Luiza Ramos, da RFI em Paris
Embora Paris abrigue desde 1986 a tradicional Livraria Portuguesa e Brasileira, a Sabiá Arte e Cultura é o primeiro espaço dedicado exclusivamente à produção cultural do Brasil. O local de 14m² possui uma área externa calma e agradável, onde o empreendedor paulista compartilha vários elementos que lembram o Brasil sem parecer burlesco.
Anderson Vital realiza um sonho cultivado desde a adolescência. Nascido na zona leste de São Paulo, ele vive na França há seis anos, onde trabalha como iluminador de espetáculos teatrais. O projeto da Sabiá nasceu da combinação entre a paixão pelos livros e a saudade do Brasil.
"Eu comecei a sentir falta da minha cultura brasileira, porque fiquei trabalhando muito tempo com os franceses", conta. "Também trabalhei num sebo na adolescência e sou apaixonado por livro, literatura".
Para concretizar a ideia, Vital contou com um programa da Prefeitura de Paris voltado para a ocupação comercial de espaços da cidade. Após apresentar um projeto cultural e passar por entrevistas, recebeu a autorização para ocupar uma pequena loja no Village Saint-Paul, no coração do Marais.
Uma extensão da própria casa
"Eu gosto de falar que a loja Sabiá Arte e Cultura é um pouco minha sala de casa, porque está cheia de livros, cheia de discos e obras de arte", diz.
O espaço reúne, além dos clássicos, obras oriundas da parceria de Anderson com seis artistas brasileiros, além de trabalhos de uma fotógrafa. A proposta é servir de vitrine para criadores brasileiros e criar conexões com a comunidade artística do país que vive na França.
A seleção de títulos, discos e artistas é feita pelo próprio fundador. E a curadoria segue uma linha bem definida.
"Eu quero trazer mais a nossa cultura afro-brasileira, nossa cultura indígena, a nossa floresta, a nossa cultura popular, que é muito rica", explica. "Quero mais profundidade. Quero mostrar para os franceses e para o público internacional a nossa cultura social, a nossa antropologia brasileira".
Franceses e turistas descobrem o Brasil
Apesar de ter aberto as portas há apenas algumas semanas, a Sabiá já atrai um público bastante diverso. A localização, em uma área turística de Paris, favorece a chegada de visitantes de várias nacionalidades.
"Tem russo, americano, canadense, chinês e tem o público francês também", afirma. Segundo ele, os franceses têm demonstrado um interesse especial pela cultura brasileira.
Nawell, um turista canadense que passeava com a esposa em Paris, encontrou a Sabiá por acaso e se interessou ainda mais pela cultura brasileira.
"É muito legal, muito legal! Eu conheço muito pouco da cultura e música brasileira, mas eu acho bem legal este espaço. É bem bonito e bastante tranquilo. Eu tenho um amigo que foi ao Brasil, e disse que foi fantástico para férias. Eu nunca fui ao Brasil, mas está na minha lista. Este espaço é genial!", diz.
Para Anderson, um dos aspectos mais gratificantes é apresentar artistas e autores brasileiros a pessoas que, muitas vezes, têm pouco contato com a produção cultural do país. "Às vezes o pessoal não conhece muito, mas eu ofereço essa oportunidade de descobrir. Mostro os livros, mostro os discos, faço escutar também", descreve.
De sebo paulistano a livraria em Paris
A relação de Anderson com os livros começou cedo. Aos 14 anos, ele conseguiu o primeiro emprego em um sebo de São Paulo, experiência que considera decisiva para o surgimento da Sabiá. Durante quatro anos, trabalhou ao lado do proprietário do estabelecimento, aprendendo não apenas a comprar e vender livros, mas também a restaurar obras antigas.
"Foi o meu grande lugar", recorda. "Tinha pessoas que chegavam para falar só de cinema e ficavam horas conversando comigo. Outras traziam livros e diziam: 'Você tem que ler isso'. Era um grande aprendizado."
Cartola lidera as vendas de discos
Entre as preciosidades disponíveis na loja estão edições dedicadas a artistas como Carybé, Miguel Rio Branco e Sebastião Salgado, além de uma seleção de discos de música brasileira garimpada pessoalmente por Anderson em feiras de vinil em São Paulo: "Eu acordava às quatro da manhã para ir à feira de discos e tentar encontrar boas peças", conta.
Nas prateleiras, há nomes como Tom Zé, Jards Macalé, Caetano Veloso, Antônio Carlos Jobim, Heitor Villa-Lobos e Cartola. O sambista carioca, aliás, tornou-se uma surpresa para o livreiro.
"O Cartola é o nosso campeão de vendas aqui. Todo mundo adora o Cartola", diz.
Programação e eventos
A ambição de Anderson nunca foi limitar a Sabiá ao universo dos livros. Desde a inauguração, o espaço recebeu o lançamento de uma obra da escritora Dora Fund, uma leitura de poemas de Walt Whitman conduzida por Ed Flanders, vocalista da banda Vanguart, e atividades ligadas à Festa da Música, celebrada anualmente na França.
Os próximos planos incluem o lançamento de um álbum de um músico brasileiro radicado na França e a organização de um festival de cinema brasileiro."Nossa busca e nossa curadoria vão nesse caminho: teatro, cinema, música, literatura brasileira".
Enquanto amplia a programação, Anderson segue fiel ao objetivo que motivou a criação da Sabiá: compartilhar com franceses, turistas e brasileiros um retrato mais amplo da riqueza cultural do país.
"Eu acho que minha missão é compartilhar com o público a minha paixão, o nosso Brasil e tudo que a gente tem de bom."