Aliados de Flávio Bolsonaro defendem que o candidato mude de postura para o debate da TV Globo contra Lula, reduzindo a agressividade e focando em propostas e dados, sobretudo em Saúde e Economia. A estratégia anterior, marcada por provocações e busca por cortes nas redes, dividiu a campanha e gerou queixas de eleitores pela falta de conteúdo, além de passar uma imagem evasiva. Visto como decisivo antes da votação, o próximo encontro exigirá mais moderação para atrair eleitores indecisos.
SÃO PAULO e BRASÍLIA - A estratégia adotada por Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no debate deste domingo, 18, o primeiro em que enfrentou diretamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), dividiu aliados do senador, e integrantes da campanha já discutem como calibrar a atuação do candidato para o próximo confronto, marcado para sexta-feira, 23, na TV Globo.
Segundo apurou o Estadão, há um consenso entre integrantes da campanha de que Flávio precisa dar mais espaço à apresentação de propostas e reforçar a imagem de moderado. A avaliação é de que o senador deve evitar o tom agressivo adotado no último domingo, levar mais números e dados ao debate e explorar as fragilidades do atual governo. A orientação também é questionar mais Lula, que conseguiu deixar Flávio desconfortável ao cobrar explicações sobre suas posições em votações no Senado e na Alerj.
Como mostrou pesquisa qualitativa realizada pelo instituto Travessia a pedido do Estadão, eleitores se queixaram da ausência de propostas no debate. Mesmo entre os apoiadores do senador, houve críticas à falta de detalhamento de medidas para áreas como Saúde e Economia. Alguns participantes consideraram Flávio "vago" demais.
Os momentos mais bem avaliados do candidato do PL na noite de domingo foram justamente aqueles em que apresentou propostas para a segurança pública. Entre as medidas que tiveram boa receptividade estão o fim das saídas temporárias de presos, as chamadas "saidinhas", e a castração química de abusadores. Foi justamente esse o corte publicado pela equipe de Flávio no Instagram com maior quantidade de visualizações: 7,2 milhões.
Para o próximo debate, considerado decisivo em uma disputa apertada, Flávio pretende dedicar mais tempo à sua preparação. Segundo pessoas próximas ao senador, ele reservará quinta e sexta para treinar possíveis perguntas e respostas. Neste domingo, antes de enfrentar Lula, o senador participou de uma manifestação na Avenida Paulista, em São Paulo.
A estratégia de adotar um tom provocativo e apostar em frases de efeito para gerar cortes nas redes sociais divide aliados do senador. Parte deles atribui essa abordagem à influência de figuras como Pablo Marçal, Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato - os dois últimos, eleitos deputados federais - e considera que a estratégia pode afastar eleitores indecisos e transmitir uma imagem de arrogância. Outros, no entanto, defendem manter as provocações para desestabilizar Lula e induzi-lo ao erro.
Seus aliados querem que o senador se coloque mais propositivo, trate de suas promessas de campanha e leve dados e números ao debate, com menos ataques pessoais e acusações contra Lula. E também querem que ele repita a estratégia, executada pelo presidente no domingo passado, de questionar o oponente sobre assuntos delicados.
Isso porque Flávio saiu do debate Band/Estadão, para muitas pessoas, com a pecha de "ensaboado" após fugir e se esquivar de perguntas feitas por Lula, como o destino dos R$ 134 milhões pedidos a Daniel Vorcaro, o caso Ana Clara (menina de 5 anos morta por PM defendido por Flávio Bolsonaro) e direitos das mulheres, entre outras.
Alguns membros de sua campanha criticam o foco considerado excessivo na menção ao eventual Ministério da Prosperidade (a proposta recebeu comentários debochados na entrevista qualitativa mencionada acima), à brincadeira de escrever "corrupto" na palma da mão para provocar Lula e o "estilo Pablo Marçal" de obstrução do debate.
Com o debate do segundo turno a menos de 48 horas da votação, o desempenho no programa deve ter maior influência que os demais, uma vez que deslizes, gafes e mal entendidos dificilmente serão corrigidos pela comunicação oficial a tempo das urnas se abrirem. Por isso, o evento é visto como crucial.