Um vídeo revelou o ministro Alexandre de Moraes e sua esposa, Viviane Barci, desembarcando de um jatinho ligado a Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master investigado por fraudes. O registro contradiz declarações anteriores do ministro de que nunca viajara em aviões do empresário. A defesa de Barci confirmou os voos como serviço de táxi aéreo regular, negando laços com Vorcaro, enquanto a Polícia Federal apura contratos milionários do banco com o escritório da advogada editados pelo magistrado.
Um vídeo gravado no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, mostra o desembarque do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e sua mulher, a advogada Viviane Barci.
A gravação, realizada no dia 22 de agosto do ano passado, e noticiada pelo jornal O Globo, mostra os passageiros deixando uma aeronave que pertencia à empresa Prime You, ligada a Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master.
O vídeo vai de encontro às alegações do ministro, que já afirmou, em nota de abril deste ano, que "jamais viajou em nenhum avião" do ex-banqueiro investigado por fraudes financeiras. No entanto, o escritório de Viviane, Barci de Moraes, informou este domingo, 20, também em nota, "que contrata serviços de táxi aéreo de diferentes empresas, entre elas a Prime Aviation".
A empresa afirma que em "em determinados voos, Viviane Barci de Moraes foi acompanhada por seu marido, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF)". "Nenhum dos voos realizados em aeronaves da Prime Aviation com integrantes do escritório esteve presente Daniel Vorcaro ou qualquer outra pessoa alheia ao escritório", completa a nota. (leia mais abaixo)
O gabinete do ministro foi procurado pelo Estadão neste domingo e aguarda retorno.
A Prime You é uma empresa do grupo Prime Aviation que oferece propriedade compartilhada de aviões e teve participação de Vorcaro até setembro de 2025.
O relatório da Polícia Federal sobre as relações de Moraes com Vorcaro, revelado pelo Estadão, mostra que o ex-banqueiro chegou a elaborar um contrato de R$ 50 milhões para ceder cotas de suas aeronaves à esposa do magistrado. O escritório dela alega que essa proposta jamais foi assinada, sendo extinta com a liquidação do Banco Master.
Em 22 de agosto de 2025, no mesmo dia em que o vídeo teria sido gravado, Moraes participou de um fórum organizado pelo Grupo de Líderes Empresariais (Lide), entidade que reúne executivos de grandes empresas, no Rio. O ministro foi painelista da conferência intitulada de "O Brasil de hoje e o Brasil do amanhã".
Imagens registradas do fórum mostram Moraes e a esposa com roupas parecidas às registradas na gravação obtida pelo Globo. Moraes está de terno preto e Viviane, com um um conjunto bege.
Naquele dia, Moraes deu uma indireta ao colega André Mendonça, que, horas antes, no mesmo evento, havia dito que o Poder Judiciário precisava de "autocontenção". Sem citar o nome do colega, Moraes disse que "somente nas autocracias o autocrata pode querer exercer sua liberdade sem limites e não ser responsabilizado".
Além do acordo de cessão de cotas das aeronaves, a esposa do ministro detinha um contrato de R$ 131 milhões com o Master para a prestação de serviços jurídicos. Como mostrou o Estadão, os valores previstos no contrato estão muito acima do que é cobrado pela média do mercado. A Polícia Federal constatou que documento foi editado por Moraes.
'Não deixe de atender Barci', disse Vorcaro na véspera da data atribuída à gravação
Segundo O Globo, a aeronave que aparece na gravação tem o prefixo PP-NLR. De acordo com a Polícia Federal, em 21 de agosto de 2025, véspera da gravação obtida pelo jornal, Daniel Vorcaro conversou com um contato denominado "Thatiane Prime", que, segundo as investigações, era uma funcionária da Prime You, responsável pelo agenciamento das viagens do banqueiro.
Vorcaro pediu informações sobre o fretamento de um voo de Brasília a Roraima. Thatiana, em resposta, encaminha mensagens de um contato não identificado.
A mensagem encaminhada afirma que o fretamento do voo seria possível com a aeronave de prefixo PP-NLR, porém, no dia seguinte, esse mesmo avião já estava comprometido com outro trajeto. "Temos o voo da Barci no PP-NLR, decolando do Catarina às 13:00", disse o contato.
Catarina, possivelmente, refere-se ao Aeroporto Executivo São Paulo Catarina, em São Roque, no interior de São Paulo. Em resposta, Vorcaro pediu prioridade para o voo marcado. "Não deixe de atender Barci", disse o então banqueiro.
Na nota do escritório Barci de Moraes, a empresa diz ainda que a contratação dos serviços de táxi aéreo segue "critérios operacionais e não envolve qualquer vínculo pessoal com proprietários de aeronaves ou operadores específicos".
Veja a nota na íntegra do Barci de Moraes:
O escritório Barci de Moraes informa que contrata serviços de táxi aéreo de diferentes empresas, entre elas a Prime Aviation, cujos serviços foram utilizados em determinadas ocasiões.
Em nenhum dos voos realizados em aeronaves da Prime Aviation com integrantes do escritório esteve presente Daniel Vorcaro ou qualquer outra pessoa alheia ao escritório. Em determinados voos, Viviane Barci de Moraes foi acompanhada por seu marido, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
A contratação dos serviços de táxi aéreo segue critérios operacionais e não envolve qualquer vínculo pessoal com proprietários de aeronaves ou operadores específicos. A escolha das aeronaves utilizadas cabe às próprias empresas de aviação civil contratadas, neste caso, a Prime Aviation.
O escritório Barci de Moraes reitera que não possui contrato de prestação de serviços advocatícios com a Prime Aviation, tampouco realizou qualquer aquisição de cotas da empresa.
Um levantamento do jornal Folha de S.Paulo e confirmado pelo Estadão mostrou que Moraes e Viviane pegaram ao menos oito voos ligados às empresas de Vorcaro entre maio e outubro de 2025. O cruzamento levou em conta somente os trajetos cuja origem foi o Aeroporto de Brasília.
Na semana passada a sessão do STF para decidir sobre a abertura de investigação contra Alexandre de Moraes por envolvimento com Vorcaro foi suspensa após um pedido de vista do ministro Flávio Dino.
A sessão foi marcada por agressões verbais e divisão da Corte. A ministra Cármen Lúcia manifestou profunda consternação com a imagem que o tribunal estava passando para a sociedade.