BRASÍLIA — Enquanto o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o ex-governador goiano Ronaldo Caiado (PSD) poupam munição contra o Supremo Tribunal Federal (STF), Romeu Zema (Novo) vem abrindo fogo contra os ministros da Corte, firmando-se como o presidenciável anti-sistema.
A ofensiva de Zema contra o que ele chama de "intocáveis de Brasília", com críticas e sátiras, levou o ministro Gilmar Mendes a pedir a inclusão do ex-governador de Minas Gerais no inquérito das Fake News, que investiga ataques contra a democracia e integrantes da Corte, na última segunda-feira, 20.
O movimento de Gilmar provocou uma onda de solidariedade a Zema, mas pouco veio de Flávio e Caiado. Na noite da quarta-feira, 22, o líder da oposição na Câmara, Gilberto Silva (PL-PB), convocou uma coletiva de imprensa para anunciar um pedido de impeachment contra o ministro em razão da atitude.
A postura de Zema difere dos demais — e tem incomodado aqueles que defendem maior beligerância de Flávio contra o STF e especialmente o ministro Alexandre de Moraes, considerado algoz do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Um levantamento do Estadão identificou que cinco dos 36 tuítes (13,8%) de Flávio nos últimos sete dias fazem referência ao STF ou a seus integrantes, enquanto entre os de Zema são 48 entre 59 (81,3%) sobre o assunto. Caiado nem sequer tocou no assunto em sua conta no X: não há menção ao STF nem a qualquer ministro.
A frequência de publicação dos três presidenciáveis é muito diferente. Zema, por exemplo, publicou 59 tuítes em uma semana, enquanto Flávio fez 36 e Caiado, quatro. A maior parte das publicações do mineiro se deu a partir do contra-ataque de Gilmar: foram 50 publicações no X desde segunda-feira, 20.
As onze publicações de Zema na rede social que não foram direcionadas à Corte eram, sobretudo, críticas ao PT ou ao governo Lula. O mineiro tem lançado mão de uma série animada, intitulada "Os intocáveis", para ridicularizar os ministros.
Os 50 tuítes foram feitos nos últimos três dias, comentando e repercutindo notícias em relação ao contra-ataque de Gilmar. O ex-governador também tem dobrado a aposta e republicado os vídeos de sátira.
Nesta manhã, Zema respondeu a Gilmar, que disse numa entrevista que o ex-governador "fala um dialeto próximo do português, muitas vezes a gente não o entende", ao defender a inclusão dele no inquérito. Os dois têm optado por confrontos públicos, por meio de redes sociais e veículos de comunicação.
"Sabe por que você não entende o que eu falo, Gilmar Mendes? É que o linguajar de brasileiros simples como eu é diferente do português esnobe dos intocáveis de Brasília. É você recorrer ao autoritarismo pra calar os que criticam o comportamento de ministros do supremo. É você e os seus colegas terem perdido a noção do que separa o público do privado, o certo do errado", escreveu o mineiro.
Ao Estadão, Zema criticou aqueles que têm "medo e rabo preso" em Brasília e disse entender a escolha dos demais presidenciáveis em poupar o Supremo.
"Eles têm seus motivos, questões inclusive pessoais. A ação do Bolsonaro deixa o Flávio numa situação delicada. Ele falar alguma coisa pode ter reflexo na saúde do pai dele. Agora os candidatos do PSD, teve inclusive um questionamento jornalístico sobre o tema, e eles se esquivaram. Talvez seja uma orientação do partido", afirmou.
Flávio é quem tem diversificado mais sua comunicação nas redes sociais. Nos últimos dias, falou de segurança pública; fez acenos ao agronegócio; enalteceu o governo Bolsonaro; defendeu o ex-deputado Alexandre Ramagem, detido e liberado nos Estados Unidos; e atacou a esquerda, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e seu governo.
Apesar de não ter feito publicações sobre o caso de Zema, Flávio aproveitou uma entrevista coletiva na feira agrícola Norte Show, em Sinop (MT), para manifestar solidariedade ao aliado, que, afirmou ele, "é mais uma vítima dessa militância que existe no Judiciário, esse ativismo judicial, que é muito lamentável".
Ele tinha sido questionado sobre o inquérito aberto por Moraes na semana passada, atendendo a um pedido da Polícia Federal, para investigar uma suposta calúnia de Flávio contra Lula. O motivo foi um conteúdo publicado pelo senador em que ele associa a imagem do ditador Nicolás Maduro, da Venezuela, ao petista.
A publicação acompanha uma mensagem em que afirmava que Lula "será delatado" e relacionava o episódio ao "fim do Foro de São Paulo". Sem apresentar provas, o senador cita supostos vínculos com o tráfico internacional de drogas e armas, lavagem de dinheiro, além de apoio a terroristas e ditaduras.
"Eu lamento muito a abertura desse processo, porque claramente parece que tem ministro no Supremo, em especial Alexandre de Moraes, que está com saudade, enquanto presidente do TSE, de participar diretamente das eleições. Então está muito claro que eles querem, na verdade, é fazer com que a primeira turma do STF escolha quem vai ser o próximo presidente da República", afirmou Flávio.
Caiado, por sua vez, vem focando em publicações amenas e de baixo engajamento e confronto. Há diversas homenagens e agradecimentos a aliados e demonstração de solidariedade a amigos e conhecidos falecidos, além de autopromoção com feitos em seus mais de sete anos à frente do governo de Goiás.