'Só quero respirar': ialorixá vê 'fascismo religioso' às vésperas das eleições no Brasil

À frente do Ilê Axé Oxum Omolú, em Pindoretama, município da Região Metropolitana de Fortaleza, a ialorixá Mirela acompanha a eleição presidencial de 2026 com uma reivindicação que considera elementar: poder exercer sua fé sem medo. Responsável também por um projeto sociocultural que atende centenas de crianças, adolescentes e famílias da região, ela denuncia o avanço do que define como "fascismo religioso" contra os terreiros de matriz africana, nas vésperas do primeiro turno das eleições.

30 set 2026 - 14h56
(atualizado às 15h35)
Resumo
Às vésperas da eleição presidencial, a ialorixá cearense Mirela denuncia o avanço do fascismo e da violência religiosa contra povos de terreiro e minorias. Líder de um centro com forte atuação social, ela relata o medo constante de ataques e depredações, apontando mulheres como alvos prioritários. Em meio ao debate político e à alta de denúncias de intolerância contra religiões de matriz africana, ela reivindica o direito básico de professar sua fé e preservar sua ancestralidade em paz.

Márcia Bechara, enviada especial da RFI a Fortaleza

Entre mangueiras carregadas à espera da safra de outubro e os canaviais que ajudaram a tornar a cidade conhecida, segundo o Guinnness, pela produção da maior rapadura do mundo, a ialorixá Mirela formula um desejo simples às vésperas do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026. Ela não fala de inflação, mercado ou alianças partidárias. O que espera do próximo presidente da República é poder continuar honrando sua ancestralidade em paz: "Eu espero respirar", diz, quando perguntanda acerca de suas expectativas sobre o resultado das eleições.

Publicidade

À frente do Ilê Axé Oxum Omolú, em Pindoretama, na Região Metropolitana de Fortaleza, a ialorixá Mirela acompanha a eleição presidencial de 2026 com uma reivindicação que considera elementar: poder exercer sua fé sem medo. Responsável também por uma associação sociocultural que atende centenas de moradores da comunidade do Pratiú, ela diz observar com apreensão o avanço do que chama de "fascismo religioso" contra os povos de terreiro, e denuncia a transformação da fé em instrumento de perseguição contra aqueles que professam religiões historicamente associadas à população negra brasileira.

Mirela afirma que acompanha com preocupação ataques registrados contra espaços religiosos de diferentes tradições e teme que o ambiente se torne ainda mais hostil para grupos historicamente vulneráveis. "Os cristãos católicos não são minoria e estão tendo os seus espaços, o seu sagrado, vilipediado, quebrado, invadido. E como ficarão os terreiros que não têm esse suporte?", questiona. 

Quando fala sobre a eleição presidencial, a ialorixá procura ampliar a discussão para além das religiões de matriz africana. Em sua avaliação, indígenas, quilombolas, ciganos e outras comunidades tradicionais enfrentam desafios semelhantes relacionados à preservação de seus territórios, de suas crenças e de seus modos de vida. O que está em jogo, afirma, é a garantia de direitos fundamentais, "a garantia de você pisar na terra que lhe pertence, poder cultuar os seus ancestrais de boa e não ser violentada".

Fé não pode ser 'cega'

A preocupação ganhou contornos concretos até mesmo na construção da sede religiosa. Ao longo da conversa, ela aponta paredes, salões e anexos erguidos coletivamente pelos integrantes da casa e explica que o medo acabou influenciando decisões que deveriam ser apenas arquitetônicas. Mirela sonhava cobrir parte do espaço com um telhado de palha de carnaúba, solução tradicional em muitos terreiros nordestinos, mas desistiu da ideia diante da possibilidade de ataques. Como afirma, "a gente aprende que a fé não pode ser cega" e existe sempre o receio de que "de repente jogam de lá um coquetel molotov e acabem com a casa".

Publicidade

A discussão levantada pela ialorixá ressurge num momento em que a religião voltou a ocupar o centro da campanha presidencial. Nos últimos dias, uma controvérsia envolvendo o candidato do PL, Flávio Bolsonaro, e Nossa Senhora Aparecida mobilizou lideranças religiosas, campanhas, redes sociais e até pedidos públicos de retratação. Embora não exista proposta em tramitação para retirar da santa o título de padroeira do Brasil, a polêmica bastou para reabrir um debate recorrente na política brasileira: a disputa em torno dos símbolos religiosos e de seu lugar na esfera pública.

Os números da intolerância

Desde o fim da década passada, episódios de destruição de terreiros, ameaças a mães e pais de santo e discursos públicos de demonização dessas religiões passaram a ocupar espaço crescente no debate público brasileiro. Em 2019, entidades de direitos humanos reportaram à ONU uma sequência de casos envolvendo apedrejamentos, incêndios criminosos, depredações e discursos de ódio dirigidos às religiões afro-brasileiras. 

Os números mais recentes ajudam a explicar a inquietação. Dados do Disque 100 mostram que as religiões de matriz africana seguem concentrando a maior parte das denúncias identificadas por religião, com destaque para a umbanda e o candomblé. Outra pesquisa nacional realizada com centenas de terreiros apontou que a grande maioria das casas religiosas entrevistadas relatou ter sofrido algum tipo de racismo religioso ou violência nos últimos anos. 

À frente do Ilê Axé Oxum Omolú, em Pindoretama, município da Região Metropolitana de Fortaleza, a ialorixá Mirela acompanha a eleição presidencial de 2026.
À frente do Ilê Axé Oxum Omolú, em Pindoretama, município da Região Metropolitana de Fortaleza, a ialorixá Mirela acompanha a eleição presidencial de 2026.
Foto: RFI

Mulheres são alvo

Enquanto percorre os espaços do terreiro, que também desenvolve ações sociais voltadas à comunidade local, Mirela relata que as mulheres ocupam uma posição particularmente vulnerável nesse cenário. Segundo ela, os terreiros dirigidos por mulheres ialorixás costumam ser "alvo preferencial de ataques, ofensas e intimidações. "Não se trata apenas da rejeição a uma crença, afirma, mas também de uma violência dirigida contra mulheres que exercem liderança religiosa, comunitária e política em seus territórios", diz.

Publicidade

Aos 15 anos de atuação no local, a sacerdotisa viu o terreiro se transformar também numa rede de proteção social. Durante a pandemia, a prioridade deixou de ser apenas a manutenção das atividades religiosas para se concentrar na distribuição de alimentos. Com apoio de parceiros e doações, a associação buscava produtos na Ceasa, recebia remessas do Mesa Brasil e organizava entregas para famílias em situação de vulnerabilidade. "A nossa maior preocupação era a alimentação mesmo", afirma.

As ações se ampliaram após o período mais crítico da crise sanitária. Hoje, a associação desenvolve atividades voltadas a crianças, adolescentes e mulheres da comunidade. Um dos projetos mais conhecidos é o Tempo de Brincar, realizado anualmente e frequentado por cerca de 200 crianças. Outra iniciativa recente reuniu 20 mulheres da comunidade em um curso de corte e costura realizado em parceria com a Secretaria da Proteção Social do Ceará. As participantes receberam formação profissional e, ao final, máquinas de costura para dar continuidade à atividade. Segundo Mirela, o grupo começou e concluiu o curso com o mesmo número de inscritas. "Nós começamos o curso com 20 mulheres, terminamos com as 20 mulheres."

A associação também mantém atividades voltadas a adolescentes em privação de liberdade. A parceria surgiu a partir de um convite da Secretaria da Igualdade Racial e inclui oficinas sobre identidade, ancestralidade e racismo religioso. Em um dos encontros, inspirados no conceito de ori, associado à cabeça na tradição iorubá, as jovens foram convidadas a modelar em argila representações de si mesmas. "Cada uma fez a sua cabeça, refez o seu ori", relata a ialorixá.

A preocupação manifestada por Mirela ocorre em um contexto de aumento das discussões sobre intolerância religiosa no país. Levantamentos sobre conflitos envolvendo povos de terreiro registraram, nos últimos anos, casos de invasões, depredações, incêndios criminosos, ameaças e agressões contra espaços religiosos e lideranças de matriz africana. Um estudo da Universidade Federal Fluminense identificou os ataques a terreiros como uma das formas mais recorrentes de violência contra essas comunidades.

Publicidade

À sombra das árvores do Ilê Axé Oxum Omolú, porém, as estatísticas ganham rosto. Para Mirela, a eleição presidencial não é apenas uma disputa de projetos de governo. É também um teste sobre a capacidade da democracia brasileira de garantir que diferentes formas de fé possam coexistir sem medo. Seu pedido, repetido em diferentes momentos da conversa, é menos político do que existencial: continuar abrindo os portões do terreiro, tocando os atabaques e acolhendo a comunidade sem que isso represente um risco.

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
TAGS
Curtiu? Fique por dentro das principais notícias através do nosso ZAP
Inscreva-se