O que estão compartilhando: postagens em redes sociais alegam que o Super El Niño é uma mentira, e que a influência humana no clima global é irrelevante.
O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é falso. O Super El Niño é um evento climático real e monitorado internacionalmente há séculos, com registros de um fenômeno desse porte em 1877, de acordo com a American Meteorological Society. Embora se trate de um fenômeno natural e cíclico, a intensidade e a gravidade de seus impactos são potencializadas pelas emissões humanas de gases de efeito estufa, segundo especialistas ouvidos nesta reportagem.
Sonaira Silva, doutora em Ciências de Florestas Tropicais pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e afiliada à Academia Brasileira de Ciências, disse que o fenômeno sempre ocorreu naturalmente, mas a intensidade dos eventos atuais e a dimensão de seus impactos sofrem impacto direto da ação humana. "O que vemos nos dados é que emitimos muitos gases de efeito estufa, principalmente o CO2, por conta dos combustíveis fósseis", explicou. "Isso aquece a atmosfera global e ocasiona não só o aquecimento anormal do Oceano Pacífico, causador do El Niño, mas de todos os oceanos do planeta."
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O conteúdo que circula nas redes sociais indica que a humanidade alterou apenas 6% da superfície terrestre e que, com esse baixo índice, não seria possível influenciar o clima do planeta. Essa alegação é falsa, como aponta Eliana Fonseca, pesquisadora do Centro Polar e Climático e da iniciativa MapBiomas. "Na ciência, não há um número exato que crave o impacto humano na alteração terrestre, então essa informação é falsa. Na verdade, se fôssemos chegar a um número, nosso impacto seria consideravelmente maior."
A especialista destacou que a intensa supressão da vegetação nativa ao longo dos séculos, a exemplo da Mata Atlântica — que originalmente cobria vasta extensão do território brasileiro, mas foi drasticamente reduzida —, alterou de forma profunda a troca de energia entre a superfície da Terra e a atmosfera. "Nós mudamos tanto a cobertura terrestre que acabamos alterando a relação do planeta com a atmosfera. A influência das atividades humanas nos padrões climáticos e ambientais é tão expressiva que a ciência classifica a atual época geológica como Antropoceno, definida justamente pela nossa presença e impacto no planeta."
Essa profunda alteração na dinâmica do planeta é impulsionada, principalmente, pela alta emissão de gases de efeito estufa, como detalhou Sonaira Silva. Ela explicou que a exploração de combustíveis fósseis retira do subsolo grandes estoques de carbono acumulados historicamente. "O gás carbônico atua como um retentor de calor no nosso planeta. Ele não bloqueia a entrada de calor pelo Sol, mas cria uma camada na atmosfera que prende esse calor ao ser dissipado de volta para o espaço."
A especialista ressaltou que, embora o efeito estufa seja um processo natural e essencial para a vida na Terra, o excesso de CO2 tem potencializado essa retenção, esquentando o globo acima da média. Como o planeta funciona como um "ciclo fechado", esse acúmulo de energia térmica interage com os oceanos e desequilibra todo o sistema.
Sonaira observou que o atual aquecimento atinge não apenas o Pacífico Equatorial — onde o El Niño se forma —, mas as águas do mundo todo. Isso gera um "efeito somatório" que exacerba os extremos climáticos, provocando desde ondas de calor até tempestades repentinas.
Monitoramento contínuo por agências internacionais e nacionais
As pesquisadoras explicaram que os fenômenos climáticos e os possíveis impactos causados por atividades humanas são medidos constantemente por organizações e agências internacionais ou nacionais. Por meio de medições diárias e periódicas da temperatura de todos os oceanos do mundo, feitas in loco e por satélites, os cientistas estabelecem a média histórica do planeta.
No Brasil, por exemplo, atuam órgãos como o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). No âmbito internacional, esse monitoramento é realizado por entidades como a Organização Meteorológica Mundial (OMM) e a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA). "Não é um trabalho de achismo, de pegar um dado de um período de tempo; é a consistência de analisar décadas de dados para ver realmente o quanto estamos variando ou mudando o nosso clima nesse tempo que analisamos", afirmou Sonaira.
Ela explicou que, a partir desse vasto banco de dados, ocorrem as classificações de anomalias, como o Super El Niño, registrado quando o aquecimento fica acima de 2°C em relação à média.
Eliana Fonseca destacou que esse monitoramento constante revela uma trajetória inequívoca de mudança na composição da atmosfera terrestre. Segundo a pesquisadora do Centro Polar e Climático, a análise de longo prazo documenta de forma direta o registro de temperaturas cada vez mais elevadas e o forte incremento na concentração de gases.
Essas transformações desenham uma linha de aquecimento crescente. As especialistas destacaram, ainda, que esse diagnóstico — evidenciado pelas estatísticas regionais e globais — não é uma opinião isolada, mas um consenso científico consolidado pelas constantes revisões de dados do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).
Como reflexo prático desse cenário, julho de 2026 bateu recordes históricos de calor em várias regiões do planeta, incluindo a Europa Ocidental e os Estados Unidos.