Cuidado com os enganadores: não há relação entre a doença Creutzfeldt-Jakob e vacinas da covid-19

POSTAGENS FAZEM FALSA CONEXÃO ENTRE DIAGNÓSTICO DO INFLUENCIADOR LITO SOUSA E O FATO DE ELE TER SIDO IMUNIZADO NA PANDEMIA

31 ago 2026 - 16h37
(atualizado às 16h56)
Resumo
É falsa a alegação de que as vacinas contra a covid-19 causam a doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ), boato surgido após o diagnóstico de Lito Sousa. Especialistas e dados globais confirmam que não há relação científica nem aumento de casos pós-pandemia. A DCJ é uma condição neurodegenerativa rara, causada por alterações na proteína príon e de origem sobretudo esporádica. Publicações que associam o imunizante à enfermidade baseiam-se em um estudo preliminar sem validação científica.
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O que estão compartilhando: que a doença com a qual o piloto de avião e influenciador Lito Sousa foi diagnosticado, Creutzfeldt-Jakob (DCJ), teria relação com as vacinas contra a covid-19. Postagens compartilham fotos dele recebendo o imunizante.

O Estadão Verifica checou e concluiu que: é falso. Não há evidências científicas que sustentem essa alegação, segundo especialistas entrevistados pelo Verifica. As bulas das vacinas aplicadas no Brasil não citam a doença entre possíveis efeitos adversos dos imunizantes. A Creutzfeldt-Jakob é uma doença rara, que atinge cerca de uma a duas pessoas por milhão ao ano. Os dados da França e Estados Unidos mostram que o número de diagnósticos se manteve similar nos anos anteriores e posteriores à pandemia.

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O que é a doença de Creutzfeldt-Jakob?

A doença de Creutzfeldt-Jakob causa a degeneração do sistema nervoso e afeta funções cognitivas, como memória, equilíbrio, coordenação e movimentos. Ela está relacionada ao envelhecimento, acometendo principalmente pessoas entre 60 e 70 anos.

A condição é resultado de uma alteração da proteína príon, presente no nosso organismo, que muda de estrutura e induz outras proteínas normais a se modificarem, causando uma reação em cadeia.

A forma anormal das proteínas compromete o funcionamento do cérebro, explica a doutora em química biológica Tuane Vieira, professora adjunta da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). "Com esse formato alterado, ela não consegue mais desempenhar sua função fisiológica e passa a ser tóxica para a célula. Consequentemente, leva à morte dos neurônios."

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O professor Ricardo Nitrini, neurologista da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), explicou que há três formas conhecidas da doença. A esporádica é aquela sem uma causa externa, a partir de uma mudança espontânea da proteína, representando 85% dos casos. "Não se sabe por que a proteína príon, ou priônica, sofre mudança de estrutura nos casos esporádicos da doença, tornando-se proteína príon patológica", disse ele.

Há ainda a forma genética, que está relacionada a alterações no gene PRNP, responsável pela produção da proteína príon. Ela corresponde a cerca de 10% do total dos casos, segundo o professor.

A terceira forma, extremamente rara, é a adquirida, com relato de alguns casos após procedimentos ou transplantes de tecidos ou materiais contaminados. O neurologista assegura, contudo, que não há transmissão entre pessoas no convívio diário.

Existe ainda uma variante ligada à "doença da vaca louca", que pode ocorrer após a exposição ao agente causador da doença em bovinos. O Ministério da Saúde aponta que, desde 2005, quando foi instituída a obrigatoriedade de notificação da variante no Brasil, nunca houve um caso humano confirmado.

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Além disso, não existem dados que demonstrem um aumento de diagnóstico da DCJ após a pandemia e campanhas de vacinação. "Nós temos centenas de milhões de idosos que foram vacinados para a covid", observou a professora Tuane. "Se fosse assim, teríamos um número muito maior, não seria uma doença rara na população."

Lito Sousa está internado em São Paulo
Lito Sousa está internado em São Paulo
Foto: Reprodução/YouTube

A agência de saúde da França publica uma série histórica de casos suspeitos da doença. É possível verificar na tabela que não houve um aumento significativo da notificação nos últimos anos.

Nos Estados Unidos, a Universidade Case Western Reserve, de Ohio, mantém um centro de vigilância sobre a Creutzfeldt-Jakob e monitora números de casos confirmados. Os dados também mostram uma similaridade nas notificações por ano.

A organização americana Creutzfeldt-Jakob Disease Foundation esclareceu, ainda durante a pandemia de covid-19, que não há conexão conhecida entre a vacinação e a doença, segundo o epidemiologista Ryan Maddox, do Escritório de Príons e Saúde Pública dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), agência de saúde dos EUA.

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Estudo comprova ligação das vacinas com DCJ?

Um conteúdo viral na rede social X, com mais de 100 mil visualizações, compartilhou que um estudo do virologista francês Luc Montagnier ligou a doença de Creutzfeldt-Jakob às vacinas. Contudo, o texto de 2022 não é um estudo publicado em revista científica e revisado por pares.

O artigo foi veiculado em um repositório aberto, que não tem avaliação da comunidade científica. "É um pré-print [versão preliminar de uma pesquisa], ou seja, não é um artigo que foi revisado por pares", disse a pesquisadora Tuane. "Não está publicado em uma revista científica, então não passou por nenhum rigor de avaliação."

O texto foi publicado no site após o falecimento do médico Montagnier. O cientista, que ganhou o prêmio Nobel em 2008 por participar na descoberta do vírus do HIV, espalhou desinformação durante a pandemia sobre as vacinas da covid-19.

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A publicação relaciona casos identificados da DCJ em pacientes que receberam a segunda dose de vacinas de RNA mensageiro. Segundo a professora Tuane, a correlação feita no estudo entre o aparecimento da DCJ e a vacinação nem sequer é compatível com o tempo de evolução da doença.

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