O voo do empresário Fernando Oliveira Lima que se tornou alvo de investigação da Polícia Federal sob suspeita de descaminho ou contrabando por causa da entrada irregular de bagagens no Brasil tinha em sua lista de passageiros, além de quatro parlamentares federais, um ex-assessor que foi alvo de busca e apreensão em um braço da Operação Carbono Oculto e um empreiteiro que chegou a ser preso pela Operação Lava Jato.
A PF ainda não identificou quem era o dono das bagagens que foram transportadas pelo piloto da aeronave por fora do raio-X, com suspeita de prevaricação de um auditor da Receita Federal.
O inquérito foi remetido ao Supremo Tribunal Federal (STF) depois que a PF constatou que quatro parlamentares acompanharam o empresário no voo: o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e os deputados Doutor Luizinho (PP-RJ) e Isnaldo Bulhões (MDB-AL).
Motta afirmou, por meio de nota, que "cumpriu todos os protocolos e determinações estabelecidas na legislação aduaneira" e aguardará a manifestação da Procuradoria Geral da República (PGR). Os demais parlamentares foram procurados pela reportagem, mas ainda não se manifestaram. O espaço segue aberto.
Os parlamentares viajaram acompanhados de cônjuges e, além disso, também havia outras pessoas na lista de passageiros. Um deles era um ex-assessor parlamentar de Ciro Nogueira, Victor Linhares de Paiva, que foi alvo de busca e apreensão em um desdobramento da Operação Carbono Oculto deflagrada no Piauí.
Paiva trabalhou como assessor parlamentar de Ciro Nogueira, no Senado, entre abril de 2018 e junho de 2020, variando em cargos do gabinete pessoal e da liderança do partido, função exercida pelo senador piauiense.
Filiado ao PP de Ciro Nogueira desde 2008, foi eleito vereador de Teresina em 2024. Logo no início do ano seguinte foi nomeado secretário de Articulação Institucional da gestão do prefeito Silvio Mendes (União). O currículo dele também inclui um período como funcionário da Codevasf, a "estatal do Centrão". Em março de 2025, anunciou a filiação ao União Brasil, pelas mãos de Antonio Rueda, presidente do partido.
Paiva foi apontado como destinatário de R$ 230 mil enviados por um dono de rede de postos de combustíveis que supostamente teriam relação com o PCC, por isso ele foi alvo de busca e apreensão. Além disso, uma reportagem publicada pela revista piauí em julho afirmou que ele recebeu, entre dezembro de 2023 e setembro de 2024, R$ 625 mil de Fernando Oliveira Lima, dono da aeronave.
Fernando Oliveira Lima é conhecido como Fernandin OIG", sigla de sigla de sua empresa. Segundo a PF, o grupo representa as plataformas 7Games, Betão e R7.BET. Ele estava presente no voo com os parlamentares, que ocorreu em abril de 2025, período em que a CPI das Bets estava ativa no Senado, com a participação de Ciro Nogueira.
Procurado, Victor de Paiva não respondeu aos contatos. Já Lima afirmou que a bagagem transportada pertencia ao comandante do voo. "Recebi a notícia e a imagem e liguei para o comandante Jorge, o mesmo falou que se trata de itens pessoais dele e que o desembarque seguiu todo o processo normal", disse.
Outro nome na lista de passageiros é o empreiteiro Fernando Cavendish, que foi preso pela Lava Jato do Rio e fez uma delação premiada confessando pagamento de propina ao ex-governador Sergio Cabral e outros políticos. O Estadão fez contato com Cavendish, mas ele não havia dado um retorno até a publicação deste texto. O espaço segue aberto para manifestação.
Empresário atua no setor de bets
O voo saiu da ilha de São Martinho, um paraíso fiscal do Caribe, e pousou na noite do dia 20 de abril do ano passado no aeroporto de Catarina, em São Roque (SP), usado para aviação executiva. As suspeitas da PF surgiram a partir de uma investigação sobre a corrupção de um auditor fiscal, Marco Canella, indiciado em um outro inquérito por facilitação de contrabando ou descaminho. O auditor foi procurado, mas também não se posicionou.
No caso do voo dos parlamentares, Canella permitiu que um funcionário do empresário desembarcasse no aeroporto e passasse com sete volumes de bagagem por fora do raio-X. O procedimento foi gravado pelas câmeras de segurança.
Segundo a PF, em todos os voos fiscalizados por Canella naquela dia o auditor fiscalizou todas as bagagens de todos os passageiros. A única exceção foi com as malas do piloto de Fernandin OIG.
A investigação narra ainda que só durante o desembarque do voo do empresário das bets o auditor fez uso frequente do celular. Canella chegou a ser a questionado pela operadora de raio-X, mas em resposta gesticulou com as mãos "expressando banalidade e irrelevância".
Ainda não foram identificados os donos das bagagens que passaram ilegalmente pelo raio-X. Como o voo era proveniente de um paraíso fiscal e o auditor já tinha sido indiciado por crimes de facilitação ao contrabando e descaminho, a PF suspeita que o conteúdo das bagagens possa ser ilegal.