Marcha de Nikolas começa fria, cresce e agita redes após articulação Michelle-Tarcísio por Bolsonaro

Caminhada de Paracatu (MG) a Brasília começa com 40 pessoas, ganha adesão ao longo do trajeto e visa dar resposta a críticas de que parlamentares 'não fazem nada' pelo ex-presidente

23 jan 2026 - 07h26

BRASÍLIA - A marcha liderada pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), que deve chegar a Brasília no domingo, 25, para protestar contra a prisão de Jair Bolsonaro (PL), começou fria, esquentou ao longo da semana e agitou as redes sociais dias após o bolsonarismo ser cobrado pela falta de mobilização pelo ex-presidente.

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Na semana passada, o ministro do Supremo Tribunal Federa (STF) Alexandre de Moraes autorizou a transferência de Bolsonaro da prisão na Polícia Federal para uma cela maior e mais confortável no presídio da Papudinha, também em Brasília.

Primeiro dia da marcha do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) a Brasília reuniu cerca de 40 pessoas; número aumentou ao longo do trajeto
Primeiro dia da marcha do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) a Brasília reuniu cerca de 40 pessoas; número aumentou ao longo do trajeto
Foto: Divulgação / Estadão

A decisão de Moraes se deu após articulação da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), com ministros da Corte, o que deslocou a pressão da dupla para os parlamentares.

Uma pessoa próxima à família Bolsonaro disse ao Estadão que a articulação de Michelle e Tarcísio contrasta com a dos aliados que costumam criticá-los por razões diversas. O episódio mostra, segundo esse aliado, que "enquanto tem gente fazendo barulho, tem gente séria trabalhando nos bastidores visando o melhor para o presidente Bolsonaro".

Parlamentares sentiram a cobrança. Dias depois de a articulação por Bolsonaro ser exposta, lideranças passaram a se defender na internet. O deputado Gustavo Gayer (PL-GO), um dos primeiros a se juntar à caminhada, publicou um "desabafo de algo que precisa ser dito".

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"Estamos trabalhando todos os dias para ajudar Bolsonaro, Flávio Bolsonaro e garantir que a liberdade dos prisioneiros políticos. Atuar nas redes sociais não nos impede de atuar nos bastidores e fazer tudo que está ao nosso alcance para alcançarmos esses objetivos, mas sair das redes é exatamente o que o PT e o sistema mais quer", escreveu nas redes sociais.

Nikolas anunciou na segunda-feira, 19, a marcha como um "ato simbólico" para "trazer esperança àqueles que já desistiram e desanimaram", apontando uma preocupação com a falta de mobilização na direita a nove meses das eleições.

"Não é só de vocês esse sentimento de impotência perante as prisões injustas do 8 de Janeiro, a própria prisão do Bolsonaro, com relação aos escândalos, este governo, o STF. Eu tenho orado para que Deus me desse uma ideia do que fazer. Por isso, eu decidi caminhar até Brasília para um ato simbólico para poder trazer luz a todos os atos que estão acontecendo", declarou num vídeo publicado na internet.

A caminhada saiu de Paracatu, município de 94 mil habitantes no noroeste de Minas Gerais, na segunda-feira e deve chegar a Brasília no domingo. Duzentos e cinquenta quilômetros separam as duas cidades.

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No primeiro dia, cerca de 40 pessoas se deslocaram pela BR-040, segundo imagens aéreas feitas pelos participantes. O grupo cresceu nos dias seguintes, atingindo centenas de pessoas. Nem todo mundo fará o percurso completo.

Lideranças como o ex-vereador Carlos Bolsonaro (PL-SC), os deputados federais Maurício do Vôlei (PL-MG), Zé Trovão (PL-SC), André Fernandes (PL-CE), Luciano Zucco (PL-RS), Delegado Caveira (PL-PA), Carlos Jordy (PL-RJ) e os senadores Magno Malta (PL-ES) e Marcos do Val (Podemos-ES), entre outros, se juntaram à marcha.

Michelle Bolsonaro também endossou o ato. "Você é um grande líder, @nikolasferreiradm! Deus te levantou para este tempo; você é um instrumento de Deus para essa geração", escreveu ela numa redes social, ao compartilhar a imagem de Nikolas segurando uma criança nos ombros durante a marcha.

Participantes da caminhada relataram ao Estadão um clima de "união", e que foram convidados até mesmo políticos de centro e centro-direita, não tão afeitos às pautas do bolsonarismo. Por conta do cansaço, há pouca conversa durante a caminhada, com exceção das paradas - a meta é percorrer ao menos 33 quilômetros por dia, para chegar ao destino na data prevista.

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Uma pessoa da cúpula do Partido Liberal diz, sob reserva, que a marcha é para "calar o fogo amigo", uma resposta a grupos que direita que vinham criticando os parlamentares por supostamente "não fazerem nada pelo Bolsonaro".

A deputada federal Bia Kicis (PL-DF), que permaneceu em Brasília, diz que o protesto nada tem a ver com a articulação de Michelle e Tarcísio, mas que havia certa cobrança por parte da militância. "As redes estavam clamando aos parlamentares por mais mobilização de rua", afirma ela.

A repercussão da caminhada tomou as redes sociais na direita. Um monitoramento da consultoria Palver, que monitora mais de 110 mil grupos públicos de mensageria, aponta que o assunto atingiu cerca de 5 milhões de perfis distintos entre a segunda e a manhã desta quinta-feira, 22, segundo a agência Lupa.

Na medida em que passa o tempo de Bolsonaro na prisão, lideranças da direita têm sido cobradas pela militância e mesmo fustigadas por críticas de aliados pelo grau de apoio que dão à pauta de libertação do ex-presidente e de presos do 8 de Janeiro.

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A articulação encabeçada por Michelle e Tarcísio para transferir Bolsonaro de prisão ocorreu numa semana em que os dois estiveram sob artilharia de críticas da militância e de aliados.

A esposa do governador, Cristiane Freitas, por exemplo, estava sendo criticada por ter demonstrado apoio a uma eventual pré-candidatura presidencial do marido. Michelle, por sua vez, virou alvo de lideranças da direita por republicar um conteúdo em tom eleitoral feito por Tarcísio.

A movimentação da dupla passou incólume ao conhecimento dos filhos de Bolsonaro como o ex-deputado Eduardo e Flávio, diz essa pessoa, o que mostra o distanciamento entre dois grupos que têm estratégias diferentes para lidar com a prisão do ex-presidente.

Enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) lidera as principais pesquisas de intenção de voto para se manter no Palácio do Planalto, o bolsonarismo trabalha para reativar sua base, agora sem Bolsonaro, e fazer crescer a onda que pode levar a direita de volta ao poder.

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