argentino pela Ponte Internacional Tancredo Neves.
Em uma mensagem publicada na rede X, as autoridades argentinas ressaltaram que todos apresentaram documentação considerada regular e não possuíam impedimentos legais para entrar no país.
Pouco depois, às 23h30 (hora local), a família embarcou em uma aeronave privada operada pela empresa Baires Fly S.A., com destino à cidade equatoriana de Guayaquil.
Escala no Equador e chegada à Flórida
Jornalistas em Guayaquil acompanharam a breve passagem da aeronave pelo Equador. O avião procedente de Puerto Iguazú realizou apenas uma rápida escala para abastecimento antes de decolar novamente em direção aos Estados Unidos.
Após horas de especulação sobre o destino final da viagem, a chegada de Flávio Bolsonaro ao aeroporto de Opa-locka, na região metropolitana de Miami, foi confirmada.
A localização exata do senador havia sido objeto de intensos debates ao longo das últimas 24 horas, especialmente após reportagens de veículos norte-americanos indicarem que ele pretendia buscar refúgio nos Estados Unidos.
Passaportes cancelados e cidadania italiana
A viagem ocorreu em meio a uma disputa jurídica envolvendo o senador. Flávio Bolsonaro havia afirmado na segunda-feira que cumpriria uma ordem judicial para entregar seus passaportes às autoridades brasileiras. Segundo uma fonte policial ouvida pela AFP, isso não aconteceu.
Na terça-feira, seus documentos de viagem foram cancelados pelas autoridades brasileiras, incluindo o passaporte diplomático ao qual tinha direito por exercer mandato parlamentar.
O senador possui cidadania italiana desde 2023, conforme documento do Parlamento italiano consultado pela agência.
Paralelo inevitável com Jair Bolsonaro
A fuga de Flávio Bolsonaro reativou na imprensa internacional as comparações com o caminho percorrido por seu pai em 2022. Após perder a eleição para Lula, Jair Bolsonaro deixou o Brasil sem reconhecer a derrota e embarcou para os Estados Unidos na véspera da posse do adversário.
Meses depois, retornou ao país. Atualmente, o ex-presidente cumpre pena em prisão domiciliar após condenação por tentativa de golpe de Estado.
Para muitos jornais europeus, a história acompanhada nesta quarta-feira não foi apenas a fuga de um político derrotado nas urnas. Foi, sobretudo, a repetição de um roteiro familiar já conhecido da política brasileira recente.
Com AFP